Precariedade e modernidade
Neste ano eleitoral, a redução do endividamento das famílias tem sido colocada como uma das prioridades do Governo Federal. Em meio a um cenário econômico que tem se mostrado positivo com base nos números macroeconômicos – como os índices de inflação e o crescimento do PIB –, a população se encontra distante da promessa de prosperidade econômica na medida em que parcelas, boletos e dívidas comprometem uma parte cada vez maior do orçamento doméstico.
Publicado pela editora Fósforo, o livro Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia, de Kauê Lopes dos Santos, analisa o endividamento como elemento estruturante da dinâmica de consumo na sociedade brasileira – “por meio da obsolescência programada, da publicidade e da oferta de crédito”, explica o autor em entrevista à Cult.
Como a precariedade na oferta de serviços públicos convive lado a lado com a modernidade de bens de consumo de última geração nas periferias de São Paulo? Essa foi uma das muitas questões que mobilizaram Kauê a investigar as práticas de consumo das classes mais baixas no Brasil.
A partir de uma perspectiva multidisciplinar, o autor também tece um panorama do processo de urbanização dos bairros periféricos da cidade de São Paulo a partir da perspectiva racial.
“Ao passo em que a cidade cresce, e se torna a maior e mais rica metrópole do Brasil, ela também se enegrece. Durante muito tempo, os estudos urbanos e a geografia urbana não absorveram a questão racial por um posicionamento político dos pesquisadores, pois a pauta interseccional de classe e raça já era debatida desde os anos 1960. A academia branca opta em não fazer esse debate, separando o elemento racial da questão de classe”, argumenta.
No livro, há uma linha condutora que guia o leitor ao longo da pesquisa, intercalando elementos narrativos que, por vezes, se aproximam de imagens. Como você chegou a essa forma de escrita e qual é, para você, a importância de conferir uma dimensão narrativa ao material bruto da pesquisa?
O livro parte de uma premissa que, a meu ver, deveria ser mais valorizada: o cuidado com a comunicação dos achados científicos. Historicamente, a universidade desempenha um papel importante na formulação de políticas públicas, mas sua comunicação com o público mais amplo ainda carece de maior atenção.
A elaboração do livro resultou de muitos anos de levantamento de dados e entrevistas com moradores de diferentes bairros da periferia de São Paulo — desde o surgimento do tema, ainda na iniciação científica em Geografia, até a dissertação de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 2009. Mesmo após a defesa, continuei realizando entrevistas, sobretudo no Jardim Helena.
A dissertação, no entanto, é um registro duro, técnico — e, em certa medida, esquecível. Por isso, busquei imprimir ao livro um traço mais autoral. Um dos caminhos que se mostraram mais estratégicos foi a incorporação de uma abordagem etnográfica, capaz de dar voz aos interlocutores e reconhecer sua agência — afinal, ninguém compreende melhor as periferias do que aqueles que nelas vivem. Trata-se também de uma tentativa de aproximar o tema de um público mais amplo, tensionando os limites de circulação do conhecimento produzido na universidade.
A universidade nos ensina a entrar no campo e a analisar dados, mas a dimensão da escrita e da comunicação raramente é tratada com o mesmo rigor. Como resultado, ainda operamos em uma instituição marcada por práticas excludentes e, em certa medida, classistas, mais voltadas à retenção do conhecimento do que à sua circulação.
De onde veio o seu interesse por esse tema?
Esse interesse se construiu principalmente durante minha graduação. Tratava-se inicialmente de uma investigação dentro do campo da economia e da geografia urbana. Eu estudava as “financeiras” – instituições de crédito como a Finasa e a Fininvest, muito atuantes nos anos 2000, em paralelo ao crescimento de empresas como as Casas Bahia.
A ideia surgiu inicialmente a partir dos trabalhos de campo que realizavamos na faculdade. Íamos a muitos bairros periféricos, e o que me chamava atenção era o contraste na paisagem: mesmo em bairros muito precarizados em termos de infraestrutura, via-se que as moradias eram habitadas por objetos modernos, como televisões de tela plana e aparelhos de DVD.
Minha pesquisa lançava um olhar sobre questões de consumo e pobreza urbana a partir de uma metodologia desenvolvida pelo Milton Santos, uma abordagem bem forte de economia urbana.
