Vamos falar de masculinidades?
LARRY @larryanjos_ / Flickr / IBRAT SP
O mundo enfrenta tempos difíceis com a ascensão da extrema direita, que representa um retrocesso para as conquistas do campo progressista, especialmente para aqueles que se encontram nas margens da sociedade, tidos como minoria — mesmo que, em alguns casos, componham a maioria, como no caso das mulheres cis. Neste artigo, quero apontar para uma população específica que há décadas sofre com perdas de direitos e perseguições: as pessoas trans.
Sem muito esforço, encontramos diversos ataques contra esses sujeitos em âmbito internacional. Um exemplo são as recentes medidas do governo Trump, que pretende transferir detentos trans para prisões de acordo com seu sexo biológico. O retrocesso também é visível no Reino Unido, onde foram impostas restrições ao acesso de jovens trans ao processo de terapia hormonal. No âmbito nacional, aqui no Brasil, sabemos que a violência também é alarmante: lideramos o ranking de assassinatos de pessoas trans pelo 16º ano consecutivo, além de enfrentarmos um forte movimento transfóbico na política, o que resultou na vigência de pelo menos 77 leis anti-trans em 18 estados do país. No Brasil, as notícias sobre a população trans são marcadas pela violência e pela morte — uma verdadeira necropolítica, como diria Achille Mbembe.
Este texto surge como uma tentativa de contribuir para um movimento que já vem ganhando corpo em território nacional, articulado tanto por movimentos sociais quanto acadêmicos. Em 2023, a Cult elaborou o dossiê Epidemia trans? Um debate sobre infância, gênero e normatividade — ao longo do texto, farei referência a ele apenas como “dossiê” —, cuja leitura é essencial para uma compreensão mais aprofundada do tema aqui tratado.
Mas não se engane: não pretendo escrever um texto baseado apenas em pesquisas arquivísticas ou em reflexões de célebres intelectuais, mas partindo também de diálogos com intelectuais e de uma perspectiva de conhecimento situado — noção desenvolvida por Donna Haraway, que entende que todos os saberes são produzidos por um corpo materialmente localizado no tempo e no espaço.
Em geral, no território nacional, quando pensamos em pessoas trans, costumamos nos restringir a mulheres trans e travestis, o que chamamos de transfeminilidades. No entanto, uma grande parcela da comunidade fica fora desse escopo: refiro-me às pessoas transmasculinas e não-binárias com vulva. Meu foco será justamente nessa população — corpos como o meu, designados femininos ao nascer, mas que nunca se adequaram às expectativas de gênero que lhes foram impostas. Corpos que, ao longo da vida, foram taxados com nomes pejorativos como “sapatão”, “maria-homem” ou “mulher macho”. Essa é uma história que quase nunca aparece na mídia ou mesmo nas pesquisas acadêmicas brasileiras.
A transgeneridade é considerada um conceito historicamente recente, que passou por múltiplas transformações ao longo do século 20. Sua genealogia já foi traçada por teóricos como Jack Halberstam e Paul B. Preciado, cujos trabalhos, baseados nos contextos europeu e estadunidense, apontam para as raízes médicas do termo e, de modo crítico, questionam a potência de agência dos sujeitos trans na construção de suas identidades, sempre assombradas pelos princípios da cisgeneridade. Ao fazer uma breve análise, evidencia-se que as vivências trans e as polêmicas que envolvem essa temática são sintomas de uma sociedade que lida com as exigências concretas dos universalismos. Como aponta Vladimir Safatle no dossiê, fica evidente que aqueles que desviam da norma sofrem com a violência da insegurança socioeconômica.
Quando o assunto é gênero e sexualidade, as teorias de Michel Foucault se mostram incontornáveis. No século 20, estabelece-se uma suposta verdade sobre o sexo, baseada no binarismo macho e fêmea. A partir de então, a sociedade se divide de acordo com a genitália aparente, mesmo que estudos mais recentes sobre a intersexualidade demonstrem o quanto essa lógica é excludente, violenta e fundamentada em uma ideia construída de natureza.
No entanto, é importante ressaltar que o gênero não se constitui apenas de modo material: ele depende também do que Judith Butler denomina performatividade de gênero, isto é, uma construção realizada por meio de gestos e discursos repetitivos. Um exemplo disso é a relação entre as roupas que uma pessoa usa e as expectativas sociais vinculadas ao gênero: meninos usam azul e meninas usam rosa — frase que marcou o contexto político do governo Bolsonaro, declarada pela ministra Damares Alves. Mesmo com uma norma violenta vigente, há aqueles que desviam da matriz cis-heterossexual, o que inclui pessoas homossexuais, assexuais, bissexuais e trans.
