Notícias de outras ilhas: Natália Agra

Notícias de outras ilhas: Natália Agra
A poeta e editora Natalia Agra (Foto: Divulgação)

 

Natália Agra, 33, é poeta, editora da Corsário-Satã e tradutora. Vive em São Paulo com seu companheiro, o poeta Fabiano Calixto. Publicou os livros de poesia De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017) e Fotogramas (o silêncio possível) (Megamíni, 7Letras, 2019). Estreou no campo da literatura infantil com o livro Os balões de Nise (Coleção Coco de Roda, da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2019). Edita, ao lado de Fabiano Calixto, Rodrigo Lobo Damasceno e Tiago Guilherme Pinheiro, a revista de poesia Meteöro. Organiza, com Emily Hozokawa, Fabiano Calixto e Tiago Marchesano, a Desvairada – Feira de Poesia de São Paulo. É curadora, ao lado da poeta Maíra Mendes Galvão, da versão São Paulo do encontro Poetas de Dois Mundos. Seu novo livro de poesia, Noite de São João, será lançado ainda este ano.

Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena -, indica três poemas de Anna Świrszczyńska, Rosa Oliveira e Leonardo Fróes, escolha que se deu pela “urgência do momento”. Leia os poemas e o comentário da poeta abaixo.

 

Durante essa quarentena tenho tentado focar em algo para além das terríveis e desanimadoras notícias, que chegam e nos cercam a existência. Os livros, que normalmente já são um alento, agora são refúgio, lugar de respiro. Estou lendo atualmente Entre nós – Um escritor e seus colegas falam de trabalho, de Philip Roth, e Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk. Depois pretendo ler Silêncio – conferências e escritos, de John Cage, que já se encontra na fila.

Para além da literatura, indicaria também a série Barry e o filme Border. E, acredito que é chegada a hora de ver, ler e sentir tudo que deixamos empilhado pelo nosso dia a dia. E, para além de qualquer coisa, é hora de rememorar tudo o que amamos. No meu caso: Ingmar Bergman, Theo Angelopoulos, Tom Waits, Joni Mitchell, Paul Celan, Patti Smith, W. B. Yeats, Marianne Moore, Drummond e tantos outros. Os dias que ficaram para trás farão falta, mas criarão, acredito, novas essências.

Além dos autores citados, também estou lendo muita poesia. Anna Świrszczyńska (poeta polonesa), Rosa Oliveira (poeta portuguesa), e o nosso querido Leonardo Fróes. Abaixo, um poema de cada, seguidos de breves comentários.

***

Hospital

Anna Świrszczyńska

O incêndio do sofrimento
bufava pelas janelas,
agonizavam em fileiras no chão,
eu colocava os pés
entre as bocas e os olhos que gritavam.

Cada corpo era uma fortaleza
trancada por bocas e olhos,
na qual a morte e a vida
disputavam um duelo de morte e vida.

Em todo lugar estavam jogadas
joias de coragem e esperança,
o hospital era o tesouro
dos tesouros que não tem preço.

em Eu construía a barricada (Editora Dybbuk, 2017). Tradução de Piotr Kilanowski.

***

Strindberg

Rosa Oliveira

 

As pessoas às vezes são tão indefesas… É como estar na floresta de noite. Corujas voam por cima com os seus olhos brilhantes, animais rastejam e uivam e gemem. Somos cercados por ruídos húmidos…
Em busca da verdade, Ingmar Bergman (1961)

 

agora que morremos
a vida pode enfim recomeçar
agora que a vida parou
podemos falar uns dos outros sem o espectro da ofensa

agora basta olhar
aconchegar um pouco as cinzas
reconfigurar o passado

tínhamos muito pouco
fios de suspeitas
espreitando entre portas
pressentimos as peças que faltavam
subentendidos
falangetas perdidas
elos naturalistas espalhados pela floresta
rumores de anões atarefados
cogumelos a crescer nos bastidores
brumas no sótão
corridas de ratos na casa da lenha
rigorosamente
empilhada para o inverno

para viver tínhamos de esquecer prazos e limites
desleixados
não sorvíamos a vida a plenos pulmões
absortos
adiámos a eternidade em troca do urgente

parece que nietzsche viu isto e enlouqueceu

em Cinza (Tinta-da-China, 2013), de

***

A fogueira dos amigos

Leonardo Fróes

Tantos anos depois, velhos amigos
celebram, ao redor da fogueira, o reencontro,
conversando como sempre. Rindo um pouco
de tudo, mas com espaço para todos.
Todas as opiniões convergindo
para o ponto unificador de harmonia
que se cristalizou entre eles.
Nem parece que estão passando horas,
nem que o rio do tempo embranqueceu seus cabelos.
Não parece haver separação nem partes
nem vontades opostas
no bailado dos seus gestos solícitos.
É a fumaça rendilhada nos corpos
que delineia as atitudes comuns,
todas enlaçadas formando a mesma figura,
expressiva e compacta, de sombra e luz.
A alegria da simpatia que os irmana
é uma oferenda à alma do universo.
O ato de estar neste conjunto
em sintonia com a pureza dos recortes
é a glória da espécie.

em Chinês com sono (Rocco, 2005)

 

A escolha destes três poemas se deu pela urgência do momento: este período atípico que vivemos. Os poemas convergem em algumas camadas, porque imaginei aqui três situações distintas: um antes, um durante e um depois. O primeiro poema exprime a grandeza dos hospitais, da esperança e da coragem; o segundo estabelece a morte, os ossos e as cinzas evidenciadas e como podemos reconstruir um recomeço; e o terceiro é regozijo – o êxtase do encontro após o caos – a sensação do respiro aliviado, a alegria de perceber que não estamos sós. Esse me parece o melhor dos cenários, ainda que tudo tenha de algum modo um aspecto trágico. Daqui da minha ilha de isolamento e edição, deixo ainda um conselho: repousem na esperança. Saúde para todos.


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