O filho do mito e a negação do nome do pai

O filho do mito e a negação do nome do pai

Meios de comunicação corporativos vêm chamando o filho mais velho de Jair Bolsonaro, o famoso “01”, simplesmente de “Flávio”. O ocultamento do sobrenome “Bolsonaro” é evidente e tem como função um reposicionamento da marca política que é o nome de um candidato.

Nesse contexto, surge a produção de um novo “mito”, no sentido de narrativa originária que deve ter valor de verdade. O que Phillipe Lacoue-Labarthe e Jean Luc-Nancy definiram como “mito nazi” foi a invenção de uma origem (algo que as religiões neopentecostais fazem usando o judaísmo, por exemplo e que o capitalismo cristão fez usando mitos antigos que levaram ao que conhecemos por “Natal”).

Mas no nazifascismo brasileiro usa-se um expediente novo, na linha da inversão do sentido, no que, em trabalhos anteriores chamei de “retórica do desnorteio”. É preciso confundir (produzir dissonância cognitiva, dissociação da consciência, ignorância e desinformação, além de ódio) para governar. O psicopoder é o cálculo que o poder faz sobre o que as pessoas pensam, sentem, acreditam e, por fim, fazem. No caso, entra no calculo o voto como ação política fundamental. Como votar em alguém que tem o nome sujo?

Oculta-se, no caso do exemplo de Flavio Bolsonaro, a “origem”, um aspecto fundamental na construção de um mito. Se o que o mito faz é justamente estabelecer uma origem, o mito político forjado à força, estabelece uma outra coisa no lugar do mito. E isso quer dizer que a nova forma do mito não é mais a “narrativa da origem”, mas a “narrativa imposta”. Nesse caso, quando antropólogos responsáveis epistemologicamente como Eduardo Viveiros de Castro imploram que não se use mito como sinônimo de mentira, infelizmente, não podemos atender ao seu apelo. A palavra “mito” foi sequestrada e distorcida desde o advento de Bolsonaro, a propósito, do próprio Jair enquanto “Messias”.

Na produção do seu mito, alcunha pela qual ficou conhecido, a profecia e a promessa de um país livre de comunistas e de petistas, confluíram para uma distopia apresentada como melhor dos mundos possíveis. O autoritarismo foi imposto como democracia, a morte como um fato inevitável diante da pandemia de Covid, a vergonha internacional diante de uma presidente que não sabia falar com outros líderes como um fator politicamente anódino, bem como todo o comportamento cênico, “grotesco” e “ridículo” (para remontar a Foucault) do presidente em questão. O mito Bolsonaro sempre foi um acinte à democracia e ao povo pobre do Brasil. Analisar os efeitos de poder visados com distorções desse tipo, típicas da retórica autoritária, daqueles que Foucault definiu como “governantes infames” continua sendo uma tarefa histórica.

 

Limpar um nome sujo com uma lavagem cerebral

 

O apagamento do sobrenome Bolsonaro é proposital. Trata-se, na verdade, de uma higienização, de uma “lavagem do nome” para garantir a manutenção de um capital político cada vez mais sujo. A expressão “familícia” e a prisão do presidente “ladrão de joias” ou “golpista” são sinais evidentes da lama geral onde ele e seus parceiros afundaram a nação, mas sempre é possível ajudar a piorar e voltar ao sadomasoquismo político que mantem os abusadores da democracia no poder.

A “lavagem do nome” na política equivale à “lavagem de dinheiro” no universo das finanças, pois o nome é um capital fundamental do campo do poder. Um nome bem produzido, por si só, ou seja tem poder de eleger um candidato. Na era da política rebaixada à publicidade, o “design” político exige pouco de um candidato, sua imagem e um nome próprio que serve de significante de luta ou de guerra. Por isso, pessoas usam nomes de líderes políticos como se fossem próprios. Assim, surgiram “Marias ‘Lulas’ da Silva”, tendo o nome “Lula” como marca, como no passado muitos assumiram o nome “Guarani-Kaiowaá” para reforçar uma minoria étnica na mira do extermínio. Do mesmo modo, uma deputada envolvida no crime de racismo passou a usar o nome “Bolsonaro” como se fosse próprio. Os filhos de Bolsonaro não precisam de esforços de nomeação, por serem herdeiros diretos. Apagar o nome nesse momento é que obriga à reflexão.

Com um nome elegem-se em todo o Brasil e pelo mundo afora esposas laranjas, filhos e filhas ineptos que não tem nada além do referido nome do pai, ou nome de família. Personagens inexpressivos ocupam cargos eletivos mantendo o poder no círculo vicioso que beneficia as elites numa falsa “meritocracia”, pois os herdeiros raramente tem algum mérito diante do capital político herdado. Mais do que elitismo, fisiologismo ou classismo, se trata de uma espécie de “nepotismo endógeno” da política, do que podemos chamar de “habitus” monárquico, que faz as pessoas votarem sem pensar nos herdeiros do poder, apenas por que são herdeiros. É o que filósofos – como Michel de Montaigne no começo da modernidade e Jacques Derrida na contemporaneidade – chamaram de “fundamento místico” da autoridade.

