Piada de português pode?
Em História do riso e do escárnio, Georges Minois lembra que há uma vasta bibliografia sobre o tema, com abordagens que não convergem. De fato, o livro mostra que o riso ganha contornos específicos em tempos e culturas diferentes. Por exemplo, para Descartes, citado por Minois, “o riso é suspeito: Eu rio, logo odeio”; para Kant, citando Voltaire,“ o céu nos deu duas coisas para equilibrar as múltiplas misérias da vida: a esperança e o sono. Ele poderia ter acrescentado o riso”. Kant opõe, nessa releitura, “o riso benfazejo ao riso zombador: ‘O escárnio equivale ao ódio’, escreve ele”.
Todos os estudiosos que se debruçaram sobre o riso e o humor de um modo geral concordam em pelo menos um aspecto: só o ser humano é capaz de rir.
A discussão sobre o tema ressurgiu com força nestes últimos dias com a condenação do humorista Leo Lins a oito anos e três meses de prisão por propagar discursos considerados racistas, homofóbicos, machistas etc. em seus shows de stand-up publicados na internet. Companheiros de profissão de Lins emitiram diferentes opiniões sobre a sentença dada ao humorista: uns se manifestaram a favor da condenação, outros contra, e há, é claro, sempre aqueles que se calam. Os que defenderam o colega alegaram, aparentemente sem maiores reflexões, a velha e boa “liberdade de expressão”.
Entre os humoristas contrários à condenação de Leo Lins está o português Ricardo Araújo Pereira, uma das atrações da Festa Literária de Paraty (FLIP) deste ano. A alegação de Pereira, grosso modo, é a de que piada é piada, e acrescenta: se Lins for condenado de fato, seus espectadores também deveriam ser punidos. A tese do comediante português pode ser conferida em textos e vídeos disponíveis na internet.
Um primeiro problema dessa tese de defesa está na seleção intencional das piadas destacadas pelo português. Pereira deixou de lado alguns “chistes” bastante duvidosos, ou melhor, desrespeitosos e desumanos. Ele não menciona nem discute, por exemplo, a seguinte fala do humorista brasileiro: “A Preta Gil veio me processar por causa de uma piada de anos atrás. Três meses depois que chegou o processo, ela apareceu com câncer. Bom, parece que Deus tem um favorito. Acho que ele gostou da piada. E pelo menos ela vai emagrecer”.
Se Pereira analisasse a “piada”, certamente sua tese cairia por terra. Aliás, Leo Lins voltou a fazer piada com Preta Gil depois de sua morte. Quando parte de uma classe silencia ou defende esse tipo de humor, ele pode se tornar ainda mais cruel.
Para Vladímir Propp, não é possível rir do sofrimento dos outros. Henri Bergson afirma que “não há maior inimigo do riso que a emoção”. Mas, complementa, “isto não significa que não possamos rir de alguém que, por exemplo, nos inspire piedade ou, mesmo, afeto; mas apenas por alguns instantes será preciso esquecer este afeto, silenciar essa piedade”. Bergson conclui, então, que “a indiferença” é o “ambiente natural” do riso.
Essa indiferença ao sofrimento dos outros não seria de certa forma perigosa? Será que ela não acabaria naturalizando situações que deveriam causar dor e inspirar uma postura empática?
O plotline de uma “piada” de Leo Lins sobre as baixas temperaturas no Rio Grande do Sul é: “O pessoal fica sempre procurando lugar aquecido. A prova disso é que teve uma boate que pegou fogo e as pessoas não saíram de dentro”. Essa é apenas uma variação de outras tantas “piadas” sobre a tragédia, relativamente recente, da Boate Kiss, em Santa Maria.
Ricardo Araújo Pereira não discorre sobre esse tipo de “chiste”, ele prefere se ater a casos genéricos e se dedica às piadas de cunho machista e, principalmente, racista (racismo é crime no Brasil). Obviamente, é mais fácil falar de minorias genéricas, sem identidade, sem rosto…
Portanto, vamos rir com despreocupação! Segundo Pereira, o pior chiste é só uma piada e ela não causa “nenhum perigo” ou “dano substancial”. Assim, o humorista português, branco, hétero e europeu, naturaliza o machismo e o racismo que ainda tentamos, a muito custo, erradicar, mas que voltam com força nos dias de hoje, com a ascensão da extrema-direita, a qual permite que se verbalize atrocidades travestidas de “liberdade de expressão” .
E o que Pereira acha das piadinhas com pitadas de pedofilia de Lins como: “Para um menino do campo é mais fácil perder a virgindade, basta alcançar a bunda da vaca. Para uma menina do campo perder a virgindade é mais fácil também. Basta correr menos que o tio”?
Será que para o humorista português é “certo” naturalizar aquilo que deveria ser contestado? Vamos agora tirar o som de anos de correntes arrastadas pelos escravizados e esquecer o sofrimento das crianças abusadas sexualmente?
Sobre o público de Leo Lins, que ri de suas piadas, resta saber quem ele é.
Como bem disse Minois, “Diderot estava certo em assegurar que ‘a brincadeira tem limite, e se o brincalhão o ultrapassar não é mais um homem de espírito, mas um impertinente’”.
Em conversa sobre a condenação de Leo Lins em um canal português, Pereira afirma que ela só poderia ter acontecido em um país não democrático ( R.A.P.: “É grotesca a condenação do Leo Lins a 8 anos de prisão por piadas, é impensável” ). Até tu, Brutus? Apesar dessa posição polêmica, a conversa entre os dois portugueses, o entrevistador e o humorista, não deixa de ser engraçada: há muitas citações em inglês, nada mais colonizado e pernóstico, pois ambos poderiam ter facilmente traduzido os fragmentos citados. Fato é que os dois lembram, em certos momentos, alguns personagens caricatos de Eça de Queirós.
Ah, mas vamos rir um pouco mais:
A motorista de uma van, que levava escritoras brasileiras para a Festa Literária de Paraty, parou na estrada e pergunta a um transeunte:
– O senhor saberia me dizer se essa estrada vai para Paraty?
O transeunte, que era um português, respondeu:
– Ora, pois, se vai, fará muita falta.
***
O português, que era um convidado da festa, nunca apareceu por lá.
***
Em um cruzamento, ele perguntou a outro português:
– Paraty fica à direita ou à esquerda?
O outro português respondeu:
– Fica no Rio.
O convidado da Flip nunca deu as caras no evento.
Ele foi encontrado meses depois boiando (com boias de braço) no rio Perequê-Açu.
Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e ensaísta. Autora, entre outros, de Metáforas da Tradução (Iluminuras). Professora da Universidade Federal de Santa Catarina.
Fedra Rodríguez é tradutora e ensaísta. Traduziu, entre outros, Raymond Roussel, James Joyce e Juan-Eduardo Cirlot.





