Mito e ressentimento brasileiro

Mito e ressentimento brasileiro

Artigo originalmente publicado na Revista belga MO* http://www.mo.be/magazine-editie/brazili-tussen-mythe-en-wroeging). Aqui em português.

O poder do mito é o da explicação relativa ao desconhecido. O mito pode ser a narrativa tradicional de um povo – seja este povo nativo da Índia, da Grécia, ou das Américas – a traduzir sua verdade ancestral, mas também pode ser a fabricação da “verdade”, da “essência” e da “natureza”, de modo a sustentar interesses ideológicos. Há, portanto, uma diferença entre o mito como narrativa da origem e o mito como construção social ilusória. Neste caso, o mito mostra alguma coisa para esconder outra.

É neste último sentido que vou usá-lo aqui para falar do “mito nacional” do Brasil. Como a imagem de um país é construída é questão que envolve aspectos internos e externos a este país. Por meio dessa imagem podemos dizer que a Itália é isso, a Irlanda é aquilo, o Japão é isso, Angola é aquilo. Raramente paramos para pensar que há algum interesse por trás de definições tais como essas: o interesse em “enquadrar”, em transformar o desconhecido em algo conhecido por identificação. Não é exagero pensar que por trás do ato de definir está a tentativa de dominar o que é estranho e assim, transformando-o em algo familiar, eliminar sua estranheza. Se lembrarmos do gesto de Colombo chegando às Américas e definindo as pessoas que encontrou como “índios” porque acreditava ter chegado às Índias, temos um bom exemplo do perigo de “identificar” e, na sequência, de definir o estranho que é sempre um “outro” como se este outro coubesse dentro de uma categoria conhecida e própria. Continuamos olhando com os olhos de Colombo, quando identificamos o desconhecido com o conhecido, o complexo com o simples, o outro com o mesmo.

Por isso, diante das explicações por identificação que configuram o mito do brasileiro, somos obrigado a nos perguntar “o que é ser brasileiro?” levando em conta que esta pergunta é altamente problemática considerando que vivemos na era da singularidade. Precisamos nos perguntar se há sentido em definir um “brasileiro” em particular, ou o “povo brasileiro” em geral. Além disso, não seria o que chamamos de povo brasileiro aquele que, sendo efeito de um entrelaçamento de processos históricos, sociais e políticos diversos, um dos povos mais difíceis de se definir no mundo atual? O povo brasileiro é tão heterogêneo culturalmente falando que não se presta à identificação. Além disso, tentar definir os brasileiros como uma unidade – a “brasilidade” – não seria continuar incorrendo no ato de produzir o seu “mito” como explicação forçada em relação ao que não se encaixa na explicação? Ora, juridicamente é brasileiro aquele que nasceu no Brasil ou naturalizou-se brasileiro por viver aqui incorporando seus aspectos culturais. O que seja a cultura brasileira é, contudo, algo complicado, porque o Brasil não é uma país uniforme no sentido de suas expressões, artísticas, urbanas, rurais, musicais, nem mesmo de seu clima e geografia variadíssimos, nem mesmo dos hábitos cotidianos de suas populações. Se procuramos o Brasil “natural”, encontramos o Brasil “cultural”, mas se encontramos o Brasil “cultural”, ele também não é nada simples.

É verdade que nossa história política que envolve a colonização, a escravidão e uma grande ditadura da qual nos livramos há menos de 30 anos, além de uma democracia em estado embrionário, nos garante um ressentimento comum. A língua portuguesa (imposta a vários grupos de imigrantes há menos de cem anos no período da ditadura Vargas) nos une da mesma maneira ressentida em um país que produz analfabetos por descaso e abandono estatal. A língua da colonização que somos convidados a amar, não contempla as línguas dos imigrantes, ou dos povos nativos, ou dos povos africanos que aqui chegaram não como imigrantes, mas na posição de escravos.

Hoje em dia outro fator menos sublime parece dar certa homogeneidade ao Brasil atual. Trata-se da Indústria Cultural, sob a qual a cultura brasileira, popular ou não, morre à pauladas. A Indústria Cultural encontrou nessas terras, o seu solo fértil, no qual falar nela é praticamente proibido.

