Sociedade fracassada

Sociedade fracassada
(Arte Revista CULT)

 

Por Sandra Modesto

Um dia desses, o interfone da minha casa tocou. Atendi. Era a voz de uma mulher.

Cheguei ao portão. Eram seis horas e trinta minutos da noite de uma segunda–feira.

Ela pedia ajuda. Conversamos. Ela é empregada doméstica, 65 anos, sentia fome.

Pra mim, foi o suficiente. Entendi tudo ao dialogarmos.

Pensei que tais cenas só aconteciam longe do meu campo real. Deparei-me com a realidade cruel.

Em um país em que até junho deste ano o número de desempregados foi de 13,2 milhões (4,4% maior em relação ao trimestre), o trabalho escravo perdura.

Empregadas domésticas faxinam, cozinham, lavam e passam roupas, são babás. Dão suporte às famílias burguesas. E por falta de humanidade, muitas famílias ignoram essas trabalhadoras. Por considerarem suficiente o mísero salário pago que, via de regra, está cada vez mais escravocrata.

Romantizar este tipo de trabalho é fazer parte do país cruel que estamos vivenciando.

Outra vítima desse romantismo são as crianças que vendem balinhas azedinhas na porta dos supermercados, no trânsito, no calçadão da cidade,

É difícil entender que elas vendem pra comprar, de repente, o chocolate de marca que sempre sonharam em saborear? É difícil entender que criança não tem que trabalhar?

O nome disso é exploração do trabalho infantil. Porque lugar de criança é na escola.

Desalento

Ainda com relação ao desemprego, 4,9 milhões de pessoas desistiram de procurar emprego.

E pasmem, segundo o IBGE, 2,95 trabalhadores não tiveram aumento médio real.

Em Minas Gerais (meu estado), há três milhões de pessoas sem trabalho.

Em Ituiutaba (minha cidade), a taxa de desemprego é a pior desde 2002.

Mesmo assim, pessoas bem sucedidas, brancas, comandam a empresa da família, conseguem uma vaga por indicação, o famoso “QI” (de inúmeras cidades). Desmoralizam os desempregados:

“Não trabalha porque não quer”.

Não trabalha porque é preguiçoso.

E assim o capitalismo e a meritocracia são fervorosamente reconstruídos.

Junto ao trabalho inexistente e a exploração do mesmo, temos pessoas dormindo na rua, passando frio, morrendo disso.

Fracassamos como sociedade.

Sandra Modesto, 58, mineira de Ituiutaba, professora aposentada, graduada em Letras, dois livros publicados, engajada com as causas sociais

 

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