Seres que se abismam

Seres que se abismam
(Foto: Bob Sousa)

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Tendo estreado no último dia 25 de junho no Tucarena, a montagem de Longa jornada noite adentro, de Eugene O’Neill (1888-1953), dirigida por Sergio Módena, com destaque para a atuação de Ana Lucia Torre à frente de um talentoso elenco, possibilita ao público paulistano usufruir não somente de uma obra que priva da grandiosidade e complexidade de uma catedral – uma espécie de Templo Expiatório da Sagrada Família (nada mais ironicamente adequado, aqui), de Antonio Gaudi, na feliz comparação sugerida pela crítica de arte norte-americana Annette Michelson –, como também de uma encenação que se concentra nos elementos básicos, e ainda insuperáveis, da arte do teatro: interpretação arrebatada; densa perscrutação do material dramatúrgico; cenário, iluminação e figurinos cuja eficiência não lhes diminui a beleza, somente evidencia servirem também com inteligência ao “espetáculo” – no sentido original latino de “aquilo que entra pelo olhar”. E vai se alojar no espírito do espectador, poderíamos completar.

Para retratar a história de uma família – o casal James e Mary Tyrone e seus filhos Jamie e Edmund – cuja convivência ao longo de um único dia, da claridade da manhã ao breu da noite, é marcada pela exposição contínua de fragilidades, tensões e crises, O’Neill nada mais fez (leviana seria a expressão, se não fosse, a rigor, sinistra) do que dar vazão à própria memória familiar, articulando-a, entretanto, ao farto sedimento literário e cultural sobre o qual sua obra se assentou com tamanha originalidade: os trágicos gregos, Strindberg, Ibsen, o expressionismo alemão, Shakespeare, a Bíblia, Zola, Freud e Nietzsche, para ficarmos nos exemplos mais evidentes.

A grande qualidade do texto reside no modo sui generis como o dramaturgo agraciado com o Nobel de literatura em 1936 faz uso do registro realista com o qual iniciou e terminou sua carreira, que compreende um conjunto de mais de cinco dezenas de peças. Metade delas, diga-se de passagem, de caráter assumidamente autobiográfico, embora a função emotiva não lhes esgote a potencialidade. Ainda que possam ter tomado parte na vida do autor, os personagens biográficos de O’Neill estão quase sempre às voltas com vivências interiores postas em cena como absolutas, dedilhando com firmeza as franjas do expressionismo. “Seja o cérebro humano o meu palco/Meu diretor predileto, a fantasia”, afirmou o pai do teatro expressionista Frank Wedekind (1864-1918) no prólogo de Espírito telúrico, em 1895, anunciando a exacerbação de um processo de subjetivação tão caro a Strindberg e que mais tarde será incorporado de um jeito muito particular pelo autor de O imperador Jones.

Ocorre que os elementos biográficos e os contornos expressionistas estão amalgamados em Longa jornada noite adentro ao tipo de realismo poético que O’Neill sempre admirou e do qual fez o fio condutor de seus últimos trabalhos, assim definido por ele mesmo: “… uma peça verdadeiramente realista é sobre o que se pode chamar de alma dos personagens, sobre o que torna esses personagens quem eles são e não outra coisa. A dança da morte de Strindberg é um exemplo desse verdadeiro realismo”. Raríssimos autores foram capazes de fundir suas experiências de leitura a suas experiências de vida, convertendo o espessamente imaginado no desabridamente vivido.

(Foto: Bob Sousa)

Vivido, cumpre notar, ao mesmo tempo que analisado. Salta aos olhos a capacidade de os quatro integrantes da família Tyrone darem curso a suas emoções mais genuínas para instantes depois refletirem ativamente sobre elas, em turnos vertiginosos de conversação (quase sempre de base monológica, vale salientar) que atenuam o caráter dramático da obra e acentuam sua natureza lírico-épica. O principal tema que une os Tyrone – o passado – é tratado na chave dessa ligação entre lirismo e épica. Individualmente, cada um deles está preso ao que foi e ao que gostaria de ter sido, evitando olhar diretamente para o espelho do hoje, que reflete quem eles de fato se tornaram. Já, coletivamente, o clã evoca o passado da Irlanda, de onde o casal vem, “terra de luto e de fome, de desespero e violência – terra heroica”, segundo as palavras que Jean Paris dedicou à obra de um irlandês ilustre, James Joyce.

O segundo tema que articula a expressão lírica à memória épica diz respeito à correspondência entre paisagem exterior e paisagem interior, cujos planos O’Neill articula soberbamente. “A Irlanda”, ainda fazendo uso da belíssima descrição de Jean Paris, “é a última terra que vê o dia se pôr. Já faz noite sobre a Europa, quando um sol oblíquo ainda se insinua sobre os fiordes e os desertos do Oeste. Entretanto, basta as nuvens se agruparem e o astro-rei se retirar do horizonte, para a ilha voltar a ser aquela terra lendária, aquele lugar cercado de névoa e escuridão, que por muito tempo marcou o limite do mundo conhecido pelos navegadores. Além dela, está o abismo, o mar escuro onde os mortos vagam”.

Respeitando as unidades de tempo, de espaço e de ação, O’Neill leva seus personagens a viverem interiormente os mesmos limites entre o conhecido e o desconhecido, o mesmo movimento da luz em direção às trevas, a mesma sensação de que a bruma se avizinha, os envolve e os angustia. Como se um dos mais diletos herdeiros da musa irlandesa transformasse a máxima gaélica Erin go Bragh – “A Irlanda para a eternidade” – em um exercício de aguda introspecção.

