O trabalho que construímos: como ele nos constrói?

O trabalho que construímos: como ele nos constrói?
(Arte Revista CULT)

 

Por Gisele Souza Gonçalves

O tema da seção “Lugar de Fala” deste mês oferece mais do que um espaço para expor nossas impressões. Pela sua amplitude e complexidade, estou também ansiosa para ler sobre as ideias diversas do conceito de “trabalho” que estarão neste espaço. Quero aqui fazer reflexões menos formais e deixar algumas questões para pensarmos sobre trabalho. Então vamos lá!

Quando conseguimos o primeiro emprego, ficamos ansiosos e entusiasmados porque, a nosso ver, é o primeiro trabalho que faremos. No entanto, muitos de nós – acredito que uma significativa parte da minha geração e a grande maioria das anteriores, – antes mesmo do primeiro emprego, teve muito trabalho em casa, porém ainda hoje esse trabalho doméstico é invisível. Na nossa cultura, trabalho é aquele que é remunerado.

O trabalho de cuidar da casa, da educação dos filhos, de atender alguém que precisa de cuidados – como idosos ou doentes – muitas vezes não é classificado como trabalho. Inclusive é muito comum em situações corriqueiras como, por exemplo, em filas ou pontos de ônibus, quando após uma conversa ser iniciada e a curiosidade contribuir com a construção do diálogo, surgir a pergunta: “Você trabalha?”. Se o sujeito a quem foi dirigida a pergunta não estiver empregado, a resposta vem meio constrangida:

“Não, eu cuido da casa” ou “Não, eu cuido da minha sogra que está acamada”, e tantas outras respostas que apontam trabalhos relevantes e exaustivos, mas que por não ser um trabalho remunerado, acabam sem reconhecimento e sem a valorização da sua importância social.

Tem também o caso da típica pergunta: “Você só estuda, não está trabalhando?”. Se as pessoas soubessem as dificuldades por que passam os que estudam, pesquisam e produzem, esta pergunta não seria feita com o peso que se dá ao “só”.

Emprego formal ou informal é também um campo cheio de mudanças com as quais precisamos aprender a lidar; quem aqui não sofreu no trabalho? Seja com colegas, chefes, público em geral? Trabalho é um lugar onde a gente passa a conhecer relações e comportamentos muito diferentes daqueles que temos na família e na escola, pois nesta última, por mais que seja um ambiente diverso em que todos se encontram em uma sala de aula ou no pátio, sempre ficamos mais próximos de quem se identifica conosco. O que no emprego nem sempre é possível. Mas é neste campo diverso do emprego que aprendemos muito, crescemos, refletimos, que entendemos diversas relações e isso é muito importante para a construção de nossas percepções.

E o mais importante: quanto vale o seu trabalho? Você é reconhecido por ele? Você é bem remunerado? Se seu trabalho não é remunerado, você se valoriza e é legitimado pelo trabalho que faz? Você faz um trabalho em que é possível se desenvolver econômica e politicamente como um cidadão? Ou você é explorado? Será que é? Pense e valorize quem é você e o trabalho que produz. Porque o trabalho tem o potencial de edificar o homem, certo? Mas saiba que muitas vezes o trabalhador é muito mais explorado que edificado socialmente.

Gisele Souza Gonçalves, 36 anos, professora e doutoranda em Foz do Iguaçu, Paraná

 

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