Lucas Paraizo: “’Os outros’ é uma tentativa de enriquecer o debate sobre as camadas do ser humano”

Lucas Paraizo: “’Os outros’ é uma tentativa de enriquecer o debate sobre as camadas do ser humano”
Temporada 3 de "Os Outros" (Crédito: Julia Mataruna)

 

 

A terceira temporada da série Os outros, à qual a Cult teve acesso prévio aos três primeiros episódios, estreia no Globoplay no dia 9 de abril. Como nas temporadas anteriores, serão disponibilizados quatro episódios por semana, sempre às quintas-feiras (dias 9, 16 e 23), totalizando 12 capítulos.

Após duas temporadas ambientadas em condomínios no Rio de Janeiro, a trama – criada e escrita por Lucas Paraizo e com direção artística de Luisa Lima – desloca-se para o campo, ampliando as discussões centrais da série: a intolerância, as crises pessoais, a dificuldade de diálogo na sociedade contemporânea e os limites a que somos levados para proteger quem amamos.

Cibele (Adriana Esteves) e Roberto (Lázaro Ramos)

A mudança de cenário, no entanto, não representa uma ruptura temática. Como afirma Paraizo, a proposta é “mostrar como essa lógica opressiva e intolerante se repete, infelizmente, a despeito do cenário em que ela acontece”.

Na nova temporada, Roberto (Lázaro Ramos), recém-demitido da empresa em que trabalhava há anos, muda-se para o interior com a esposa, Marta (Mariana Lima). É nesse contexto que o casal encontra Cibele (Adriana Esteves) e Marcinho (Antonio Haddad), que retornam à narrativa após a morte de Sérgio (Eduardo Sterblitch) e passam a viver sob identidades falsas.

O desejo de reconstruir a própria vida — eixo central da temporada — atravessa não apenas a trajetória desses personagens, mas também a de outros moradores do local. Entre eles estão os irmãos Geraldo (Pedro Wagner) e Patrícia (Carol Duarte), além de Manoel (Bruno Garcia) e Domingas (Docy Moreira), que vive com o filho Diego (Adanilo) e estabelece com os animais uma forte relação de afeto.

Casa de Roberto (Lázaro Ramos)

A presença da natureza também ganha força nos novos episódios. Para Paraizo, “a temporada sugere que também somos intolerantes com a natureza — o que aparece, por exemplo, na questão do tráfico de animais e nos limites que ultrapassamos por causa das nossas ambições”.

Lucas Paraizo, criador e roteirista de “Os outros” (Crédito: Fernando Young)

Em entrevista à Cult, por chamada de vídeo, Lucas Paraizo (que também é autor da série de sucesso Sob Pressão) falou sobre a mudança de ambientação da série, as referências que orientaram a construção desta fase da narrativa e o interesse do projeto em investigar, por meio da ficção, as contradições e complexidades da sociedade atual.

 

Depois de duas temporadas ambientadas no espaço urbano do Rio de Janeiro, o que o levou a deslocar a trama para o campo?

Os outros é o que chamamos de uma série que combina uma antologia com um serializado. Apesar de termos uma história central (que é a história da personagem de Adriana Esteves, a Cibeli), a cada temporada agregamos novos personagens e novas perspectivas. Assim, da mesma forma que me senti livre lá no começo, na segunda temporada, para utilizar a ambientação de um condomínio de luxo, para tratar de religião, para tratar de milícia, também me senti livre para mudar de cenário – e, de alguma maneira, mostrar como a lógica opressiva e intolerante se repete, infelizmente, a despeito do cenário em que ela acontece. A ideia, portanto, era que fôssemos para o campo para ampliar a discussão sobre a intolerância.

 

Em uma entrevista, você mencionou o assassinato do seu pai durante um assalto na serra de Petrópolis. Essa experiência pessoal influenciou, direta ou indiretamente, a construção da nova temporada?

Na verdade, esse evento trágico me influenciou mais na primeira temporada. Eu queria falar da questão do armamento, da ideia de achar que comprando uma arma você pode resolver a violência. Sempre fui contra qualquer tipo de violência, principalmente a armada. No começo da primeira temporada, mostramos a personagem comprando uma arma para defender o filho; agora, no final da terceira, responderemos a essa pergunta. Uma personagem que comete um ato em uma situação de medo, coloca a vida do filho em risco, coloca a vida da sua família em risco, o filho foge, se envolve com bandidos, ela vai atrás dele e ela mata uma pessoa e foge – que é o que acontece entre a primeira temporada e a segunda. Agora, ela vai de alguma maneira entender essas consequências. Em algum lugar, portanto, existe um desejo de fazer um alerta sobre essa banalização armamentícia da população. Para a terceira temporada, houve um outro evento de inspiração. Um amigo se aposentou, foi morar na serra; ele estava superfeliz, um pouco parecido com o Roberto, e seu caseiro foi assassinado. Achei uma contradição muito grande, e que parecia muito Os outros: a ideia do idílico e a ideia da realidade. Então, nessa terceira temporada, uma história que eu ouvi de um amigo me influenciou mais do que a perda do meu pai, apesar de ser a motora conceitual para fazermos um apelo sobre a conscientização de não usar armas.