Mas você já parou para pensar na ausência de pessoas transmasculinas quando falamos da pauta trans? Na invisibilização desses corpos e saberes? Além do ativista e intelectual João Nery, para aqueles mais letrados no tema, você conhece mais alguma pessoa transmasculina brasileira que luta pelos direitos dessa população?
Aqui, não me refiro exatamente à representatividade, pois sei que recentemente um personagem transmasculino integrou o elenco da novela global A força do querer, mostrando que nossos corpos existem. Falo da invisibilidade das pautas específicas desses corpos: você sabe quais são as demandas e as violências sofridas por essas pessoas para além do estigma do “odeio o meu corpo”? Afinal, quando analisamos os dados gerais sobre assassinatos, poucos corpos transmasculinos são alvo dessas atrocidades rotineiras no Brasil. Será que, de algum modo, esses corpos são beneficiados pela adesão à masculinidade? As transmasculinidades absorvem privilégios da masculinidade ao se aproximarem dos homens cis?
João Nery foi uma figura fundamental para o movimento das transmasculinidades no Brasil, sendo um importante ativista LGBT+ e referência para o movimento trans. Autodenominava-se trans homem — pois acreditava que sua transgeneridade deveria vir antes da categoria homem — e foi pioneiro na luta pelos direitos trans ao compartilhar sua história. Em 1977, tornou-se a primeira pessoa a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Ao transicionar, perdeu diversos direitos, entre eles o de atuar como psicólogo, já que seu diploma deixou de ser reconhecido quando mudou de nome. Nery aprofunda essa e outras histórias em seu livro Viagem solitária (Leya, 2011). Em sua homenagem, um dos primeiros projetos de lei que buscava garantir o direito ao reconhecimento do nome social levou seu nome: o PL 5.002, elaborado em 2013 por Jean Wyllys e Erika Kokay.
A organização política de pessoas transmasculinas ainda é recente no Brasil e, historicamente, esses corpos foram marcados pela invisibilização dentro do movimento LGBT, sendo frequentemente excluídos e expostos à solidão de uma luta aparentemente “individual”. Antes de repassarmos brevemente sua história, é necessário destacar a multiplicidade de nomenclaturas que abrange esses corpos. Por muito tempo, a única possibilidade para uma pessoa designada mulher ao nascer era aderir à categoria homem trans, o que gerava vários problemas, especialmente devido à carga valorativa associada ao termo “homem” — frequentemente ligado à figura viril, bruta, insensível e opressora. Diante desse desconforto, muitas pessoas passaram a adotar o termo transmasculino, buscando abarcar uma multiplicidade de masculinidades que, arrisco dizer, não se sentiam contempladas pela categoria homem, assim como expressava Nery ao se considerar Trans Homem.
Mais recentemente, temos visto a forte emergência do movimento pelas não-binariedades, que luta pelo fim dos binarismos de gênero. Essa mudança também se reflete na própria história da organização política transmasculina no Brasil. Em 2012, surgiu a Associação Brasileira de Homens Trans (ABHT) em São Paulo. No entanto, após diálogos com a comunidade, a nomenclatura foi questionada por excluir corpos que não se identificavam com a categoria homem, mas estavam alinhados à masculinidade. Foi então que, em 2013, nasceu o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), com o intuito de unir transmasculinos de diversas cidades do país.
Ao ouvir relatos de pessoas transmasculinas, encontramos uma constante: a presença do sofrimento psíquico enquanto reação à violência enfrentada por esses corpos e a menção a pensamentos suicidas. Segundo dados levantados pelo Observatório Anderson Herzer em 2022, 90,7% das pessoas transmasculinas já tiveram pensamentos suicidas e 48% chegaram a tentar — número elevado em comparação com a população em geral.
Em entrevista, o pesquisador e psicanalista Pedro Ambra aponta: “O suicídio é um fenômeno humano que não diz respeito ao cis-heteropatriarcado ou ao capitalismo. Poucas coisas são universais, eu acho que o suicídio é uma delas”. Ao nos depararmos com os altos índices de suicídio entre a população transmasculina brasileira, percebemos que não se trata de uma mera questão individualista, como a lógica neoliberal tende a sugerir, mas de um problema social, que carece de atenção.