No mestrado, na FAU, resolvi trabalhar principalmente a questão do consumo da população dos bairros periféricos. No doutorado, eu mudei de área e comecei a estudar economia africana, mas sempre com a intuição de que, em paralelo, eu tinha de continuar com minha pesquisa anterior. Durante um período de sanduíche, em Berkeley, na Califórnia, eu e a professora Teresa Caldeira, uma grande referência na antropologia, conversamos, e ela se mostrou bastante interessada nesse tema. Foi como um um sinal.
Trata-se de um tema que se transformou muito desde os 2000, com mudanças de governo, pandemia, etc. Mas argumento que a forma de consumo da população de baixa renda, viabilizada pelo crédito, é algo que tem estruturado uma dinâmica particular da sociedade brasileira em termos de acesso a bens mais caros.
O crédito se tornou a variável que viabiliza o consumo, mas há um custo nisso. Por isso, propus investigar qual é a perversidade que existe nisso, por trás dessa “inclusão financeira”, um termo muito celebrado na economia, sobretudo quando se tem em mente as experiências de microcrédito horizontalizadas do Sudeste Asiático. No caso brasileiro, temos de olhar esse termo com certo distanciamento crítico.
Claro, é interessante que a população consiga acessar bens elétricos e eletrônicos modernos, que melhoram sua vida. Mas existe um mecanismo por trás das instituições financeiras que faz com que se desenhe um ciclo de endividamento crônico, que compromete parte do orçamento. Dados macroeconômicos não me deixam negar: atualmente, segundo o SERASA, 49,8% da população brasileira está inadimplente; 80% das famílias tem algum tipo de dívida, sem contar cruzamentos de dados do Banco Central que permitem regionalizar essa análise.
O Brasil, em muitos aspectos, é um laboratório importante do sistema financeiro mundial. Principalmente na forma como a sociedade de consumo se estrutura aqui, por meio da obsolescência programada, da publicidade e da oferta de crédito. Esses três pilares estão muito articulados. No Brasil, isso se tornou algo estrutural da forma como se consome. Entra governo, sai governo, isso não é questionado.
A redução do endividamento das famílias tem sido colocada como prioridade pelo governo, especialmente em um contexto eleitoral. Embora os indicadores econômicos apontem para um cenário positivo, há uma percepção de que grande parte da população não consegue acessar essa melhora devido ao endividamento. Como você analisa essa aparente contradição?
Vemos atualmente um crescimento significativo do endividamento. Em 2023, eram aproximadamente 70 milhões de endividados no país, e o número vem crescendo desde então.
Existem os fatores macroeconômicos que nos ajudam a entender essa situação, e que estão sendo observados pelo governo. Mas a percepção de que as famílias estão cada vez mais endividadas também está ligada a uma cultura de consumo. Se não nos atentarmos para esse modus operandi, a taxa selic não vai resolver a situação.
Os indicadores macroeconômicos são bons, como o crescimento do PIB, mas a percepção da família endividada, não. Isso é um baita desafio.
Construímos essa cultura do consumo associada a uma noção de bem-estar – e que está, de fato, associada à qualidade de vida, mas talvez o ritmo no qual resolvemos consumir seja problemático. Trata-se de um ciclo de consumo e descarte: se há gente endividada por causa da compra de uma televisão, não é porque ela não tinha televisão antes. É porque ela comprou uma mais moderna, e isso é válido, pois não se trata de fazer um juízo de valor.
A discussão sobre o consumo, sobretudo quando falamos de populações de baixar renda resvala frequentemente numa métrica moralista. Mas essa população está sendo atravessado pela publicidade da mesma forma que qualquer classe social. É necessário investigar esse conjunto de variáveis para pensarmos como os governos têm agido sobre essa questão complexa, por exemplo, com as medidas de antecipação de 13º e FGTS. Essas e outras estratégias visam à injeção de dinheiro na economia para reduzir o endividamento, mas também alimentam o ciclo de consumo.
Por isso trabalhamos com um cenário de endividamento crônico. No livro, chego a falar de alienação do futuro, algo que teorizei a partir das entrevistas: a organização do orçamento doméstico e das dinâmicas de trabalho passam a ser vinculadas ao pagamento de parcelas e boletos. Isso pode ser visto, por exemplo, na entrada de muitas pessoas em serviços de aplicativos como forma de aumento da renda.
Por outro lado – por isso é importante não fazer a leitura moralista da situação –, a busca pelo consumo tem sentido. Sobretudo em um país que se moldou sobre a tradição racista e escravista. Nesse contexto, consumir também está ligado a um senso de dignidade.