Em outras palavras, as pessoas votam como que automaticamente em nomes que soam como estirpes políticas (Sarneis, Arraes, Covas…). As pessoas escolhem, mas sem ter de fato escolhido. Votam sem real livre-arbítrio, ou, na verdade, com a sensação de profundo livre-arbítrio sem perceber que tem pouca ou nenhuma liberdade, no sentido da autonomia da escolha e de sua racionalidade em relação ao “bem” contra o “mal”.

Podemos retomar aqui o tema do paradoxo da democracia de Karl Popper (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, 1945). A democracia é destruída democraticamente quando se elege uma proposta autoritária e, portanto, antidemocrática. Do mesmo modo, a liberdade implode quando se escolhe fazer o mal, já que o mal é, de fato, a destruição da possibilidade de se escolher fazer algo diante da alternativa em fazer o bem ou o mal. Escolher a destruição impede a escolha de continuar podendo destruir.

Desligadas de projetos políticos sobre os quais deveriam refletir e ponderar, as pessoas optam pela simples paixão da repetição na hora de votar. É a submissão ao líder, seja ele qual for que está na base do ato. Lacan talvez perguntasse se o apagamento do que ele definiu como sendo o “Nome-do-Pai” enquanto significante fundamental, produziria algum efeito na ordem desde que a função simbólica de introduzir a “Lei na ordem do desejo” estaria cancelada. Em termos práticos, a metáfora paterna tem a função de inserir o sujeito no mundo da cultura e operar aquem da perversão comum que caracteriza os delirios de massa, inclusive o fascismo. Sem a metafora paterna, sem a obediência à lei, o “delírio do poder” entra em jogo como nunca.

Isso quer dizer que Fabio Bolsonaro pode vir a ser muito pior do que seu pai, doente e cada vez mais apagado na prisão.

 

 

Limpar um nome sujo

 

Jair, o pai, sujou um nome que já não era limpo. Seu histórico militar sempre teve cheiro de podre e os eventos criminosos da tentativa de golpe no começo de 2023 levaram a níveis escatológicos de imundície politica que culminou com a prisão na Papuda, terror de Bolsonaro. Seus crimes, sempre é bom lembrar foram diversos (1 – Abolição violenta do Estado Democrático de Direito, 2 – Golpe de Estado, 3 – Liderar organização criminosa armada, 4 – Dano ao patrimônio da União, 5 – Deterioração de patrimônio tombado). As massas que atacaram a sede dos poderes em Brasília entraram em um verdadeiro “delírio do poder” que tem bases sólidas na cultura brasileira. Para além da falta de memória em relação aos fatos históricos de um pais colonizado e que passou por uma escravização, para além da anomia generalizada, um ponto ainda mais complicado permanece em jogo. Ele se refere ao desprezo pela lei que leva ao desprezo pela própria noção de crime. Se a anomia, o desconhecimento da lei, é um fato no contexto da falta de educação para o direito e o sistema de justiça, é, além disso, o próprio crime que está culturalmente autorizado no Brasil desde que ele seja praticado pelos “líderes autoritários” e idolatrados pelas massas ou por agentes consensuados: homens brancos e ricos raramente são presos. Assim, os bolsonaristas atacam Lula como “presidiário” sustentando até hoje a crença em crimes totalmente imaginários enquanto, ao mesmo tempo, desconsideram os crimes reais de seu líder e de muitos outros em posição de poder. É fato que, a falta de racionalidade das hordas bolsonaristas, elas mesmas fascistas, leva muita gente a pensar que essas pessoas estão maníacas, que estão em surto. Não é errado falar em “síndrome autoritária” em relação às massas e seus líderes, como escreveu Theodor adorno acerca do nazismo alemão.

Diante disso tudo, limpar o nome Bolsonaro exige operar um reposicionamento da marca e a mídia corporativa tem um papel decisivo nisso. Desvinculando “Flávio” de “Bolsonaro”, tentando apresentá-lo como um sujeito razoável e ponderado, ele se torna um candidato viável. Ao mesmo tempo, as operações do “gabinete do ódio” (uma mídia de guerrilha que trabalha veiculando ódio e fake news), segue criando o “inimigo” Lula e a inimiga “esquerda” num oceano de desinformação. Os cidadãos desavisados podem colaborar simplesmente passando adiante e participando da orquestração mentirosa e delirante enquanto alcançam o gozo exigido por seu ressentimento generalizado contra a democracia.

Nesse contexto é que se insere “Flávio” como herdeiro legítimo de seu pai. Balançando no pêndulo pendurado ao pescoço dos donos dos meios de produção da notícia, o “Flávio” vai surfando enquanto Bolsonaro segue preso ou no hospital. Flavio Bolsonaro esta cindido tendo que equilibrar o peso positivo do nome aos olhos dos extremistas de direita e o peso negativo do nome para aqueles que buscam a assepsia decorativa na política, a saber, certa direita que acha Bolsonaro um horror porque, na verdade, não consegue manipulá-lo para os seus fins.

Marcia Tiburi é filósofa, artista plástica, professora e autora de Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo (Record, 2020), Complexo de vira-lata: Análise da humilhação brasileira (Civilização Brasileira, 2021) e Ninfa morta (Planeta, 2025), entre outras obras

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