50 anos de ‘O anti-Édipo’: Do desejo e outras quimeras

50 anos de ‘O anti-Édipo’: Do desejo e outras quimeras

 

 

Neste ano de 2022, “O anti-Édipo, primeira obra fruto de uma parceria de três décadas entre Deleuze e Guattari, comemora 50 anos. Apesar de ter causado um certo estardalhaço quando publicado, não creio que podemos considerar que ele tenha provocado a transformação que almejava, tanto no campo psicanalítico quanto no campo da teoria social.

Um sintoma muito evidente do silêncio que marca a recepção dessa obra é o fato de que hoje as teorias e lutas feminista, LGBTQI+ e antirracistas sejam vistas por alguns conservadores como identitárias, teorias e lutas supostamente baseadas em identidades individuais quando na realidade elas tocam em questões que dizem respeito à organização mesma da vida social, da família à divisão internacional do trabalho, passando pelas formas todas de exploração do trabalho dentro e fora do sistema político-econômico capitalista.

Há 50 anos, a intuição genial de Deleuze e Guattari esteve justamente em perceber que era preciso uma nova teoria social que fosse verdadeiramente capaz de compreender o funcionamento das subjetividades dentro do mundo capitalista. Uma teoria social que tivesse como foco entender os sujeitos das lutas políticas e as transformações das formas de luta pelas quais passava o planeta após as lutas pela independência e pelo fim da colonização nos países africanos e asiáticos.

“O anti-Édipo” é sobretudo uma tentativa de renovar a teoria social. Essa que parece inteiramente submetida a estatísticas e quantificações, incapaz de compreender o que move os sujeitos a se engajarem ou não, a aderirem ou não tanto às lutas políticas quanto à ideologia dominante.

Em primeiro lugar, era preciso reconhecer que o marxismo estava preso a uma teoria político-econômica e da história e a um certo tipo de análise da conjuntura que só faz reafirmar a estrutura social que ele visa combater.

Quer dizer, era preciso levar o primeiro Marx a sério e entender que o capitalismo é antes de mais nada um sistema político econômico que produz subjetividades de um tipo novo. E não era a alienação a questão mesma que movia o Marx dos Manuscritos?

Além disso, era preciso tomar o marxismo não apenas como teoria social e menos ainda como filosofia ou ciência, mas como prática revolucionária. Os esforços teóricos de Deleuze e Guattari caminham assim lado a lado com os esforços teóricos e práticos dos operaistas e autonomistas italianos.

No entanto, a teoria dos autores guarda uma particularidade em relação a esse marxismo que se opunha diretamente ao althusserianismo e ao maoísmo que definia a teoria e a prática tanto das vanguardas europeias quanto das panteras negras na América do Norte.

A ousadia dessa nova teoria estava em aliar o marxismo com uma teoria da subjetividade e de seus processos de constituição e funcionamento ancorada na psicanálise, ou seja, na ideia de inconsciente. Mas aqui é preciso salientar que Deleuze e Guattari deram um passo considerável em relação tanto a Freud quanto a Lacan.

Freud nos legou um estudo impressionante como Psicologia das massas e análise do eu. Nele, muitos teóricos encontraram uma teoria da subjetividade nazifascista ou do que Adorno chamaria de personalidade autoritária. O que há de mais interessante nessa análise é que ela parte de dois grupos sociais muito específicos e altamente simbólicos até hoje, o exército e a igreja.

O problema é que Freud não quer entender o funcionamento da massa fascista, mas o funcionamento do “eu”, quer dizer dos indivíduos no interior de grupos como o exército e a igreja. Trata-se de desvelar o funcionamento psíquico, ou o imaginário que faz as identificações entre indivíduos e líderes funcionarem no interior de uma massa desse tipo “autoritário”.

A teoria freudiana opera por identificações, quer dizer, é baseada em uma teoria do imaginário, que mais tarde Lacan teorizará e que Zizek entende como a própria ideologia. Nesse sentido, uma teoria social dentro da psicanálise é basicamente uma crítica do imaginário ou uma crítica da ideologia, entendida como essas ilusões que mascaram a realidade dos processos sociais.

