A vida presta? – Winnicott 130 anos

A vida presta? – Winnicott 130 anos
Donald W. Winnicott (1896–1971)

 

 

A questão sobre o que é a vida digna, a vida que vale a pena ser vivida, foi formulada de diferentes maneiras na obra de Donald W. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que, nesta semana, comemorou 130 anos do seu nascimento. No âmbito dos problemas que a psicanálise tenta dar conta, a formulação desta questão é mais importante do que sua resposta e tem um valor em si mesma. Ao dizer que o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida precisa ser encontrado e que este seria um critério de saúde, Winnicott está afirmando que esta condição não está dada de antemão, como um atributo inerente à própria vida.

De  um modo simples e pessoal, como é próprio ao seu estilo, Winnicott não se furta a colocar no centro das questões da psicanálise a pergunta sobre o que é a vida boa. Adam Phillips, seu entusiasmado crítico e leitor, chama a atenção para o fato de que o compromisso insistente de Freud e de seus sucessores com a ciência, a busca da verdade, deu a impressão de que a psicanálise poderia eximir-se “da antiga questão de dizer o que é uma vida boa”. Para Phillips, Freud temia e desaprovava a psicanálise como uma forma de pesquisa estritamente ética, mantendo-se estrategicamente distante desta questão. De todo modo, como afirma Phillips, sempre está implícito em qualquer modelo de tratamento psicanalítico uma ideia do que seria a vida desejável, a vida preferível, digna de ser vivida.

Winnicott não responde à questão do que é a vida que presta, mas ele insiste em discriminar quais seriam as condições necessárias para que cada um possa vir a descobrir por si mesmo. Ser herdeiro de uma razão pela qual a vida presta não basta. É preciso encontrar as nossas próprias razões. Afinal, a apropriação e a capacidade de fazer um bom uso daquilo que é uma herança costumam ser um desafio para a vitalidade.

Winnicott aplicou espontaneamente este preceito à vida como também à própria tradição psicanalítica, encontrando nela uma forma pessoal que preste. Tanto faz: herdar uma razão para a vida ou uma teoria não é o mesmo que possuí-la subjetivamente.

O potencial herdado, a possibilidade de vir a ser do indivíduo, precisa de um entorno que facilite algumas realizações. Winnicott começa pela necessidade que o sujeito tem de se sentir real, que também não está garantido desde o nascimento. Nascer é muito comprido, como dizia Murilo Mendes.

O sentimento da realidade de si é construído diante da possibilidade de transformar o mundo impessoal em algo pessoal, o mundo não familiar em familiar. E isto se dá a partir da nossa capacidade de criar o mundo que já está lá para nos pertencer, respeitando um dos clássicos paradoxos winnicottianos.

Sentir-se real está intimamente relacionado com a capacidade de insubmissão- entendida aqui como a possibilidade de não se submeter inteiramente às exigências do ambiente. No limite,   é a insubmissão que nos protege da tragédia de uma vida excessivamente adaptada, em que o sujeito está impossibilitado de agir segundo sua própria vitalidade.

Este ponto específico do pensamento de Winnicott reúne o que poderíamos nomear como uma teoria do desenvolvimento emocional primitivo que parte do reconhecimento da inclinação democrática como critério de saúde.  O ambiente inflexível, o líder autoritário, os pais pregadores da conversão dos filhos a um único modo de ser que tem exclusivamente eles mesmos como modelo, recusando a diferença e o estrangeiro produzem sociedades e pessoas adoecidas na capacidade de se sentir real de achar que a vida presta. O ambiente facilitador não se restringe apenas ao colo da mãe, mas se estende às estruturas de poder e à liberdade de ser estrangeiro dentro da própria cultura

Na leitura dos seus textos, estamos familiarizados a um modo próprio de construir a teoria a partir do protagonismo da criatividade, garantindo a vitalidade do pensamento. Winnicott dizia: “Preciso estar sempre lutando para me sentir criativo, com a desvantagem de que, se for o caso de descrever uma palavra simples, como ‘amor’, preciso começar do zero (talvez esse seja o ponto de onde se deve começar)”.

E do ponto de onde se deve finalizar, Winnicott faz um último pedido: “Oh Deus, que eu possa estar vivo no momento da minha morte”. Do seu modo, talvez ele estivesse querendo dizer que a vida que presta é aquela que alcança o último suspiro com a mesma criatividade que nos permitiu, um dia, inventar o mundo que já estava lá.

 

Marília Velano é psicanalista, mestre em psicologia pela Université Paris VII, doutora em psicologia pela USP e professora do Departamento de Psicanálise com crianças do Instituto Sedes Sapientiae. É autora do livro Razão onírica, razão lúdica: perspectivas do brincar em Freud, Klein e Winnicott (Blucher, 2023).

*

Confira a sequência “Winnicott 130 anos” – por Marília Velano

Deixe o seu comentário

TV Cult