Questionado sobre os motivos de tais indicadores, Cello Pfeil, doutorando em Filosofia pela UFRJ e pesquisador do IBRAT, apresentou algumas hipóteses baseadas em suas pesquisas, destacando a falta de apoio tanto da sociedade quanto dos dispositivos de saúde, além da dificuldade de socialização.
Um conceito crucial abordado foi o da visão suicidógena, que sugere que o elevado índice de suicídio dessa população seria resultado do arrependimento pelas mudanças decorrentes da transição. Em entrevista, o pesquisador afirma: “É a típica postura dos profissionais da saúde, que consideram que precisamos passar por uma triagem interminável, absolutamente adoecedora e maçante, porque correríamos um grave risco de arrependimento e, então, de suicídio”
Ou seja, quando esses corpos acessam o sistema de saúde, que, em tese, deveria acolhê-los, o que ocorre é justamente o oposto. Em vez de encontrarem apoio ao buscar as possibilidades que poderiam fazê-los se sentir melhor em seus corpos, encontram normas e manuais que determinam como sua transição deveria acontecer.
Neste ponto, entra a questão da cisnormatividade, que dita as regras do que seria o gênero ideal — ou seja, a estética e a performance alinhadas a determinado signo. No entanto, como exposto anteriormente, as masculinidades são múltiplas. Nem todas as pessoas transmasculinas desejam passar por procedimentos cirúrgicos ou pelo processo de hormonização; algumas, inclusive, são impedidas por condições de saúde que inviabilizam certos tratamentos. Reduzir a transgeneridade a um manual de instruções pode gerar violências imensuráveis.
Vale ressaltar que esse manual do gênero não se aplica apenas às transgeneridades. Todos nós, sejamos cis ou trans, estamos submetidos a essas violências normativas. Basta observarmos o fenômeno atual do aumento expressivo de procedimentos de harmonização facial. Mesmo os homens cis estão sujeitos às normas impostas pela sociedade, especialmente quando levamos em conta marcadores como raça, sexualidade, classe e capacitismo.
Como afirma Ambra ao se referir aos homens cis: “É uma população que, por mais que tenha essa ilusão de poder — porque, na verdade, quem tem poder são os capitalistas —, sofre efeitos iatrogênicos e tóxicos contra si mesma, contra outras pessoas e assim por diante, que não são propriamente hormonais. Quanto mais você quer performar essa masculinidade mítica, mais você vai falhar, porque ela é um mito.” Sua fala deixa claro que a masculinidade, assim como a feminilidade, é uma construção.
Outro entrevistado que contribuiu significativamente para esta pesquisa foi Fabian Kassabian, uma pessoa transmasculina de ascendência síria-libanesa e idealizador da Brava, uma comunidade de compartilhamento de conhecimento que ganhou notoriedade, principalmente durante a pandemia, por meio de cursos online. Kassabian viveu grande parte de sua vida sendo lido como “lésbica”, e esse fato enriquece nossa discussão, pois permite aproximar as transmasculinidades das lesbianidades — dois grupos que compartilham várias características em comum, como veremos a seguir.
Em sua fala, Kassabian aponta para questões fundamentais ao discutir esses dois grupos, entre elas a influência de vivermos em um mundo genitalista, que, embora não determine a realidade, manifesta consequências concretas, como o apagamento das transmasculinidades. De maneira análoga, podemos observar que, historicamente, o movimento lésbico também enfrentou apagamentos, o que motivou a mudança da sigla de GLBT para LGBT, visando dar maior visibilidade às lesbianidades. Ainda que reconheça diferenças entre as experiências lésbicas e transmasculinas, Kassabian ressalta que dentro do próprio movimento trans há distinções significativas entre transfeminilidades e transmasculinidades também.
Ele destaca um ponto central que intersecciona ambas as vivências ao afirmar: “Tanto os corpos das lesbianidades quanto os nossos mexem com uma masculinidade. Nós nos relacionamos com uma masculinidade que, dentro da lógica de gênero, ocupa o lugar do opressor. Isso nos localiza socialmente. Essa construção não acontece apenas no discurso que ouvimos, mas também é reforçada pela mídia.”
Assim como Ambra apontou para a construção da masculinidade cis, Kassabian nos traz um relato que evidencia como essa construção também impacta tanto as transmasculinidades quanto as lesbianidades. Para além dessa reflexão, Kassabian compartilha uma experiência pessoal que ilustra como a representação midiática pode ser um elemento de opressão.