Isso me lembrou a cena em que o Amâncio (Thomas Aquino) diz que o campo é seguro. 

Sempre idealizamos o que a gente não tem. Na primeira temporada, Cibeli e Amâncio, com o Marcinho pequeno, mudam-se para um condomínio, onde eles terão segurança e lazer. Depois, na terceira temporada, é o Roberto que está querendo recomeçar a vida – essa palavra, recomeçar, é muito importante nessa temporada. Ele acha que o campo é a solução para os seus problemas, e não é. Acho que também estamos falando da insatisfação de sempre desejarmos o que não temos.

A primeira temporada estreou em 2023, e a terceira chega três anos depois. Nesse intervalo, você percebe mudanças na forma como a intolerância e a ruptura do diálogo se manifestam na sociedade atual? De que modo essas transformações – ou permanências – atravessam a nova temporada?

A realidade é o ponto de partida para todos os meus trabalhos. Em Sob pressão, nos baseamos na realidade de maneira mais realista; já em Os outros, de maneira um pouco mais dentro do absurdo, da loucura da realidade, mas sempre em diálogo com ela. Eu acho que uma coisa que não mudou de 2019 – quando comecei a escrever a primeira temporada – para hoje, é a polarização. Infelizmente, continuamos muito polarizados, e eu acredito que a polarização nem sempre é favorável ao debate. Nossa política está menos no lugar do conflito e mais no lugar de colocar personagens dentro de um contexto que se parece com o nosso contexto social. A Domingas parece uma coisa; daqui a pouco, você vê que é outra. O Roberto, coitado, parece uma coisa; depois ele acaba demitindo seu funcionário, da maneira que fizeram com ele. Assim como a vida não é uma coisa só, as pessoas não são uma coisa só. E, quando você só tem dois lados para escolher, o diálogo fica muito pobre. O que Os outros traz, portanto, é uma tentativa de enriquecer o debate sobre as camadas do ser humano.

O êxito da série, agora em sua terceira temporada, sugere uma forte identificação do público. Na sua avaliação, o que esse reconhecimento revela sobre a sociedade brasileira contemporânea?

Eu acho que isso revela um desejo de tomar partido, mas também mostra a necessidade de olhar as coisas com mais profundidade. Vejo isso, por exemplo, no Big Brother – que todo mundo está assistindo e que também funciona como um reflexo da sociedade. Existe essa lógica dos “times”, de torcer por alguém sem conseguir enxergar defeitos em quem se defende; ao mesmo tempo, enxergando apenas defeitos no outro lado. Essa forma mais superficial de olhar a vida mostra como a sociedade precisa aprofundar suas perspectivas. Outro dia, participei de uma palestra em que um pesquisador disse: uma das teorias para reduzir a polarização seria acabar com o home office. Fiquei pensando: “Por quê?”. E ele explicou que o trabalho remoto afasta as pessoas, sem a convivência cotidiana em um ambiente onde o respeito é necessário, elas passam a se expressar de formas diferentes no online e nas redes sociais. Segundo ele, se houvesse mais convivência presencial, talvez a polarização diminuísse. Ou seja: uma possível solução seria reduzir o home office. Eu até brinquei: “Gente, mas eu adoro home office!”. Ainda assim, faz sentido. As pessoas estão convivendo menos entre si e cada vez mais com o celular. Nesse contexto, a série tira um pouco o público do ambiente virtual e o coloca em um confronto mais direto, mais real. E acho que há outro elemento importante: a identificação. A sensação de que aquilo poderia acontecer com qualquer um: comigo, com o vizinho do apartamento ao lado, com o vizinho da casa da frente – alguém, de repente, pode revelar algo inesperado, como o fato de ser miliciano; ou alguém pode tratar melhor os animais do que as pessoas. Talvez seja justamente essa proximidade com a realidade que faz o público se envolver tanto com a história.

O Roberto vai para o campo para tentar fugir de seus problemas, mas não consegue. Certo? 

É um desejo muito grande de ter uma nova chance. Todos merecem recomeçar. Eu acho que a graça da terceira temporada é que tanto o Roberto quanto a Cibeli querem recomeçar com novas identidades. São duas pessoas em busca de recomeços que se cruzam e se transformam. É por aí o “logline” [a premissa] dessa temporada.

Sinto que todos os personagens querem recomeçar de alguma maneira. A Marta também quer recomeçar – com o amante dela. São recomeços diferentes.

O que significa recomeçar? Acho que é uma boa pergunta para nós.

Além de introduzir novos personagens, o que a terceira temporada traz como continuidade da história? Quais são as principais diferenças em relação às duas primeiras?

