Vincent van Gogh e a miséria humana

Edição do mês
Vincent van Gogh e a miséria humana
‘Autorretrato’ (1889), de Vincent van Gogh (Van Gogh Museum)
    Uma das experiências clínicas mais intrigantes é a atração que a miséria humana exerce sobre algumas pessoas. Ela se instala insidiosamente e com as mais diversas justificativas. Algumas dessas pessoas passaram pelo meu consultório; quase todas se julgavam senhoras de seus destinos e acreditavam estar fazendo o melhor para elas, independentemente da pouca idade e de não terem desenvolvido a autonomia e o discernimento necessários para isso. Todas repudiavam a vida dos pais e/ou a sociedade em que viviam e vieram por pressão dos pais, no momento exatamente anterior à ruptura definitiva dos vínculos familiares e sociais. Consegui ajudar algumas delas e, com o passar dos anos, fui recebendo notícias sobre o fim trágico da maioria das demais. A marginalidade exerce atração sobre três tipos de pessoas: aquelas que repudiam as normas e os valores predominantes na sociedade em que vivem; aquelas que se sentem excluídas, mas, de fato e por diferentes motivos, não conseguem se inserir na sociedade em que vivem; e aquelas que não tiveram acesso às condições sociais mínimas para se inserir na sociedade em que vivem. A característica comum aos três grupos é o sentimento de ódio à sociedade da qual estão apartados e àqueles que essas pessoas julgam ser os responsáveis pela não inserção social. Ela não atrai a todos da mesma forma, nem todos a buscam pelos mesmos motivos, e nem todos que vivem na pobreza vivem na miséria humana. Em Ricardo III, Shakespeare nos apresenta um príncipe que, em sua mórbida ambição pelo poder,

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