Somos uma solidão

Somos uma solidão
Guto Muniz

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“A palavra dá-lhe seu leite – o que é o leite da palavra –, e ele tem alimento, ele se nutre amplamente, o que conhece esta doutrina dos sâman – esta doutrina”.
Chandogya-Upanixad.

O monólogo Do lado de cá, de Dieudonné Niangouna, é uma criação cênica na qual a concisão de sua duração (55 minutos) corresponde à intensidade de um lampejo. Como define a bela imagem criada pela historiadora do teatro Margot Berthold: “O mistério do teatro reside numa aparente contradição. Como uma vela, o teatro consome a si mesmo no próprio ato de criar a luz. Enquanto um quadro ou estátua possuem existência concreta uma vez terminado o ato de sua criação, um espetáculo teatral que termina desaparece imediatamente no passado”. Pode-se dizer que é da essência desse belo espécime teatral mergulhar o corpo do ator na escuridão para melhor captar o fulgor da aflição de que se reveste sua história.

Misto de espetáculo teatral e número de recitação, Do lado de cá conta com texto, direção de cena e atuação do ator congolês Dieudonné Niangouna, desenho de luz e direção técnica de Laurent Vergnaud e criação de vídeo de Sean Hart. Às voltas com o próprio universo do teatro, um ator recorda-se difusamente da experiência traumática que o levou a sair de seu país natal, deixando que o palco seja invadido igualmente por alguns esfumaçados espectros de seu passado pessoal e familiar. Tomando por base uma bem-vinda simplicidade de recursos cênicos (uma iluminação que mergulha o palco em semiobscuridade e a projeção parcimoniosa de imagens em vídeo), o espetáculo atrai a atenção do espectador não somente pela qualidade do texto como também pela enérgica presença do intérprete, cuja voz tem uma plasticidade toda especial. Trata-se de um discurso repleto de nuances semânticas que se resolve no corpo a corpo com a vida – processo de transfiguração que somente a arte do teatro é capaz de conduzir.

A imagem de um homem exilado, em cima de um palco, entregue à solidão de um monólogo, reveste-se de uma duplicidade que não somente palmilha o lirismo como ainda saltita sobre a contundência. E se pensarmos que tal indivíduo, solitário, se faz acompanhar por alguns fantasmas, a duplicidade aqui se converte em ambivalência, explodindo em um intrincado jogo de metalinguagem. Fazer teatro é uma espécie de ritual de (auto)exílio que homens e mulheres se impõem imemorialmente, talvez desde as pantominas de caça dos povos da Idade do Gelo. Desde tempos ancestrais igualmente, atores encarnam algumas figuras muito próximas de nós e outras que representam os inúmeros mortos que morremos.

Do lado de cá trabalha ainda com o experimento da catarse, tão caro ao universo trágico. A peça na qual o retesado intérprete foi convidado a desempenhar o papel principal chama-se justamente La fin de la colère (o fim da cólera, ou da raiva). O termo francês colère tem origem no vocábulo latino cholera, por influência da forma grega khole (χολή), cujo significado é bile. Do mesmo étimo, diga-se de passagem, surgiu melancolia, a bile negra. É preciso que o ator se disponha então a enfrentar a cólera de modo a apascentar as Eríneas que não saem de seu entorno e atuar somente no plano da fúria criativa.

Dieudonné Niangouna, ou simplesmente Dido, é uma figura hirta e exaltada no pouco espaço que lhe cabe em cena, cujo movimento maior – diferentemente da princesa de Cartago, homônima a seu apelido – é conduzir a flama do teatro e não se deixar consumir por ela.

DO LADO DE CÁ

Texto, direção de cena e atuação: Dieudonné Niangouna

Desenho de luz e direção técnica: Laurent Vergnaud

Criação de vídeo: Sean Hart

Produção : Compagnie Les Bruits de la Rue

Coprodução : Théâtre des 13 Vents – CDN Montpellier

Welington Andrade é bacharel em Artes Cênicas pela Uni-Rio, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da Faculdade Cásper Líbero.


