Umberto Eco e o silêncio programado

Umberto Eco e o silêncio programado

 

 

Eugenio Montale, um dos maiores poetas italianos do século 20, reservou uma inesperada surpresa aos seus leitores póstumos. Em 1996, quinze anos após a morte do grande vate genovês, a jovem Annalisa Cima, por desejo expresso do poeta, revelou aos leitores do mundo todo o volume completo do Diário póstumo, coletânea de poesias em que ela figurou como musa inspiradora. Os poemas, escritos a mão entre 1969 e 1979, em folhetos ou cartões-postais, contidos dentro de 11 envelopes, já tinham sido parcialmente publicados pela Editora Mondadori em 1991, exatamente dez anos após a morte do poeta.

Coincidentemente ou não, outro gênio das letras italianas, Umberto Eco, que nos deixou em fevereiro de 2016, recomendou que houvesse um espaço de dez anos após a sua morte para que se voltasse a discutir suas obras em congressos ou seminários. O silêncio programado por Eco assemelha-se, portanto, ao de Montale, que parecia antever a incompreensão demonstrada por parte da crítica literária italiana. Houve até quem desconfiasse da autoria verdadeira dos versos, tão diferentes de outras fases da carreira literária montaliana.

O distanciamento proposto desafiou o tempo: seriam ambos esquecidos depois de uma década – ou ainda mais luzes se acenderiam sobre a importância de suas obras? Nos dois casos, o espaço de tempo só serviu para reforçar ainda mais, como se fosse necessário, o caráter de obra clássica, resistente à corrosão temporal, de livros como Ossos de sépia e Le Occasioni [As ocasiões], de Montale, ou O nome da rosa e Baudolino, de Eco.

Ilustre semiólogo, filósofo, grande erudito e, sobretudo, ótimo escritor, Umberto Eco já faz falta no desolador panorama da literatura do século 21. Estamos perigosamente nos acostumando a obras feitas sob medida para atender aos desejos de resgate de injustiças passadas sofridas por determinados grupos. Com isso não se quer afirmar que a literatura e a arte em geral não devam denunciar a intolerância, a incompreensão dos desejos dos mais variados grupos ou as injustiças sociais. O problema surge quando se deixam de lados as questões eternas que nos tornam partícipes da mesma condição humana para tematizar apenas o que é de interesse de alguns.

Ao lermos com atenção os extensos livros de Umberto Eco, tanto os teóricos como os romances, percebemos por qual motivo resistiram ao tempo. Neles não há apenas personagens condicionadas por modismos ou estereótipos, mas a representação de seres humanos, muitas vezes em épocas históricas distintas, às voltas com a construção de verdades que nos escravizam há séculos.

De Montale, já tive outra oportunidade de fazer comentários sobre a grandeza dos seus versos. De Umberto Eco, passo agora a esboçar brevemente o itinerário do brilhante intelectual, destacando as obras de ficção e os ainda atualíssimos ensaios.

Em O nome da rosa, de 1980, romance de estreia e best-seller mundial, o personagem Guilherme de Baskerville é um tipo de Sherlock Holmes muito culto e sábio. Demonstrando argúcia e perspicácia, ele investiga e desvenda os crimes que abalavam um mosteiro beneditino. No fim do romance, o “sábio detetive” diz ao discípulo Adso que devemos nos libertar das verdades absolutas, e que a sabedoria, embora fundamental e necessária, é apenas uma escada que conduz a algum lugar. Quando conseguimos chegar a esse lugar, precisamos simplesmente abandonar a escada. O que chamamos de verdade constitui frequentemente uma ilusão perigosa, em nome da qual os seres humanos já cometeram todo tipo de atrocidade.

Dono de uma memória prodigiosa, Eco, depois de importantes obras teóricas como, por exemplo, Obra aberta, de 1962, sentiu necessidade de “desabafar” a imensa erudição em romances nos quais a história se torna fábula. Depois de O nome da rosa, isso também pode ser percebido claramente em Pêndulo de Foucault, de 1988, e em A ilha do dia anterior, de 1994, que também enfrentam o problema do espaço (limites) que o conhecimento científico deve ocupar na sociedade. Em Baudolino, de 2000, mito e evento histórico, pura invenção e personagens que realmente existiram se confundem. Se a verdade não existe, ou não podemos percebê-la, é sempre possível inventar e crer nisso, ou então não crer. A verdade (inclusive a histórica) é muitas vezes uma construção da nossa mente.