Ele relembra sua relação com o personagem transmasculino Max, da série The L word: “Eu tenho 34 anos e cresci assistindo a isso, vendo toda a transfobia que esse personagem sofreu na série. Quando ele começou a tomar testosterona, passou a ser retratado como agressivo. Essa era a narrativa que a série criava — e isso dentro de um contexto lésbico, inclusive. Em uma cena, outra personagem lésbica diz a ele que ‘ele estava abrindo mão do que tinha de mais potente, que era sua mulheridade’. Se pensarmos no movimento feminista, especialmente no feminismo hegemônico, que constrói uma união dentro da mulheridade enquanto campo oprimido pela masculinidade, percebemos como essa narrativa reforça estereótipos. Nós, transmasculinos, estamos alinhados a uma masculinidade dentro de um contexto onde esse conceito não é amplamente debatido. Não ouvimos falar muito sobre isso.”
Podemos identificar algumas problemáticas centrais, como a falta de referências, a reprodução de estereótipos negativos sobre a hormonização com testosterona e a idealização do feminino em detrimento do masculino. Esses fatores, entre outros, resultam na exclusão de corpos transmasculinos do movimento feminista — uma luta que antes era compartilhada e servia como rede de apoio.
Ambra aponta que a conversa entre mulheres, que ocorre naturalmente em espaços como corredores, filas de supermercado ou banheiros, cria oportunidades para expressar vulnerabilidades, o que pode atuar na prevenção do suicídio. No entanto, entre as masculinidades, especialmente cis, essa troca de fragilidades é muito mais restrita. Expressões como “homens não choram” permeiam o imaginário social e influenciam a construção das subjetividades, levando muitos homens, incluindo os transmasculinos, à solidão e dificuldade em expressar emoções.
Pfeil reforça essa questão ao descrever a transição de gênero também como uma transição de violências: “Em momento nenhum ocupamos uma posição socialmente reconhecida enquanto transmasculinos ou pessoas não binárias. Não há um imaginário social sobre nós. Trabalhando a feminilidade de maneira não cis, somos automaticamente colocados à sombra da cismasculinidade. E, ao mesmo tempo, somos retirados do espaço do cisfeminismo, ainda que tenha sido um feminismo que, em algum momento, nos apoiou. Assim, nossa construção de subjetividades transmasculinas parte de um contexto de exclusão e isolamento. Por isso, fortalecer nossas redes é essencial.”
O relato evidencia a ausência de gramática quando o assunto é transmasculinidade, o que gera um vácuo no imaginário social. Redes como o IBRAT e a Brava desempenham um papel essencial na construção de referências para novas masculinidades que transcendem a cisgeneridade.
O sociólogo Erving Goffman define o estigma como um atributo associado a um estereótipo, podendo ser dividido em três grupos principais: o primeiro relacionado à materialidade do corpo, o segundo ao caráter individual e o terceiro a aspectos tribais. No caso das transmasculinidades e do suicídio, os dois primeiros são particularmente relevantes. Como apontado por Pfeil, o corpo transmasculino carece de um estigma material claro, o que, por um lado, evita a carga pejorativa imposta a outros grupos trans, mas, por outro, faz com que a patologia atrelada à saúde mental se torne ainda mais evidente. As violências sofridas por pessoas transmasculinas vêm sendo recentemente nomeadas por pesquisadores como transmasculinofobia, referindo-se às formas específicas de discriminação que afetam a saúde psicológica dessa população.
Isso ocorre, em parte, porque comportamentos associados à masculinidade cisgênera são projetados sobre as masculinidades trans, como explica Pfeil: “Quando a pessoa transmasculina transiciona, caso ocupe uma posição socialmente lida como a de um homem cis, ela passa a sofrer violências para as quais não foi socializada. São violências que ela não aprendeu a enfrentar e que antes não faziam parte de sua vivência. Isso se agrava ainda mais para homens trans e pessoas transmasculinas racializadas.”
Aqui, entramos na questão dos códigos sociais, da socialização e da construção de um ideal de masculinidade. Ao habitarem o lugar da masculinidade, esses corpos designados femininos ao nascer enfrentam violências e expectativas antes inimagináveis. Se elevam o tom de voz ou se posicionam de maneira firme, deixam de ser vistos como mulheres fortes que tentam se fazer ouvir e passam a ser interpretados como homens violentos ou autoritários. Suas emoções e performances são deslocadas para novos significantes. Aquele corpo que antes era admirado por sua coragem em falar sobre questões importantes agora é considerado opressor e perde espaço dentro do próprio movimento que um dia o acolheu.