O Brasil dos outros

Um brasileiro que viaje a outro país não se surpreenderá que estrangeiros vejam no Brasil a imagem do carnaval, do samba, de belas mulheres prontas a algum tipo de sexo sempre fácil. O senso comum estrangeiro não surpreende mais ninguém. A imagem que se faz do Brasil fora do Brasil inclui a Amazônia, o Rio de Janeiro e o samba. Ora o Brasil é associado à selva e seus perigos, ora ao paraíso por seu litoral e demais riquezas naturais e turísticas. A imagem do Brasil fora do Brasil é a do futebol, do povo hospitaleiro e pacífico, da gente simples, da malandragem, e necessariamente, da pobreza auto-contente. Um país onde colonos e escravos não entram em guerra. Um país onde as pessoas são as mais felizes do mundo como fica claro em certas pesquisas sobre um estranho ideal de felicidade. Neste país, acredita-se que as pessoas estão “numa boa”, não reclamam porque, em que pese uma política corrupta e péssimas condições sociais sempre aproveitadas por certa indústria cultural da violência, as pessoas não teriam temperamento para reivindicar mudanças ou para, com as próprias mãos, agirem em uma direção diferente.

Brasil Recalcado

No imaginário de não-brasileiros e de brasileiros, o Brasil é transformado há muito naquilo que ele não é. O Brasil recalcado não é lembrado em qualquer imagem que se constrói sobre o Brasil. Quem vê o país da floresta, esquece o da seca e do crescente desmatamento que transforma floresta em deserto. Quem vê as praias, esquece as vastas terras tomadas pela colonização entre estados. Não vê o país que há muito apagou da cena a imagem de seus indígenas dizimados e até hoje ainda assassinados em conflitos com proprietários de grandes latifúndios em nome do agronegócio. O país que esconde também o assassinato de mulheres, de homossexuais, travestis e pobres, que esconde o tráfico e o narcotráfico, que esconde políticos corruptos financiados por empresas inidôneas. Um país que oculta a ignorância geral fomentada a cada dia pela ausência de um projeto de educação real para o povo. O Brasil nada carnavalesco e muito violento é ocultado. Os brasileiros que vivem no Brasil aceitam em grande medida a visão do outro sobre ele mesmo, seja o estrangeiro, seja o intelectual culto, sejam os meios de comunicação que alimentam o imaginário social. E, como as condições – educacionais e culturais – para colocar em cena outras visões do Brasil, não estão dadas, mesmo que por inércia, todos ajudam a alimentar a visão de um Brasil estereotipado. Para mudar essa visão seria necessário analisar o recalcado na própria cultura, o que implicaria rever o cenário simbólico, mas também a impressionante desigualdade social de nosso país acobertada por um aspecto fundamental do mito brasileiro que é o seu desenvolvimento rápido nos últimos anos.

Terra de ninguém simbólica

O Brasil é lugar que aceita todo tipo de explicação. Feito “terra de ninguém” em termos concretos – mesmo que aqui vivessem povos nativos cujos descendentes, embora poucos, ainda vivem -, tornou-se terra de ninguém em nível simbólico. Qualquer um fala o que quer do Brasil. E o que todo mundo diz, salvo alguma exceção crítica, corresponde ao mito como conjunto de estereótipos. Ora, um Brasil estereotipado é bem mais fácil de vender do que um Brasil complexo.

Se a sociedade do espetáculo vive da produção de estereótipos, o Brasil é uma mercadoria relativamente fácil. Basta mitifica-lo para acobertar suas contradições que ele vende muito bem. No conjunto dos estereótipos, pesa o estereótipo do Brasil “natural”. A indústria cultural do turismo aliou-se ao mito do país do sexo como algo também natural. A ideia de um país da prostituição não deve aparecer mesmo quando sabemos que muitos estrangeiros vem ao Brasil para exercer o turismo sexual, o que é combatido internamente por certas pessoas e instituições. A prostituição infantil que serve a estrangeiros é ocultada por que prejudica a própria imagem vendável do Brasil. O acordo hipócrita está sempre previamente assinado pelo silêncio que garante o andamento de tudo como está na manutenção do mito nacional geral.