Constatar que não há verdades absolutas não significa, para o nosso autor, deixar de lado a ética ou a tolerância – isto é, a capacidade de compreender as razões dos outros. Tanto no romance Baudolino como no Cemitério de Praga os protagonistas contam mentiras, inventam coisas para satisfazer interesses pessoais. Baudolino falsifica o Santo Graal e a testa do apóstolo João Batista, mas demonstra lealdade para Frederico Barba Ruiva, enquanto Simonini, no contexto dos últimos anos do Século 19, fabrica documentos falsos para ganhar dinheiro, sem escrúpulos de consciência e demonstrando intolerância, além de todo tipo de preconceito. Trata-se claramente de uma discussão atualíssima (basta pensar nas fake news).

Baudolino acredita, ou faz de conta que acredita, por interesses pessoais e para obter favores do imperador. Ou, então, pode-se dizer que de tanto querer acreditar acaba realmente acreditando, como outros personagens, que a tigela suja de vinho do seu pai é o Santo Graal. Diferentemente de Baudolino, o protagonista Simonini do Cemitério de Praga emprega todos os meios para obter dinheiro, transformando até mesmo o ambiente de uma biblioteca, que Umberto Eco tanto amava, em uma espécie de fonte de documentos prontos para serem falsificados: “Chi deve falsificare documenti deve sempre documentarsi, ed ecco perché frequentavo le biblioteche.” [“Quem deve falsificar documentos deve sempre munir-se de documentos, eis o motivo pelo qual eu frequentava as bibliotecas.”]

Hoje em dia, não faltam personagem como Simonini. Com velocidade incrivelmente maior, os que querem divulgar falsidades usam as chamadas mídias sociais; não utilizam mais, ou raramente utilizam, livros de uma biblioteca para as suas mentiras.

Para Eco, a defesa cega de verdades sempre nos levou a guerras e a todos os tipos de crime (como os cometidos pelo velho Jorge de Burgos em O nome da rosa). Precisamos, portanto, nos libertar dos dogmas absolutos e incontestáveis. A única realidade que podemos interpretar com alguma precisão, ou então, com menos instabilidade, é a dos signos (o que explica a paixão de Eco pela semiótica).

Outro atualíssimo tema do genial semiólogo se refere à transmissão do conhecimento e à função do intelectual. Quem deve transmitir o saber? Em um magnífico ensaio intitulado “Norberto Bobbio: a missão do douto revisitada”, em A passo de caranguejo, dedicado ao grande cientista social italiano, Eco demonstra que a verdadeira função intelectual está ligada necessariamente à autocrítica. Além da autocrítica, deve-se empregar a criatividade para inovar o conhecimento humano. Sendo assim, os que se limitam a reproduzir o já dito ou o já visto, sem nada acrescentar a determinado assunto, não exercem uma verdadeira função intelectual. Concluindo o breve ensaio, ressalta-se a importância das dúvidas que o verdadeiro intelectual deve difundir. É preciso, enfim, ensinar a duvidar de todo discurso apresentado como definitivo.

Ainda no livro A passo de caranguejo, publicado no Brasil pela editora Record, referindo-se a um discurso de Hitler e a outro de Mussolini, ele conclui que são discursos capciosos, acríticos e, sobretudo, sem autocrítica. Típicas posições assumidas, portanto, pelos discursos intolerantes. Observemos o que é afirmado no livro em questão: “Poderíamos dizer que Hitler exercia função intelectual quando escrevia Minha luta, e não se pode negar que houvesse algo de sinistramente criativo na sua ideia de uma nova ordem do mundo. Mas, para corrigir esses incidentes inevitáveis, gostaria de lembrar que, na noção de função intelectual que proponho, o momento inovador nunca aparece separado do crítico e autocrítico. Hitler não era criativo porque não exibia capacidade autocrítica.” Em síntese, sem uma visão crítica e sem autocrítica, todo discurso se torna preconceituoso e intolerante.

Talvez seja um pouco arriscada a afirmação, mas Eco conseguiu amealhar em sua trajetória boa parte do talento e do conhecimento de grandes gênios como Dante, Leonardo da Vinci, Giacomo Leopardi e Montale, como vimos antes. Do seu modo peculiar, ele foi até poeta. Como autor de versos satíricos e paródicos, não pretendia se equiparar a Dante, mas, assim como il sommo poeta, fez reflexões profundas nos ensaios e escritos teóricos. Em seguida, permitiu que o seu pensamento “falasse” nos romances, nas crônicas e nos ensaios. Além disso, à maneira de Dante, foi homem do seu tempo, sempre indagando os motivos e as causas das crises políticas da sua época.

