O condor sempre volta ao ninho
Na cultura pré-colombiana, o condor-dos-andes (Vultur gryphus) representa dualidades como a vida e a morte, o terreno e o celestial, o humano e o divino. Em países como Bolívia, Chile, Colômbia e Equador, a ave figura em bandeiras, brasões oficiais e outros símbolos pátrios. Uma curiosidade sobre o condor é que ele é necrófago: não mata para se alimentar, mas consome carniça. O condor é aparentado ao urubu.
O urubu ocupa lugar central nas culturas de povos originários do Brasil, com destaque para os povos Jê. Segundo a mitologia desses povos, ele não apenas não mata para comer, como também cuida dos feridos e dos moribundos. Os urubus dispõem inclusive de um “hospital”, onde os doentes podem ser tratados e, depois, retornar à terra. O chamado “hospital dos urubus” é comentado por Sérgio Medeiros em O dono dos sonhos (Razão Social, 1991).
O fato é que a escolha do condor como símbolo nacional dos países mencionados não é casual. Além de habitar a cordilheira que atravessa essas nações, o condor impressiona pela grandiosidade: pode planar por mais de 170 quilômetros sem bater asas e resistir semanas sem se alimentar em grandes altitudes. A ave encarna, assim, a força e a resiliência, atributos frequentemente associados aos povos andinos.
No século 20, porém, esse mesmo símbolo deu nome a uma das mais violentas campanhas repressivas da história latino-americana, que também alcançou o Brasil. A Operação Condor, formalizada em 1975, sob a coordenação do regime de Augusto Pinochet, articulou ditaduras militares da América do Sul em ações de perseguição, exílio, tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores políticos, artistas, jornalistas, professores e até religiosos.
Mas voltemos alguns anos. Nos anos 1950, a águia estadunidense já sobrevoava o Chile. Em 1956, foi firmado um convênio entre a Faculdade de Comércio e Ciências Econômicas da Universidade do Chile e a Universidade de Chicago. O objetivo era estabelecer uma “Administração de Cooperação Intelectual”, chamada Punto Cuarto. Assim se estabelecia um sólido programa de estudos econômicos entre os países. O Chile recebia também professores estadunidenses em seu recém-criado Centro de Investigações Econômicas.
Os professores chilenos que estudaram na universidade estadunidense passaram a ser conhecidos como Chicago Boys. Eles implantaram o que, à época, se intitulava “monetarismo” — hoje neoliberalismo — no Chile, que, obviamente, foi um total fracasso para a população de um modo geral, mas não para os próprios economistas chilenos.
Salvador Allende, com uma agenda em dissonância com a dos Chicago Boys, começa a ganhar proeminência nos anos 1960 e chega ao poder em 1970, em uma eleição conturbada e sob o olhar atento dos Estados Unidos.
O mundo estava dividido. Os países do bloco “comunista”, liderados pela União Soviética, não podiam crescer, e o Chile de Allende se distanciava rapidamente da potência americana. Não bastasse isso, nos anos 1970, os Estados Unidos perdiam vergonhosamente a Guerra do Vietnã. Tomar o Chile abafaria o fracasso. Aos poucos, eles foram minando a política econômica e social de Allende e colocando a população — que sequer havia se recuperado da “monetarização” dos Chicago Boys — em agonia.
Daí em diante, conhecemos a história. A águia estadunidense, ou o condor devidamente domesticado pelos colonizadores, não esperou a população virar carniça: eles mesmos provocaram a carnificina. O êxito dessa engrenagem repressiva, em todos os sentidos — econômico, político e social —, contou desde sempre com apoio logístico, econômico, militar e de inteligência dos Estados Unidos, em especial da CIA. Uma das principais fontes de informação era a base de dados Condortel, hospedada no Canal do Panamá e operada sob supervisão norte-americana. Documentos indicam ainda cooperação com o FBI, ao mesmo tempo em que a agência realizava vigilância ilegal sobre cidadãos dos próprios EUA, no contexto da agenda anticomunista da Guerra Fria. Essas conexões foram amplamente documentadas por pesquisadoras como a historiadora Patrice McSherry e a jornalista Stella Calloni, com registros preservados em entidades como a NACLA e o Equipo Nizkor. Em artigo acadêmico publicado em 2025, Siegrid Tuttle, da West Virginia University, revisita os eventos que marcaram o início e o suposto encerramento da Operação Condor.
O uso do termo “suposto” não é trivial.
Se, na tradição pré-colombiana, o condor simboliza potência, continuidade e respeito entre vivos e mortos, em sua apropriação pelo colonizador restou apenas uma leitura equivocada da ave mítica, que valorizou o que, para o estrangeiro, era seu lado mais sombrio: aquele que se alimenta de carniça. Há também a lenda andina segundo a qual o condor, ao pressentir a própria morte, lança-se do ponto mais alto da montanha em direção às águas profundas, encerrando um ciclo para iniciar outro. Esse ciclo, que tem algo de positivo e vicejante, retorna com outra roupagem na versão do colonizador.
A metáfora do retorno — e da repetição histórica — ressurge, assim, com o fortalecimento recente da extrema direita na América do Sul, cujo ápice simbólico foi a ascensão de José Antonio Kast no Chile, no último fim de semana. Vale lembrar que o governo Trump tem fracassado na tentativa de deter a China e a Rússia. Resta novamente a América Latina para compensar essa frustração. O governo Trump já investe contra a Venezuela (como fez com Cuba no passado), e agora o Chile tem seu novo simpatizante de Pinochet. Nada de novo no front.