Diante dessas exclusões, surgem espaços de resistência, como a Brava, já mencionada anteriormente, que desempenha um papel fundamental na difusão de epistemologias transmasculinas e no acolhimento dessas experiências. A Brava existe há cinco anos e passou por diversas transformações ao longo de sua trajetória. Com o tempo, Kassabian identificou uma lacuna epistêmica e percebeu a necessidade de também debater as masculinidades. Isso levou à inclusão de cursos ministrados por homens cis, como ele explica: “Vamos falar de masculinidade? Porque a cena do gênero não vai se desfazer apenas desfazendo a mulheridade. Não tem como não debater a masculinidade. O que incomoda em nossos corpos é que bagunçamos o sistema de gênero de um jeito que torna impossível não falar sobre masculinidade e sobre o porquê de não sermos homens cis. O que compõe esse corpo? Qual a memória desse corpo? Como ele opera fora do enquadramento do homem cis? Isso desestabiliza o sistema de gênero, e ninguém quer tocar nesse assunto.”
Kassabian continua: “A gente aprende a ser mulher também aprendendo o que é ser homem. E aprendemos o que é ser mulher a partir do que significa não ser homem. Então, temos interpelações dessas duas construções. A violência é frequentemente associada ao campo masculino, mas ela está na sociedade como um todo. Se não fosse assim, não existiria violência em relações lésbicas, por exemplo. Portanto, é essencial discutir masculinidade e violência. O que é masculinidade em corpos que não são de homens cis? Como ela opera? O que se diz sobre essa masculinidade? Quais experiências de masculinidade estão sendo ignoradas? Afinal, ser uma bicha preta é a mesma coisa que ser um homem cis hétero branco?”
Além de destacar a importância de debater a masculinidade, Kassabian traz informações inéditas que dialogam diretamente com as pesquisas e reflexões de Pfeil e Ambra. Ele observa que o público dos cursos ministrados por pessoas transmasculinas é, majoritariamente, composto por outras pessoas transmasculinas. Raramente há interesse por parte de pessoas cis ou transfemininas, o que evidencia a marginalização do tema.
As masculinidades, especialmente as transmasculinas, são pouco estudadas e carecem de um campo de pesquisa mais amplo — cenário que vem mudando nos últimos anos. Ainda assim, a escassez de estudos sobre o tema persiste, sendo que Ambra foi um dos pioneiros no cenário psicanalítico brasileiro a abordá-lo de forma sistemática. Isso nos leva a refletir sobre o duplo aspecto desses espaços de discussão: por um lado, criam redes de apoio fundamentais, promovendo debates epistemologicamente ricos e acolhedores; por outro, tendem a permanecer fechados e não circular para além dessas comunidades. Kassabian aponta que a disseminação dessas reflexões só ocorre quando participantes dos cursos também transitam por outros espaços acadêmicos ou políticos, o que pode desestabilizar a episteme inicialmente proposta.
No entanto, esse debate não interessa apenas às pessoas transmasculinas, tendo, mesmo para as masculinidades cis, impacto significativo, pois desmonta o mito da virilidade violenta como modelo único de masculinidade. A urgência em discutir masculinidades, sejam elas cis ou trans, é uma questão de saúde coletiva, pois envolve o adoecimento de múltiplos corpos e subjetividades atravessados pela falta de escuta e pelo apagamento epistêmico e social dessa categoria. Precisamos ampliar nosso olhar e promover uma escuta ativa para além das feminilidades, enxergando essa escuta como uma ferramenta essencial para a redução de danos em meio a uma necropolítica que se sustenta no mito da cismasculinidade única e invariavelmente opressora.
Por fim, convido os leitores a comparecerem à Marcha Transmasculina de São Paulo, que acontecerá no dia 30 de março de 2025, na Avenida Paulista. Organizada pelo IBRAT com apoio popular, o ato está sendo construído de forma comunitária e voluntária, sem financiamento de empresas privadas.
Pol Iryo é pesquisador, educador popular, multiartista e ativista pelos direitos humanos. Mestrando pelo programa de pós-graduação em filosofia da USP e Bacharel em Ciências e Humanidades pela UFABC. É membro do Núcleo de Estudos de Gênero Esperança Garcia e da Rede Amalgmar.





