Sonia Gomes e o barroco vivido
A exposição Sonia Gomes – Barroco, mesmo, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, não se oferece à leitura apressada. Não é retrospectiva celebratória nem síntese confortável de uma carreira já reconhecida. Trata-se de um ponto de inflexão: o momento em que uma obra madura se apresenta como método, e o barroco deixa de ser estilo histórico para afirmar-se como experiência do corpo, do trabalho e da sobrevivência.
O barroco que atravessa a obra de Sonia Gomes não é o da exuberância ornamental nem o da teatralidade como retórica do poder. É algo vivido, nascido do fazer manual, da dobra insistente, do nó que sustenta aquilo que ameaça se desfazer. Um barroco forjado na história brasileira, no trabalho compulsório, na manualidade invisibilizada, no corpo negro submetido à técnica sem reconhecimento efetivo. Ao afirmar “barroco, mesmo”, a artista não reivindica filiação estética: enuncia uma ética.
Sua linguagem se constrói a partir de materiais carregados de memória: tecidos usados, roupas gastas, cordas, arames, fragmentos domésticos. Não há aí metáfora fácil do reaproveitamento, nem sentimentalismo. Há inteligência: cada costura é decisão formal; cada torção, pensamento incorporado. A obra não ilustra narrativas: organiza tensões entre contenção e expansão, peso e suspensão, corpo e forma. O fazer, em Sonia Gomes, é pensamento que se dá na matéria.
Essa compreensão se torna visível na própria estrutura da exposição. A curadoria de Paulo Miyada evita a linearidade cronológica e aposta numa expografia que traduz, no espaço, o campo de forças da obra: curvaturas, camadas sobrepostas, movimentos internos que sugerem instabilidade e fluxo. O barroco surge não como citação, mas como procedimento contemporâneo de organização do sensível, uma forma de lidar com o excesso inevitável do mundo.
O núcleo que apresenta tecidos, objetos e materiais do ateliê da artista é decisivo nesse percurso. Não se trata de idealizar o processo, mas de explicitar uma ética do trabalho. Sonia Gomes não transforma o ordinário em extraordinário por efeito poético; ela o reorganiza por insistência. O ateliê aparece como lugar de atenção à matéria e de negociação com a memória, prática que devolve ao fazer manual o estatuto de conhecimento.
Esse percurso se consolidou também fora do Brasil. Ao longo dos últimos anos, a obra de Sonia Gomes passou a integrar exposições e coleções de instituições centrais da arte contemporânea, como o MoMA e o Guggenheim, em Nova York, a National Gallery of Art, em Washington, a Tate Modern, em Londres, e o Centre Pompidou, em Paris, não como curiosidade periférica ou exotismo tardio, mas como voz plenamente integrada aos debates formais, políticos e materiais do presente.
É à luz desse reconhecimento, construído com rigor e sem concessões, que sua participação na Bienal de Veneza em 2024 deve ser compreendida. No pavilhão do Vaticano, instalado em um presídio feminino, o barroco deixou definitivamente de ser linguagem histórica para tornar-se experiência moral. O espaço do cárcere, marcado pela contenção do corpo, pela disciplina imposta e pela suspensão do tempo, dialogou de maneira radical com uma obra que sempre trabalhou com limites, amarras e possibilidades de recomposição.
A abertura da mostra, realizada pelo próprio Papa Francisco, e as frases estampadas no edifício do presídio, convocando dignidade, atenção e esperança, não funcionaram como moldura para a exposição, mas como parte do próprio gesto curatorial. Sonia Gomes não levou ali uma mensagem religiosa ilustrativa, mas uma gramática material capaz de lidar com culpa, dor, permanência e reparação. O barroco cristão, com suas tensões entre matéria e espírito, encontrou naquela obra uma tradução contemporânea e afro-diaspórica, sem retórica, sem concessão.
Não se trata, portanto, de celebrar Veneza como selo de consagração, mas de compreender o deslocamento simbólico ali operado: o barroco brasileiro, forjado no trabalho e na exclusão, atravessando o centro moral do catolicismo por meio de uma artista que conhece o peso do corpo e da matéria. A obra não promete redenção; ela sustenta. Não pacifica; reorganiza.
Essa mesma lógica atravessa o livro Assombrar o mundo com beleza, que sintetiza sua obra e oferece uma chave precisa para compreender sua trajetória. “Assombrar”, aqui, não significa provocar espanto superficial, mas insistir na presença. A beleza, longe de conforto estético, torna-se força perturbadora, aquilo que permanece quando tudo conspira para o apagamento. O livro deixa claro que Sonia Gomes não fala sobre ancestralidade: ela opera ancestralidade como forma.
No Instituto Tomie Ohtake, espaço historicamente associado ao rigor formal e ao pensamento construtivo, sua obra se afirma como centro, não como exceção. Seu barroco não se opõe ao moderno; o atravessa criticamente.
Num tempo saturado de discursos rápidos e gestos histriônicos, a obra de Sonia Gomes propõe outra temporalidade: a do trabalho que insiste, do corpo que pensa, da forma que sustenta. Seu barroco não é herança do passado, mas método de sobrevivência no presente. Sua arte não pede aplauso imediato, pede permanência.
Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e membro do Fórum Permanente Associação Cultural e da Associação Amigos do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.
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Serviço
Sonia Gomes – Barroco, mesmo
Local: Instituto Tomie Ohtake — Rua Coropé, 88, Pinheiros, São Paulo
Período: até 9 de fevereiro de 2026
Curadoria: Paulo Miyada
Visitação: terça a domingo, das 11h às 18h. Entrada: gratuita.