Em determinado momento do livro, você mobiliza a metodologia da deriva, proposta por Guy Debord. Gostaria que você comentasse mais sobre essa forma de experimentar e ler a cidade: como métodos não ortodoxos como a deriva podem contribuir para a produção de conhecimento urbano e para tensionar abordagens mais tradicionais de pesquisa?
Eu sou um defensor da combinação de métodos. Acho que as humanidades se beneficiam do arranjo de métodos qualitativos, quantitativos e exploratórios, sobretudo porque nem sempre uma entrada garante a coleta de dados. Então a gente precisa ir criando os mecanismos.
A deriva é interessante, sobretudo em um momento introdutório, para conhecer o bairro e seus moradores. Parar em um bar de esquina para comer um pão de queijo e beber um café com leite muitas vezes já é um trabalho de campo que se desenvolve através da escuta e da conversa com as pessoas.
Do ponto de vista de um corpo externo que entra em um território, é muito complicado explicar que você está fazendo algo que tem validade, pois frequentemente as pessoas das periferias vêm pessoas fazendo pesquisas e nada muda em suas vidas. O tempo do fazer científico não é o tempo da política pública. Isso é algo que tem de ser justificado. Mas algo que precisa ser dito é que a pesquisa contribui para o desenvolvimento de política pública.
Na primeira parte do livro, você reconstrói detalhadamente o processo de migração de populações nordestinas e do norte de Minas, em diálogo com a industrialização paulista. A partir desse percurso histórico, como você enxerga o futuro das cidades brasileiras diante dos processos contemporâneos de globalização e desindustrialização?
A categoria de urbanização periférica, desenvolvida pela professora Teresa Caldeira, nos ajuda a entender a lógica do próprio processo de urbanização brasileiro: como nossas cidades crescem pelas bordas. São Paulo, por exemplo, só se torna uma metrópole em função do trabalho desses sujeitos que vêm à cidade e são jogados para os lugares mais distantes do centro e baratos por não ter infraestrutura e serviços.
Essas pessoas construíram a metrópole, principalmente os prédios do centro. Tanto a verticalização, como a horizontalização da cidade se deram através do trabalho dessas pessoas. Foram populações de estados nordestinos, do norte de Minas Gerais, que viabilizam esse processo.
Algo que também é importante ressaltar é que, ao passo em que a cidade cresce, e se torna a maior e mais rica metrópole do Brasil, ela também se enegrece. Achei importante enfatizar isso no livro, porque a tradição dos estudos urbanos e a tradição da geografia urbana não absorvem a questão racial. Isso foi um posicionamento político dos geógrafos durante muito tempo, porque a pauta interseccional de classe e raça está sendo debatida desde os anos 1960. Mas a academia branca opta em não fazer esse debate, separando o elemento racial da questão de classe.
Quando olhamos para as populações que migraram para São Paulo, que denominamos como população nordestina, vemos que ela é composta basicamente de pretos e pardos. Essa é a população das periferias de São Paulo, do Jardim Helena, do Jardim Ângela e da Brasilândia. São populações majoritariamente negras.
São Paulo é a maior cidade negra das Américas em termos absolutos. Construimos a ideia de São Paulo como uma cidade erguida por italianos e por nordestinos – e aí o regionalismo serve bem para escamotearmos a questão racial. É possível olhar também para perspectiva racial, em vez de só olharmos para a origem dessas pessoas.
Hoje passamos por esse processo de desindustrialização, a partir do que chamamos de reestruturação produtiva: quando a indústria não precisa mais estar fisicamente na metrópole – inclusive porque o preço do metro quadrado está caro – e se instala em áreas logisticamente integradas aos mercados consumidores, como os eixos rodoviários. Isso urbaniza o interior.
Na medida que temos uma desindustrialização nacional, que passa a acontecer com força nos anos 90, as cidades se ocupam sobretudo das atividades terciárias, de serviços, onde se concentra grande parte das atividades econômicas. Nisso se inclui o professor, o profissional liberal, o motorista do Uber, etc. Chamamos essa massa de “refúgio da mão de obra”, porque é onde também se pode operar na informalidade se for preciso, como em situações de desemprego. A economia informal é de fácil entrada.
O futuro das cidades, portanto, é o inchaço de um setor terciário muito segmentado, com diferenças significativas entre muitas categorias de trabalhadores.