O Brasil ocultado

Podemos hoje dizer que aspectos inusitados em nossa cultura vem à tona perturbando compreensões prévias tais como a ideia do brasileiro “cordial” que desde 1936 com o livro Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, teve alto impacto tanto na interpretação científica quanto no senso comum em geral. Esse clichê, tomado como verdade, não foi questionado por ninguém. Senão pelo sociólogo Jessé Souza que em seu livro “A Ralé Brasileira – quem é e como vive” que aborda criticamente a construção do mito da brasilidade por parte de sociólogos canônicos nos estudos brasileiros (Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro, Roberto DaMatta, entre outros). Criticando as teses de todos eles, Jessé Souza propõe que se analise os brasileiros não mais em termos de interpretações acerca do caráter dos povos colonizadores ou do patrimonialismo elitista, mas que se verifique como na sociedade brasileira as relações de produção capitalista produziram todo tipo de desigualdade no nível aterrador que conhecemos hoje. O livro de Jessé Souza fala de uma imensa maioria de brasileiros, mais de um terço da população, que vivem marginalizados, nas favelas, destituídos de qualquer capital, seja ele o mais básico capital educacional ou social que garantiria a chance de pessoas conseguirem os mais básicos empregos provendo necessidades básicas como alimentação e moradia.

O Brasil acordado

Pesquisas recentes sobre o “zeitgeist” contemporâneo dizem que os brasileiros são os cidadãos mais “felizes” do mundo. Os brasileiros pesquisados falam de si sem pensar no que falam, porque não foram formados para pensar nisso. Pode, nesta base, soar simplesmente curioso que o contrário tenha surgido diante de tantas manifestações por mudanças político-sociais exigidas no contexto de uma insatisfação geral demonstrada publicamente como vimos nas ruas de muitas cidades tomadas por milhões de pessoas desde 2013.

Hoje, em 2014, as pessoas continuam lutando na medida do possível diante de uma polícia violenta usada como único braço do governo para tentar manter as aparências e o povo calado já que a Copa do Mundo se aproxima. O povo continua sem saúde, sem educação, sem o mínimo de direitos constitucionalmente assegurados reivindicando escolas “padrão FIFA”, saúde “padrão FIFA”. Os moradores de periferias sofrem envergonhados pelo local que ocupam como moradores subalternos sem chance de mudar suas vidas. O mito do futebol, parte importante do mito nacional, está caindo por terra. Se é verdade que brasileiros são apaixonados por futebol, é bem verdade também que brasileiros revoltam-se diariamente contra a FIFA e a Copa do Mundo. O número de pessoas despreocupadas com as manifestações contra a Copa é amplo, mas não podemos dizer que o mesmo povo que ama futebol esteja contente com o governo e o acordo feito com a FIFA. Acordo que, para muitos, implica vender o Brasil.

Ao mesmo tempo, certa classes sociais baixas e até médias tem uma alta carga horária de trabalho e de estudo. No Brasil há uma imensa população de trabalhadores que estuda em universidades de segunda categoria esperando que, pelos próprios esforços desmedidos, possam superar suas condições sociais e econômicas em meio a toda sorte de adversidades e precariedade social. As manifestações do últimos tempos mostram que a cordialidade, a acomodação, o desinteresse político já não retratam a vida das pessoas que vivem no Brasil, se é que um dia expuseram alguma verdade.

Brasil para brasileiros

Talvez seja muito irônico dizer que os brasileiros não veem a si mesmos, pois veem televisão, e com ela confundem a realidade. Mas é fato que em junho de 2013, a população brasileira saiu às ruas em nome de uma causa aparentemente muito simples: protestar contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. O susto de muitos com a novidade brasileira – o “despertar do gigante” como alguns chamaram – se deve à alteridade que surge sem caber no parâmetro da identidade sempre afeita a “essências” e “naturezas”. Certo é que a partir disso uma mudança de auto-compreensão coletiva está em cena no Brasil atual. A impressão generalizada, do senso comum à investigação em ciências humanas, era de que as pessoas estavam felizes com o governo e com o estado social. Verdade que os brasileiros despertaram para a questão política que estava esquecida ou até mesmo recalcada, mas isso não deve ser traduzido apenas em nível de “consciência revolucionária” adquirida.

No Brasil atual não devemos acobertar o fato um crescimento de tendências fascistas, de ódio ao outro, a negros, índios, homossexuais. Esse ódio não é novidade, mas que ele esteja em alta é algo que só se poderá enfrentar com a lucidez que se preocupa em desmanchar os mitos.

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