É sintomático que um órgão do serviço diplomático da União Europeia, a East Stratcom Task Force, tenha declarado recentemente, em seu portal EU vs. Disinfo, não haver indícios de uma “Operação Condor 2.0” conduzida pelos Estados Unidos no século 21. Segundo o comunicado, tal hipótese se enquadraria no campo das teorias conspiratórias.
Talvez, de fato, não se trate de uma repetição literal do passado. Aliás, como lembra o filósofo italiano Giambattista Vico, a história é circular e espiral: ela se repete, mas nunca da mesma maneira.
É visível, contudo, a convergência política entre Donald Trump e líderes da nova direita radical latino-americana, descritos pela Harvard International Review como “caudilhos direitistas”, entre eles Javier Milei, Daniel Noboa e Nayib Bukele. Soma-se a esse grupo o chileno Kast e, com traços de aparente moderação, o recém-eleito presidente boliviano Rodrigo Paz, de origem espanhola.
Partindo de fatos documentados, um ponto importante deste ensaio é o Project 2025, elaborado pela Heritage Foundation, um influente conjunto de think tanks conservadores sediado em Washington. Produzido em 2022, o documento, com mais de 900 páginas, propõe diretrizes para uma eventual transição a um novo governo republicano, prevendo o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Entre suas metas estão o combate à chamada “agenda woke”, a negação do racismo sistêmico, o enfraquecimento das políticas climáticas e a redução do papel da USAID.
A América Latina ocupa lugar estratégico nesse planejamento. O texto recomenda intensificar a “assistência externa dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental”, apresentada como resposta a ameaças como tráfico de drogas e armas, imigração irregular, pandemias e a influência de China, Rússia e Irã. O próprio documento reconhece que bilhões de dólares foram investidos na região sem que, segundo seus autores, isso tenha produzido estabilidade — argumento usado para responsabilizar governos de esquerda por corrupção, radicalização política e aproximação com Pequim.
Na Argentina, a Heritage Foundation mantém articulação com a Fundação Liberdade e Progresso, presidida pelo economista Alberto Benegas Lynch Jr., mentor intelectual de Javier Milei. O alinhamento entre o governo argentino e a agenda do Mandate for Leadership tornou-se explícito em 2024, quando Milei recebeu o documento de Derrick Morgan, vice-presidente da Heritage. Não por acaso, a Conferência Política de Ação Conservadora (CPAC) teve Buenos Aires como uma de suas sedes recentes, antes de retornar a Washington.
Na Bolívia, a eleição de Rodrigo Paz sinaliza uma inflexão na política externa após 17 anos de governos do MAS. Formado pela American University, Paz defendeu a retomada de laços diplomáticos e de cooperação com os Estados Unidos, incluindo a possível volta da DEA ao país. Antes da posse, reuniu-se em Washington com autoridades norte-americanas e representantes de bancos multilaterais, assegurando um empréstimo de US$ 3,1 bilhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF). No mesmo período, manteve contato com a líder da oposição venezuelana María Corina Machado, conhecida por posições anticomunistas e liberais radicais.
No Chile, o condor (ou talvez a águia-careca?) sobrevoa atento. José Antonio Kast mantém vínculos políticos e pessoais com figuras da extrema direita europeia, como Beatrix von Storch, vice-líder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), investigada por declarações xenófobas. Seu marido, Sven von Storch, atua como assessor informal de Kast em política internacional e mantém relações com Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump. As conexões de Sven com movimentos conservadores na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina incluem interlocução com a família Bolsonaro.
Durante a campanha, Kast defendeu a retirada do Chile do Conselho de Direitos Humanos da ONU — posição posteriormente relativizada. Embora tenha afirmado à CNN Chile, em 2021, não ser pinochetista, manifestações recentes em cidades chilenas exibem imagens do ditador como parte de um suposto “resgate” histórico.
Não há hoje esquadrões da morte multinacionais, mas há transferência de know-how repressivo, financiamento de campanhas e ingerência diplomática que replicam a lógica — ainda que sem os mesmos níveis de violência. Não por acaso, a Heritage Foundation descreve a América Latina como um “campo de prova ideal” em documentos como 35 Solutions for Latin America. O condor, afinal, sempre retorna “a su nido”, como vimos nesta invasão de Trump à Venezuela, e Calle 13, em Latinoamérica, diz generosamente: “perdono, pero nunca olvido”. Deste lado, não perdoamos nem esquecemos. Seguimos aqui atentos, como o leão do poema de Cecilia Vicuña (Iluminuras, 2024, tradução de Dirce Waltrick do Amarante):
A CIGANA ADORMECIDA
(UM LEÃO VIGIA SEU CADERNO DOS SONHOS)
A Cigana escreveu durante anos
uma obra secreta que ninguém jamais
conhecerá, mas que começou
a se realizar na vida real.
Enquanto ela continua sonhando,
seus sonhos formam o mundo.
O leão, contudo,
não pode dormir.
Se deixa de vigiá-la,
ela pode despertar
e nós, desaparecermos
instantaneamente.