A teoria de Deleuze e Guattari é bem diferente. Ela extrapola e deturpa de alguma forma uma ideia lacaniana a respeito da natureza do processo psicótico. Lacan definiu a psicose como um processo de forclusão do simbólico. Uma negação de tipo novo. O psicótico é aquele que faz, que vive como se a lei social não existisse, e, no entanto, é também no simbólico que Lacan via o caminho para a resolução da paranoia, porque para ele psicose é sinônimo de paranoia.

Para Deleuze e Guattari a categoria central do mundo psíquico capitalista é a esquizofrenia. A paranoia aparece como um momento inicial da esquizofrenia, entendida como processo.

Nem Freud, nem Lacan foram capazes, segundo os autores, de compreender o que está em jogo na loucura porque a entendiam sempre como um déficit, um déficit de realidade, enquanto para Deleuze e Guattari é ela que nos coloca diante da natureza do desejo. A reversão é aqui completa.

Não se trata de entender a psicose como um processo no interior do qual aquilo que faz a lei social inexiste, mas de compreender que a sociedade capitalista é aquela que se constitui destruindo as formas de vida que lhe precederam, tirando do campo simbólico o seu papel de organizar a vida social.

Ou seja, não se trata mais de pensar uma categoria clínica aplicada a diagnósticos individuais, mas de compreender o funcionamento social sob o ponto de vista das subjetividades. Porque a sociedade capitalista dispensa a inscrição social no interior de um campo simbólico, ela é única formação social no interior da história que libera o desejo, ela o libera porque nela o campo simbólico não tem mais valor algum, ou dito de outra forma, todo valor repousa exclusivamente no capital.

Mas porque o sistema capitalista é um sistema político-econômico e nada mais ele precisa recorrer a todo tipo de arcaísmo, como, por exemplo, a família patriarcal, para estruturar a sociedade e dar-lhe um sentido e uma coesão. Coesão e sentido que são, invariavelmente, paranoicos.

Assim se desenha uma das teses mais fortes desse livro, toda sociedade, das indígenas às bárbaras passando pela sociedade capitalista, se estruturam e organizam recalcando o desejo e oferecendo-lhe uma representação. O processo mesmo desse recalque só termina quando a representação ocupa o lugar da realidade do desejo. E isso só pode ser dito porque vivemos em um mundo capitalista, em um mundo em que o desejo já não é mais completamente integrado por uma forma de organização social determinada e estruturada simbolicamente.

A paranoia é justamente o nome desse recalque originário a partir do qual toda sociedade se constitui. Deleuze e Guattari vão extrapolar aqui ideias que estruturam a categoria da paranoia tanto em Freud quanto em Lacan. Os dois psicanalistas perceberam que os delírios paranoicos de perseguição eram uma espécie de reversão de um afeto de amor, aquele que me persegue é na realidade aquele a quem amo. É como se o desejo e o afeto não pudessem ser integrados e aparecessem como ameaça que desorganiza o “eu”. De fato, aquilo que desejamos não é nosso. Essa ameaça que é colocado fora de nós corrói as fronteiras entre o que é minha interioridade e o que é a exterioridade, faz com que eu perceba minha imaginação, meu desejo, como uma perturbação que vem de fora.

Os autores franceses extrapolam essa ideia ao afirmar que a sociedade se constitui expulsando as máquinas desejantes, o desejo e seu processo, ele aparece como algo exterior à sociedade, como uma ameaça que deve ser contida. Assim se organiza a vida social. Essa paranoia encontra no modelo social estruturado pela família patriarcal um terreno fértil para se instaurar. Uma sociedade estruturada a partir da família é uma sociedade dividida em grupos que diferem entre si; o lugar social se define justamente a partir do pertencimento a um grupo e a diferença é sinônimo de exclusão. O outro, o diferente aparece como ameaça, o outro não tem meu sangue e ameaça sua pureza, como no mais clássico esquema nazista.

Assim, evidentemente que a teoria freudiana a respeito do complexo de Édipo não é responsável por um recalque que requer a união de todas as esferas da vida social, mas a teoria reforça a estrutura social patriarcal ao manter o desejo circulando entre pessoas organizadas a partir do binarismo de gênero e sexo, como se a forma natural do desejo organizar-se, uma vez que deixamos de ser as crianças perversas polimorfas que um dia formos, fosse sob a forma do homem-mulher que constitui a família heterossexual sem a qual o patriarcado não se sustentaria.

