Três tempos de uma mesma história

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Três tempos de uma mesma história
No início do século 20, o primeiro prefeito de SP iniciou uma reforma higienista que afastava pobres e negros do Centro (Arte Andreia Freire)
  Um gradil cinza circunda as barracas coloridas onde está parte das pessoas desabrigadas pelo incêndio e o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, na madrugada de 1º de maio de 2018. Atrás, em um amarelo destacado, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construção finalizada em 1906 para receber a irmandade desapropriada anos antes. Na placa, o nome do largo: Paissandu, homenagem à batalha de 1864, que antecedeu a Guerra do Paraguai, na cidade uruguaia de Paysandu. Guerra que exterminou milhares de soldados negros, livres ou escravos. Em uma imagem, três tempos de uma mesma história, que permite compreender como se dá o genocídio de pretos e pobres no Brasil. Na manhã de 18 de maio de 2018, uma mulher nina um bebê de pouco mais de dois meses. Dois homens conversam enquanto ajudam uma menina a se equilibrar no triciclo. Algumas pessoas se posicionam perto das grades, em alerta, cuidando da segurança. Nas escadas da igreja, duas mulheres dobram roupas. Na mesa à frente da cozinha improvisada, um grupo pica vegetais. Todos negros. Dez dias antes, o cenário era de guerra: fumaça, pessoas desesperadas, miseráveis de toda a parte disputando as sobras de quem tinha perdido tudo, mas recebia doações que chegavam dia e noite. No dia 18, a rotina já se impusera, e o acampamento compõe a paisagem da cidade que caminha rapidamente, sem atentar aos papéis pendurados na grade, informando a necessidade de manteiga, óleo, alho e temperos. “Muita gente já saiu daqui. Aceitaram ir para abrigo. Mas a gente precisa é de moradia

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