Margaret Atwood: questão incendiária do ódio às mulheres e LGBTQs
Flores em vida é o nome desta coluna que se inaugura hoje com este texto e que, doravante, ocupará a Cult digital – revista da qual sou colaborador há alguns anos – a cada 15 dias. Um ponto de encontro e uma periodicidade para minhas leitoras e leitores. Como sugere seu título, a coluna pretende dar flores a artistas e intelectuais diversos, relevantes não apenas para minha formação cultural e cidadã, mas para o progresso espiritual da humanidade como um todo, e que seguem vivos.
Esta coluna será uma espécie de antiobituário, porque não devemos esperar a morte de trabalhadoras e trabalhadores, artistas e intelectuais para lhes render homenagens por suas contribuições, não importando quão famosa e/ou lembrada seja esta pessoa. A coluna será, portanto e também, um antídoto contra o apagamento ou esquecimento dela. Mais: como sou um jornalista, escritor e artista interessado na compreensão e análise do mundo que ainda partilhamos, Flores em vida usará das contribuições da homenageada ou homenageado para este fim.
Explicitados os motivos desta coluna, as primeiras flores em vida eu dou à escritora canadense Margaret Atwood, que se tornou mundialmente famosa por causa da adaptação de sua novela O conto da aia, publicada pela primeira vez em 1985, para uma série do streaming Hulu protagonizada por Elizabeth Moss, que também a produz e dirige alguns dos episódios de suas seis temporadas.
Nascida em 18 de novembro de 1939, em Ottawa, no Canadá, Atwood estreou na literatura muito jovem, aos 21 anos, com a coletânea de poemas Double persephone, lançada em 1961. Ao longo de uma carreira que segue bastante produtiva – Atwood publicou, em 2019, Os testamentos, a tão esperada continuação de O conto da aia, e, em 2022, Questões incendiárias, sua terceira coletânea de ensaios e outros escritos, além de atuar como produtora executiva das adaptações televisivas de seus romances –, ela já recebeu alguns dos mais importantes prêmios literários do mundo, entre eles o Booker Prize – conquistado duas vezes, primeiro por O assassino cego (2000) e depois por Os testamentos –, o Governor General’s Award, o Arthur C. Clarke Award, o Franz Kafka Prize e o PEN Pinter Prize, consolidando-se como uma das escritoras mais influentes da literatura contemporânea. É uma das cotadas para receber o Nobel de Literatura.
Contudo, não foi apenas esta justa premiação que me levou a escolhê-la para receber, em vida, agora as minhas primeiras e modestas flores. Antes, foi sua singular capacidade de, a partir da leitura atenta e honesta dos passados das civilizações humanas, imaginar futuros plausíveis que podem ameaçar de destruição as conquistas civilizatórias e a dignidade de minorias. Atwood não gosta quando dizem que ela é “bruxa capaz de prever o futuro”; todavia, sua “ficção especulativa” – ela prefere este termo a “ficção científica” – foi capaz de antever em décadas o atual estado de ameaça difusa e violência política em que as mulheres e a comunidade LGBTQ se encontram nas democracias liberais ocidentais em crise por causa da ascensão de um neofascismo global iniciada em 2016 com a primeira eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA.
Em O conto da aia e Os testamentos, Atwood imagina os EUA após um golpe militar de fundamentalistas cristãos que os transformam no Estado teocrático batizado de “Gilead”, referência ao rio Jorão citado na Bíblia. Nele, os homens gays e transgêneros são executados sumariamente; as mulheres, dominadas, exploradas e/ou escravizadas sexualmente a partir de sua classe social e de sua fertilidade. As férteis pobres são convertidas em “aias”, parideiras estupradas em série por comandantes militares e ricos cujas esposas são estéreis. São identificadas pela cor vermelha e por brincos de metal na orelha com um número, como se fossem vacas. As lésbicas inférteis são mandadas para prostíbulos (as mais sortudas) ou, juntamente com as adúlteras e delinquentes, para colônias penais onde trabalham forçosamente em programas de redução da poluição ambiental que derrubam sua saúde e expectativa de vida em apenas alguns anos. As mulheres inférteis pobres viram “Martas” e trabalham como domésticas para as esposas dos comandantes do regime ou para as “econoesposas” dos demais membros masculinos da teocracia – todas elas identificadas por tons de azul. E há ainda as que cumprem o papel de carrascas educadoras para o lar e disciplinadoras das aias – as “tias”, identificadas pela cor marrom – e as evangelizadoras, as “pérolas”.
Em Gilead, a Constituição americana é substituída pelo Antigo Testamento, e este é utilizado não só para inspirar os rituais de estupro das mulheres, mas para justificar a dominação masculina sobre elas.
Ora, os EUA atualmente estão bem próximos desta distopia criada por Atwood durante ascensão, no Ocidente, da direita religiosa reacionária representada pelos neoliberais Ronald Reagan (nos EUA) e Margaret Thatcher (Reino Unido), dois monstros que desprezavam profundamente os pobres e trabalhadores e atuavam para garantir e ampliar os privilégios econômicos e sociais dos mais ricos e dos brancos.