Nous sommes solitude

Version française par Thaïs Chauvel*

« La parole lui donne son lait – ce qui est le lait de la parole – et il y trouve sa nourriture, il s’en nourrit abondamment, celui qui connaît cette doctrine des sâman – cette doctrine. »
Chāndogya Upanishad

Le monologue De ce côté-ci, de Dieudonné Niangouna, est une création scénique dont la durée concise (55 minutes) correspond à l’intensité d’un éclair. Comme suggère la belle image formulée par l’historienne du théâtre Margot Berthold : « Le mystère du théâtre réside dans une contradiction apparente. À l’instar d’une bougie, le théâtre se consume dans l’acte même de produire la lumière. Tandis qu’un tableau ou une statue possèdent une existence concrète une fois l’acte de création achevé, un spectacle théâtral qui s’achéve disparaît aussitôt dans le passé ». On pourrait bien dire que c’est l’essence de ce beau spécimen théâtral : plonger le corps de l’acteur dans l’obscurité afin de mieux saisir l’éclat de l’affliction qui revêt son histoire.

À mi-chemin entre spectacle théâtral et numéro de récitation, De ce côté-ci s’appuie sur le texte, la mise en scène et l’interprétation de l’acteur congolais Dieudonné Niangouna ; la conception lumière et direction technique est assurrée par Laurent Vergnaud et la création vidéo par Sean Hart. Aux prises avec l’univers du théâtre, un acteur se souvient de façon diffuse de l’expérience traumatique qui l’a conduit à quitter son pays natal, tout en faisant ressurgir sur scène des spectres vaporeux de son passé personnel et familial. Fondé sur une simplicité, bienvenue, de moyens scéniques (un éclairage qui plonge la scène dans une semi-obscurité et la projection parcimonieuse d’images vidéo), le spectacle capte l’attention du spectateur non seulement par la qualité du texte, mais aussi par la présence énergique de l’interprète, dont la voix possède une plasticité tout à fait singulière. Il s’agit d’un discours riche en nuances sémantiques qui se résout dans un corps-à-corps avec la vie – un processus de transfiguration que seul l’art théâtral est capable de produire.

L’image d’un homme exilé, seul sur un plateau, livré à la solitude d’un monologue, se charge d’une duplicité qui, ne se contentant pas d’arpenter le lyrisme, touche encore à la vigueur du propos. Et si l’on pense que cet individu solitaire est accompagné de quelques fantômes, la duplicité se transforme ici en ambivalence, éclatant en un inextricable jeu de métalangage. Faire du théâtre est une sorte de rituel d’(auto-)exil que les hommes et les femmes s’imposent depuis la nuit des temps, peut-être dès les pantomimes de chasse des peuples de l’âge glaciaire. Depuis ces temps ancestraux, les acteurs incarnent certaines figures très proches de nous et d’autres qui représentent les innombrables morts que nous incarnons.

De ce côté-ci travaille encore l’expérience de la catharsis, si chère à l’univers tragique. La pièce, à laquelle l’interprète sous tension est invité à jouer le rôle principal, s’intitule précisément La fin de la colère. Le terme français colère provient du mot latin cholera, sous l’influence de la forme grecque khole (χολή), qui signifie « bile ». De ce même étymon est issu le mot mélancolie, la bile noire. Il faut alors que l’acteur se dispose à affronter la colère afin d’apaiser les Érinyes qui ne cessent de graviter autour de lui et d’agir uniquement sur le plan de la fureur créatrice.

Dieudonné Niangouna, ou tout simplement Dido, est une figure tendue et exaltée dans le peu d’espace qui lui est accordé sur scène, dont le mouvement majeur – à la différence de la princesse de Carthage avec qui il partage son surnom – consiste à porter la flamme du théâtre sans toutefois se laisser consumer par elle.

DE CE CÔTÉ-CI

Texte, mise en scène et interprétation : Dieudonné Niangouna
Conception lumière et direction technique : Laurent Vergnaud
Création vidéo : Sean Hart
Production : Compagnie Les Bruits de la Rue
Coproduction : Théâtre des 13 Vents – CDN Montpellier

*Thaïs Chauvel é franco-brasileira, possui mestrado e doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo e atua há quinze anos como professora de língua e literatura francesa.

*Thaïs Chauvel est franco-brésilienne. Elle est titulaire d’un master et d’un doctorat en lettres de l’Universidade de São Paulo et enseigne la langue et la littérature françaises depuis quinze ans.

Welington Andrade est titulaire d’une licence en arts de la scène de l’Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, d’un master et d’un doctorat en littérature brésilienne de l’Universidade de São Paulo, et professeur à la Faculdade Cásper Líbero.

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