As três temporadas tratam de intolerância – tema central da série –, mas também abordam crise de masculinidade. Isso aparece tanto em Amâncio, na primeira temporada, quanto no personagem de Sérgio Guizé (Paulo), na segunda, que enfrenta a frustração de não conseguir ter um filho com a esposa. Agora, vemos Roberto, um homem que antes tinha controle sobre o trabalho e a própria vida e que, de repente, perde tudo e entra em crise. Assim, a intolerância, a crise da masculinidade e as diferentes formas de opressão – seja pelo condomínio, pela sociedade ou pelo trabalho – estão muito presentes. A maternidade também é um tema importante: até onde uma mãe vai para salvar ou educar seu filho? Essa é uma questão central para Cibeli, que aprende, ao longo da história, a deixá-lo seguir o próprio caminho, mesmo depois de tantas tragédias vividas pelos dois. Talvez o elemento novo desta temporada seja a presença da natureza. Surge aí uma metáfora com a própria natureza humana. A relação com o meio ambiente amplia o debate: não se trata apenas da relação do ser humano consigo mesmo, mas também com o mundo ao seu redor. Nesse sentido, a temporada sugere que também somos intolerantes com a natureza – o que aparece, por exemplo, na questão do tráfico de animais e nos limites que ultrapassamos por causa de nossas ambições. Assim, a natureza se articula com outros temas centrais: a intolerância, a crise da masculinidade, a maternidade e os conflitos entre vizinhos. No fundo, todos os personagens parecem deslocados nesta temporada; ninguém quer, de fato, estar ali.

A relação entre Marcinho e Domingas é muito significativa. Por que você acha que Marcinho se identifica tanto com ela?

A relação entre Domingas e Marcinho é muito bonita. Os outros também aborda o tema do ciúme em diferentes frentes, tanto por parte de Cibele quanto de Diego, filho de Domingas. A série está sempre buscando surpreender o público, mas não de forma gratuita: são surpresas coerentes com a lógica dos personagens. A aproximação entre Domingas e Marcinho nasce de um lugar comum de dor. Em determinado momento, ela diz ao filho: “Nós somos feitos da mesma dor”. Talvez seja justamente essa experiência compartilhada de perda que os une, apesar das diferenças entre eles. Domingas é uma mulher negra, mais velha, vinda do campo; Marcinho é um jovem branco, urbano, que perdeu uma perna. Nesse caso, as diferenças que poderiam afastá-los acabam aproximando-os. Essa relação também lança uma luz sobre nós: o diferente nem sempre separa. Domingas e Marcinho mostram que o diferente pode aproximar – e que isso pode ser algo positivo. Se, em uma série marcada por tantos conflitos, não houver espaço para a possibilidade de afeto entre as pessoas, também não se oferecem alternativas. Sempre digo que estamos fazendo Os outros para provocar reflexão e, quem sabe, contribuir para transformar a percepção das pessoas sobre o que é o outro. Não por acaso, a série se chama Os outros.

Também há uma identificação entre Cibeli e Roberto, como na cena em que ela o encobre diante da acusação de Domingas. Como você interpreta essa relação entre os dois personagens?

Ele a salvou no barranco; agora, ela o salvou. Nesta temporada, os personagens estão mais solidários. Isso parece ser uma resposta às tragédias que enfrentaram. Esperamos que essas experiências contribuam para transformá-los para melhor. 

A sensação de tensão constante na série lembra filmes como Bacurau, de Kléber Mendonça Filho, e Parasita, de Bong Joon-ho. Essas obras foram referências para você? Quais outras influências inspiraram a criação da série?

Tanto Parasita quanto Bacurau têm uma característica que Os outros também incorpora: a liberdade de transitar entre drama, comédia, terror, suspense, melodrama e aventura. Essa mistura de gêneros é fundamental para criar surpresa e provocar diferentes emoções no público. Entre as referências desta temporada está As bestas, de Rodrigo Sorogoyen. O livro Sobre os ossos dos mortos, da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura Olga Tokarczuk, também foi fundamental para trazer a temática da natureza à narrativa, especialmente na construção da personagem Domingas e de sua relação com a sociedade. Outra referência importante é Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Ethan e Joel Coen. Personagens como o delegado interpretado por Odilon Esteves dialogam com esse universo, próximo também do estilo de Fargo. Por fim, Andrei Tarkovsky foi uma referência estética central, especialmente pela forma como trabalha a presença da natureza no audiovisual.

Haverá uma nova temporada ou a história se encerra na terceira? 

Toda história é pensada para ter um fim, mas também para permitir um recomeço. Os outros tem um encerramento, mas deixa aberta a possibilidade de continuidade. Há fôlego e história para isso; depende da receptividade do público e do nosso desejo de seguir com o projeto. Atualmente, estou envolvido em dois novos trabalhos. Passei sete anos dedicando-me à série Sob pressão, ambientada basicamente em um único espaço; depois, passei para a trilogia que hoje chamamos de Os outros. Agora, quero experimentar novos caminhos – talvez algo mais romântico ou diferente do que já fiz. Gosto de me desafiar, de fazer o que ainda não sei e, assim, continuar aprendendo e evoluindo.

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