A transformação dos EUA numa ditadura cristã e supremacista sob o governo Trump tem estimulado uma onda de misoginia e homolesbotransfobia em outros países cujas classes dominantes locais são admiradoras e/ou vassalas do imperialismo estadunidense. Como em muitos dos estados dos Estados Unidos governados por republicanos puritanos reacionários (mas amiúde hipócritas), no Brasil e em outros países da América Latina, bem como na Europa Ocidental, o discurso de ódio contra as mulheres e os ataques – baseados em leituras fundamentalistas do Antigo Testamento da Bíblia – a seus direitos civis duramente conquistados estão, sem nenhum pudor, na boca de influenciadores digitais (entre os quais, muitas mulheres cristãs neopentecostais) organizados em uma economia política tão lucrativa quanto deletéria. As big techs e mesmo o que resta dos veículos de comunicação de massa aceitam passivamente – quando não estimulam – os cruzamentos disto que Atwood chama acertadamente de “bandeiras de perigo”.
São muitos os políticos da direita americana fazendo coro a influenciadores digitais que defendem o fim do voto feminino, o estupro como meio de “correção sexual” das lésbicas e o extermínio em massa de gays, bem como da “brown people” que, em suas paranoias, ameaça a supremacia branca.
Donald Trump apoia abertamente uma proposta de reforma eleitoral chamada SAVE America Act (antes chamada apenas de SAVE Act) e pretende endurecer as regras de registro eleitoral nos Estados Unidos. O projeto exige que todo eleitor apresente prova documental de cidadania – como passaporte ou certidão de nascimento – além de documento oficial com foto para poder registrar-se e votar em eleições federais. Na verdade, o projeto visa impedir que milhões de mulheres americanas casadas que adotaram o sobrenome do marido, fazendo com que o nome atual não coincida com o da certidão de nascimento, possam votar. Isto porque lá, como em outras partes do mundo, mapas eleitorais têm mostrado que as mulheres têm sido as salvadoras das democracias e o freio nos abusos do capitalismo neoliberal de concentração de renda nas mãos de bilionários e de ecocídio.
No Brasil, essa extrema direita cristã reacionária, misógina e homofóbica estadunidense encontra eco desde 2016, ano do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, sendo o MBL e o PL as organizações mais criminosas nesse sentido. Pastores evangélicos e “coaches” de masculinidade, bem como suas esposas ou jagunças, passaram a explorar econômica e digitalmente o ódio às mulheres, com o apoio dos algoritmos das mídias sociais, e o resultado é o alarmante número de feminicídios em todo o país. Grupos como Legendários, Arautos do Evangelho ou personalidades como o ator Juliano Cazarré, Sarah Sheeva e antifeministas brancas cafonas como Pietra Bertolazzi sonham com a restauração de um passado mítico em que as mulheres brancas ricas sejam “esposas troféu” de machos brancos que vão controlar a economia com a Bíblia na mão, escravizando as mulheres pobres que, a despeito da classe social, têm que estar igualmente sob a dominação masculina. Nas fantasias desses fascistas sem-vergonha (não raro predadores oportunistas buscando enriquecer explorando a ignorância de pobres religiosos ansiosos e amedrontados com as transformações tecnológicas e sociais), só não entraram, ao menos por enquanto, a estratificação da sociedade em cores prevista por Margaret Atwood em seus primorosos romances. A fanática Sarah Sheeva, os Bolsonaro e os pastores ladrões das seitas neopentecostais já defendem a extinção da comunidade LGBTQ há tempos.
No momento, o leitor pode acompanhar a adaptação televisiva de Os testamentos no streaming Hulu, caso não queira ler o livro homônimo de Atwood. Poderá constatar como estamos próximos do horror daquela distopia.
Porém, não quero encerrar esta coluna de forma pessimista. A obra da canadense é também pródiga em mostrar que sempre haverá resistência heroica às tiranias e que a decência humana básica pode ser organizada politicamente. Ambos – heroísmo e organização política da decência – podem vir principalmente das pessoas a princípio não talhadas para a política e/ou ativismo intelectual. June, Agnes, Nicole, Grace e Lydia – algumas de suas personagens principais – são mulheres comuns que decidiram sair do lugar de vítimas e lutar pela igualdade, a liberdade e a fraternidade.
Intelectual corajosa, Margaret Atwood não poupa críticas ao texto bíblico que serve de fundamento sólido a um puritanismo cristão hipócrita que permanece escondido sob o pó de democracia que lhe cobre e que pode ser espanado na primeira crise econômica que se apresente, como neste momento.
Por toda sabedoria que comporta sua literatura, pelos alertas que ela dispara, pela resistência política que ela inspira, a escritora canadense Margaret Atwood merece todas as flores em vida!
Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de “Falsolatria” (Editora Nós e Edições Sesc SP, 2024) e “O anonimato dos afetos escondidos” (Tusquets Editores, 2025). É pré-candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.