Dante, Leopardi e outros sábios “pagaram um preço” – salgado – pela argúcia e pela independência das suas ideias. Para Eco também, o preço a ser pago pelo intelectual que quiser iniciar um discurso crítico e autocrítico é muito alto. Difundindo dúvidas e incentivando o surgimento de crises, sem necessariamente resolvê-las, o sábio muitas vezes é incompreendido, ao contrário dos que sabem jogar o jogo. Isso pode ser facilmente percebido nas palavras do personagem Joly, intelectual preso em uma espécie de masmorra na Paris do século XIX, do romance O Cemitério de Praga (2010); palavras que lembram Montale (“na vida só triunfam os imbecis”): “Le persone  con poche idee sono meno soggette all’errore, seguono ciò che fanno tutti e non disturbano nessuno, e riescono, si arricchiscono, raggiungono buone posizioni, deputati, decorati, uomini di lettere rinomati, accademici, giornalisti.” [“As pessoas com poucas ideias estão menos sujeitas ao erro, pois seguem o que todos fazem e não perturbam ninguém, e obtêm sucesso, ficando ricos, alcançando boas posições, são deputados, condecorados, homens de letras renomados, acadêmicos, jornalistas.”]

Eco se equipara a Dante também na transformação do seu enorme conhecimento ou erudição em pura ficção. E assim, as suas pesquisas sobre a língua, daquela supostamente falada por Adão ao esperanto, teorizadas no volume A procura da língua perfeita, se transformam em muitos trechos de romances – desde o primeiro, O nome da rosa, ao último, Número zero, de 2015. Já as reflexões de Memória vegetal, obra em que a memória humana é definida como transmissão do conhecimento por meio dos livros, invadem o universo da ficção e são traduzidas em belíssimos capítulos de A misteriosa chama da rainha Loana, de 2004, no qual o protagonista procura desesperadamente recuperar a memória perdida por meio de revistas e livros de todos os tipos, das histórias em quadrinhos aos clássicos.

Nos seus escritos, até mesmo nas fantásticas homenagens feitas aos grandes do passado, Eco demonstrava claramente a marca do gênio. Longe de constituírem fórmulas encomiásticas banais, em suas obras há homenagens a todos os grandes filósofos da humanidade reunidos em versos juvenis (depois publicados no Diário mínimo), sintetizando cronologicamente, com uma ponta de fina ironia, a história da filosofia ocidental, dos pré-socráticos a Heidegger. Tudo escrito por um jovem de 28 ou 29 anos. A título de exemplo, podemos observar como em “Filósofos em liberdade”, de Segundo Diário Mínimo, Marx reage inconformado a uma pergunta feita sobre o pensamento de Kant: “Se Kant disserta sobre a razão/ Isto por acaso está em função/ de ele já ter comido pão?/ Marx lhe responderá: ‘O que está a falar? quem lhe autoriza tais considerações?/ isto é marxismo, sim, mas vulgar!’”. Percebe-se claramente nestes versos que o autor tencionou obter um efeito cômico a partir de dados “sérios”. Muitos intelectuais da época – fim dos anos 1950 – devem ter torcido o nariz para um jovem que ousava fazer brincadeiras com monstros sagrados como Kant e Marx. Será que Kant teria escrito o que escreveu se não pudesse tomar o café da manhã?

A trajetória de Umberto Eco parece lembrar o que escreveu Leopardi, em Zibaldone: “Mesmo quando representam vivamente a nulidade das coisas ou demonstram a inevitável infelicidade da vida, as obras dos gênios têm a propriedade de reacender o entusiasmo e consolar uma grande alma que se encontra em estado de extremo desânimo, tédio e desespero ou envolvida nas mais ásperas paixões e desgraças. Além disso, mesmo que considerem ou representem a morte, têm a propriedade de devolver-lhe, ao menos momentaneamente, a vida que tinha sido perdida.”

Os dez anos exigidos pelo escritor italiano, assim como as expectativas criadas por Montale e pela sua última musa, demonstram a consciência que os dois escritores tinham da própria genialidade. Dez anos depois, enfim, autorizados que estamos para divulgar o pensamento desse grande pensador, só nos resta esperar que o entusiasmo a que se referia Leopardi, tão bem representado pelas obras de Umberto Eco, nos anime a prosseguir comentando, criando e fazendo boa literatura, procurando respostas, contestando verdades tidas como supremas e não desistindo de encontrar uma luz que nos guie. Para dizer como o jovem Montale na poesia “I limoni” (“Os limões”), precisamos continuar procurando “il filo da disbrogliare che finalmente ci metta nel mezzo di una verità”: o fio a ser desenrolado que finalmente nos coloque no meio de uma verdade.

 

Sérgio Mauro é professor aposentado de literatura italiana da Unesp de Araraquara. É autor dos livros O sorriso do carrasco (Hucitec, 1994), O girassol enlouquecido (Amazon, Kindle, 2023) e Ascensão e queda de um corrupto (Amazon, Kindle, 2025)

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