Pois bem, a direção de Sergio Módena compreende com muita sensibilidade as principais linhas de força do texto – a inquirição dessa interioridade profunda, de veio psicológico, mas ambivalentemente simbólica, não reduzida a um tipo de naturalismo que sempre foi e sempre será pura empulhação –, convidando os intérpretes, cada um a seu modo e fazendo uso dos recursos compatíveis com sua própria experiência artística, a mergulharem em um estado de intensidade cada vez mais raro nas experiências teatrais da cidade. Intensidade que é também, como pretende o caráter lírico-épico da empreitada, pura lucidez.

(Foto: Bob Sousa)

Ana Lucia Torre faz de Mary Tyrone um dos pontos altos de sua notável carreira. A mãe que ela constrói – volúvel, instável, nevropata – delineia com a discrição típica dos grandes atores o amor passional de que é objeto por parte dos filhos e a terrível contrapartida que tem para lhes dar: a impossibilidade de gerar qualquer tipo de ternura. Destaca-se ainda o trabalho vocal da intérprete, cuja clareza da dicção – tão cara aos tempos que forjaram sua formação – faz da progressiva imersão de Mary no devaneio uma verdadeira aula de exploração de recursos expressivos. A sutil carga emocional irradiada por Ana Lucia Torre do começo ao fim do espetáculo torna, assim, totalmente dispensáveis as duas pontuações musicais de que sua personagem é alvo em momentos-chave da encenação. Em ambas as ocasiões, a intensidade emocional está toda na intérprete e não precisa emanar de fora dela. Sobretudo por se tratar de um clichê. Nossas velhas emoções diante dos standards da ópera são coisas que nos acontecem. Fiquemos com elas para nós e mais ninguém.

Luciano Chirolli também confere a James Tyrone uma riqueza de nuances toda especial. Arquetipicamente, esse pai corresponde à autoridade do deus puritano. Uma autoridade, no aqui e agora, constantemente contestada pelos filhos e pela mulher, devido à avareza em que se enreda o personagem. Das cinco figuras em cena, James é a mais assumidamente metateatral por oscilar entre dois registros: o do grande ator shakespeariano que poderia ter sido e o do intérprete de melodramas populares em que se converteu. Chirolli explora muitíssimo bem tais dimensões, fazendo a gravidade simbólica do pai ser rebaixada constantemente ao nível mundano de um tipo mesquinho.

Gustavo Wabner dota Jamie Tyrone de uma plasticidade emocional bastante atraente e adequada. Medíocre, inadaptado, ébrio, Jamie é uma criação extraordinária de O’Neill. Na mais absoluta invisibilidade, ele irradia sua malignidade culposa por toda a peça; em especial, sobre o jovem rapaz que arruína, seu próprio irmão. Bruno Sigrist sai-se muito bem do desafio de encarnar Edmund Tyrone, o jovem poeta que se lança a novos mundos, ou melhor, uma espécie de mártir da nova sensibilidade do fim do século (a Irlanda, aliás, detém um martirológio digno de nota), que, ecoando a topografia irlandesa, vê-se diante do abismo do ser: ele preferiria ser uma ave ou um peixe a ser o homem que efetivamente é. Por fim, vale destacar o trabalho de Mariana Rosa como a criada Cathleen. A atriz foge dos estereótipos da garrulice e do histrionismo, procurando dar uma dimensão mais interiorizada à personagem, o que constitui um evidente acerto.

O loquaz cenário circular de André Cortez circunscreve imemorialmente aquela família ao estado em que todos se encontram: desolados no mundo interior, isolados do mundo exterior, favorecendo constantes trocas de intimidade que nada mais revelam do que a impossibilidade de pais e filhos viverem em paz consigo mesmos e entre si. Não competiria aqui estender o assunto, mas o clã dos Tyrone em muito se assemelha ao clã dos Atridas na Oresteia, cuja luta renhida, intestina, os faz desaparecer por completo; lá, na incandescência da vingança; aqui, na frialdade do esquecimento.

Hoje a psicologia comportamental adepta das nomenclaturas mais imediatistas e dos fármacos mais lucrativos chamaria os Tyrone simplesmente de uma família disfuncional. A ida ao Tucarena para usufruir dessa vigorosa encenação de um clássico absoluto pode revelar o quão o homem do início do século 21 – distraído pela aceleração do tempo, a automação da vida e o fascínio da inteligência artificial – vem se afastando das velhas questões essenciais, que a arte ainda insiste em lhe apresentar. Frágeis diante da imensidão, continuamos nos defendendo de forças que nos envolvem e aprisionam. Cada um desses vetores – nós, alimentando a ilusão de sermos sempiternos; elas, as forças do destino, mantendo-se em moto-contínuo – obstina-se em anular o outro e avançar noite adentro. Rumo à eternidade. De um único dia, talvez.

LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
Teatro Tucarena (176 lugares)
Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes – São Paulo
Sextas e sábados, às 20h30domingos, às 18h30
Ingressos: R$ 80,00
Duração: 110 minutos
Classificação: 16 anos
Até 28 de agosto

Welington Andrade é bacharel em Artes Cênicas pela Uni-Rio e em Letras pela Universidade de São Paulo, onde também desenvolveu suas pesquisas de mestrado e de doutorado. É professor do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero desde 1997, onde atualmente é diretor.


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