O conservadorismo é antinatural?

O conservadorismo é antinatural?

Quando James Watson e Francis Crick, com base nos estudos de Rosalind Franklin, exclamaram “Descobrimos o segredo da vida!”, ao desvendar a estrutura do DNA, em 1953, não estavam exagerando tanto assim. Se não abriram totalmente a caixa de segredos da existência de boa parte das formas de vida, sem dúvida, mudaram de vez o curso da ciência. E consequentemente o curso da nossa história.

A medicina avançou a passos ainda mais largos, passamos a construir nossa árvore filogenética com mais precisão, ganhamos terapias mais modernas e adequadas, prolongamos nossa expectativa de vida. E um aspecto particular nos obrigou a uma reflexão: mutações também podem ser positivas, a ponto de garantir a sobrevivência de espécies em ambientes que sofrem alterações e exigem novos perfis biológicos dos indivíduos.

A lei da impermanência budista, enquanto se estabelecia na Índia, encontrava eco, no mesmo período (século VI a.C.), em Éfeso, onde Heráclito desenvolvia o conceito de devir e a “impossibilidade de se banhar nas mesmas águas”.

Assim, o que as filosofias antigas já entendiam, a ciência moderna comprovou. E não apenas a biologia, mas a astronomia, a física quântica e outros campos do saber que nos levaram a produzir foguetes como símbolos do poder e até de uma pretensa superioridade por parte de quem tem as condições materiais e intelectuais para fazê-los.

Aliás, é desse nicho que sai uma contradição profunda. O acesso à educação formal e a atuação em um campo das ciências exatas ou experimentais não garantem o discernimento do emprego ético desse conhecimento.

Tomemos como exemplo o Vale do Silício. O local, que sedia diversas empresas de tecnologia, emprega engenheiros, matemáticos e neurocientistas, mas também edge thinkers com formações em humanidades. No entanto, muitos deles, inclusive na posição de CEOs, propagam teorias da conspiração como as elaboradas por Alex Jones (disponíveis nos episódios de The Alex Jones Show e no infame InfoWars), retorcem dados importantes e transformam a informação numa arena de batalha, a fim de, paradoxalmente, tentar retornar às águas em que a civilização já se banhou.

Mais contraditório ainda é pensar que, ao mesmo tempo em que fazem propaganda de um passado pretensamente glorioso e tranquilo (quando, por exemplo, as minorias não “incomodavam”), promovem o uso indiscriminado da tecnologia, sempre de olho no futuro (deles próprios).

E segue o paradoxo. Se boa parte dos defensores do retorno ao passado trava um combate inglório contra a racionalidade e a lógica da mutabilidade, importantes pilares científicos, simultaneamente, empenham-se com igual veemência na batalha para contradizer preceitos religiosos das crenças que afirmam seguir com fervor.

Michael Oakeshott, em Conservadorismo (2016, Âyiné, tradução de André Bezamat), repreende a racionalidade que acredita “na mente aberta, livre de preconceito e de seu resíduo, o hábito”. Como um paladino da fé também no campo político, afirma que para o progressismo não há valor na familiaridade, apenas a predisposição à criação ou destruição de formas para dar origem sempre a algo novo, desconsiderando totalmente a história.

Mais ainda, Oakeshott associa e firma a relação intrínseca entre moralidade e religião. Para ele, a dimensão religiosa, cimentada sobre hábitos e construtos antigos de “virtude”, é a única alternativa para realizar ações morais conscientes.

Em 1956, ele retoma essas ideias em outro ensaio, Ser conservador (2012, Gonçalo Begonha, tradução de Rafael Borges), no qual lembra que a inovação é sempre um processo de perdas e ganhos, algo que “um homem de temperamento conservador” jamais deixa de considerar. O problema atual é que o conservadorismo passou a ser um discurso de cima para baixo: cuidadosamente elaborado por poderosos “homens de temperamento conservador”, que já pesaram na balança as perdas (o establishment que os favorece) e ganhos de uma “inovação” peculiar, que nos empurra para trás nos costumes, enquanto avança para frente nos negócios.

Na mesma trilha e dentro do cenário contemporâneo, Alain Finkielkraut em A pós-literatura (2024, Sétimo Selo, tradução de Christian Lesage) recorre a Philip Roth e Milan Kundera para atacar movimentos feministas, anti-especistas e antirracistas, enquanto critica Benoîte Groult e Maryse Wolinski, que defenderam o uso da palavra écrivaine (escritora), trazido pela feminização de substantivos comuns de dois na língua francesa.

Citamos aqui homens que legitimam o conservadorismo, mas muitas mulheres também seguem o movimento. “A moda está com o moralismo”, diz Michel Maffesoli em seu Elogio da razão sensível (1998, Vozes, tradução de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck). Tanto que, no Brasil e no mundo, não são poucas as parlamentares e líderes que defendem pautas contrárias às lutas feministas. Enquanto pregam que o lugar da mulher é no lar ou na igreja, elas próprias atuam fora de seus ambientes domésticos e erguem suas vozes para silenciar as de outras.

Foquemos essa contradição entre crença e discurso. Indivíduos declaradamente cristãos parecem se esquecer de um elemento dogmático de sua fé: o “deixar de ser”. Essa noção que abarca uma grande variedade de subconceitos pode ser considerada, em essência, a transição para uma nova realidade e a impermanência das coisas (a propósito, Thomas Merton já havia conectado a impermanência budista à cristã). O “deixar de ser” encontra apoio na kénosis da teologia contemporânea, que, para Deus, representaria a potência restrita por uma única impossibilidade: a de obrigar os seres a amá-lo. Para o indivíduo, a kénosis seria o contrário do que advogam reacionários, isto é, se esvaziar, se despojar de si e de ideias preconcebidas para abraçar o outro, criando uma relação de alteridade e igualdade de condições.

Talvez ciência e religião encontrem raros pontos convergentes. A metamorfose dos corpos e mentes, a transitoriedade da vida e sua fragilidade parecem confluir. Outro aspecto de concordância: “ninguém volta ao que já deixou”, como diz o fado português. Ao menos não nas condições idênticas.

Uma das grandes contribuições de Albert Einstein e sua teoria foi tratar o tempo e as mudanças promovidas por ele como relativas: os avanços (e o turbilhão que acarretam) se dão em espiral crescente, e, pela segunda lei da termodinâmica, o caos tende a se ampliar e exigir mais energia, sendo impossível retornar a um momento anterior, sequer ao primordial. Mais difícil ainda é encontrar esse átimo em estado igual ao que já esteve. Dada essa condição, a física até aceita a possibilidade de viagens ao futuro, mas ao passado, é impossível.

Por isso, deixamos um recado para quem vocifera “ah, era melhor antes”: não, não há volta. Só fluxo.

Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e ensaísta. Autora, entre outros, de Metáforas da Tradução (Iluminuras). Professora da Universidade Federal de Santa Catarina.

Fedra Rodríguez é tradutora, neurocientista e ensaísta. Traduziu, entre outros, Raymond Roussel, James Joyce e Juan-Eduardo Cirlot.

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