Soberba nos olhos, ou o manual visual do pecado colonial
Gravura da Galerie agreable du monde (1729)
A soberba, sendo um dos sete pecados capitais, foi amplamente discutida na teologia cristã, especialmente por um dos responsáveis pela seleção dos sete pecados capitais que conhecemos hoje, Gregório Magno. Papa entre 590 e 604 EC, Gregório considera a soberba como o pior de todos os pecados. Para ele, ela é “a raiz de todo o mal”, uma vez que a pessoa se põe acima do próprio Deus. Pode parecer estranho escolher tratar da soberba hoje a partir de debates de quase 1.500 anos atrás, mas há de se reconhecer a precisão com que o pontífice romano identificou a dinâmica essencial do orgulho descabido e da superioridade arrogante. Segundo ele, são principalmente quatro as ações que caracterizam o soberbo: “Quando pensamos que o bem vem de nós mesmos; quando acreditamos que, se nos é dado de cima, é por causa de nossos próprios méritos; quando nos vangloriamos de ter o que não temos; quando, desprezando os outros, aspiramos a parecer que somos os únicos dotados de certas qualidades”.
Da explicação de Gregório, podemos deduzir que se trata de um sentimento vaidoso e, por isso fundamentado no sentido da visão. Sem o olhar, de fato, não há soberba. O arrogante precisa olhar o diferente de si com desprezo, ao mesmo tempo que se regozija dos olhos que o admiram e o legitimam. Sem alvo e plateia, a importância que o indivíduo atribui a si não é fundamentada, alimentada, inflada. O campo da história da arte e visualidade é, assim, prato cheio para discutir o funcionamento das políticas da soberba.
Falo em política porque a sober
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