Para os autores, a descoberta mais importante de Freud é sua teoria da libido como um processo de “sínteses livres onde tudo é possível, conexões sem fim, disjunções sem exclusão, conjunções sem especificidade, objetos parciais e fluxos”. A fórmula abarca o caráter ilimitado das sínteses do desejo, objetos parciais sempre renovados e se fazendo, incluindo o que for possível, sem definir-se pela exclusão, pela determinação ou especificidade. Essa libido é que levará os autores a perguntar, mas então por que ao invés de dois sexos, não podemos pensar em n sexos e evidentemente n formas de fazê-los?

Gosto muito dessa formulação, acho que ela é mais interessante do que a recusa do binarismo do gênero, n sexos, ao invés de nem homem nem mulher. Isso porque ela nos lembra de que a constituição de si é algo que se faz só, mas também com outros, outros que nos povoam e os que nos atravessam, com volúpia, com prazer, com gozos outros que estamos sempre inventando.

Há ainda aqui a ideia de que os processos, caminhos e errâncias do desejo são assignificantes. O maquinismo é antes de mais nada um processo que não requer interpretação e prescinde dela, como o sexo, aliás, que é apenas um indício dessa forma de funcionamento. Machine em francês além de máquina é o feminino de machin, uma palavra que tem o mesmo sentido de “coisa”, “negócio” ou o “trem” dos mineiros, é aquilo que nem sabemos bem o que é, na verdade qualquer coisa pode ser um negócio, uma coisa, um trem.

O desejo é isso mesmo que pode funcionar a partir de qualquer coisa e isso não significa nada, porque ele não precisa significar, mas fazer, agir, realizar e inclusive quebrar, travar, emperrar, parar de funcionar. E alguém consegue explicar plenamente porque se sente atraído por alguém, porque se apaixonou, porque o amor acabou, como foi que começou? Porque gosta disso e não daquilo, porque se sente bem em determinado lugar, situação, fazendo x e não y? Porque o dinheiro, o brilho do ouro, atraem tanto quanto bundas subindo e descendo? Desejo é arte do corpo, feita por ele, desafiando constantemente a razão e excedendo a linguagem.

Pensemos por exemplo nos sonhos. Freud afirmava que eles se constituem a partir de processos de condensação e deslocamento, metáforas e metonímias, dirá mais tarde Lacan. Mais todos nós somos testemunhas do pouco de espaço que a linguagem tem nos nossos sonhos. Porque deveríamos supor que o desejo só se estrutura na e pela linguagem? O que dizer de todos os nossos gestos e posturas corporais, de todas as nossas ações que não requerem palavras, que as dispensam e ultrapassam excessivamente? Não são nossos movimentos, ações e gestos o produto mesmo do nosso desejo?

Pois são esses gestos, essas posturas, essas cores e formas que constituem o nosso desejo compondo um rio que corre mesmo nas sombras. Máquinas que funcionam, sem mais, a nossa revelia, e que, no entanto, são a matéria mesma do que somos feitos.

Que fique dito, isso não diminui em nada a importância da palavra ou seja, da elaboração no interior da clínica. Sair de uma situação de sofrimento que pode ou não ser resultado de um trauma, passa pela capacidade de elaborar e analisar a experiência vivida, – seja ela real ou delirante, porque o que imaginamos e/ou desejamos nos toca, atravessa e faz sentir como qualquer dado concreto da realidade, – para que esse vivido possa ser o que é, a parte mais linda, assustadora e louca que do fundo dos tempos jaz em todos nós e que mesmo os traumas mais horripilantes e as experiências mais brutais e violentas não são capazes de aniquilar.

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Dossiê Félix Guattari

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Curso – O anti-Édipo de Deleuze e Guattari

 

CURSO MINISTRADO POR: Sabrina Lasevitch , Julia Pedigone , Heitor Pestana , Felipe Shimabukuro , Larissa Drigo Agostinho , Vladimir Safatle

VAGAS: 48

CARGA HORÁRIA: 10h

DIAS DO CURSO: 20, 21, 22, 23 e 24/06/2022 – 19h

Esse curso busca celebrar o aniversário de 50 anos de uma obra que pretendia transformar profundamente a psicanálise, o marxismo e a teoria social. Nesse curso, abordaremos alguns dos conceitos mais importantes criados por Deleuze e Guattari em sua tentativa de pensar o capitalismo e a história do ponto de vista do desejo.

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