A menina que revirava tatus-bola

A menina que revirava tatus-bola
  Sou a primeira filha dos meus pais – depois de mim, vieram três irmãos; brincamos e brigamos muito na infância, e eu não me diferenciava deles na molecagem: somos amigos até hoje. Brincava bastante com eles, mas como não sou boa em esportes, tinha muito tempo livre para inventar brincadeiras sozinha. Minha predileta era a de imaginar que eu era uma pobre órfã solitária, que precisava entrar sorrateiramente nas casas para roubar um pouco de comida na cozinha. Na época, achava-me capaz de não ser vista quando estava em ação, mas, um dia, desconfiei de que fingiam, para não estragar a brincadeira. Na mesma linha dessa, a brincadeira solitária inventada na verdade por uma amiga um pouco mais velha, chamava-se “passar desapercebida”. Dava para brincar sozinha: o jogo era andar pela casa muito quietinha, esgueirando-nos pelos cantos de um cômodo a outro, sem que ninguém me visse. Sempre me considerava vencedora, talvez porque os adultos notassem o desafio que eu havia me imposto e fingissem não me ver. Nunca saberei se eu era craque em ficar invisível ou se o sucesso do jogo era garantido pela vista grossa da minha mãe e das queridas domésticas com quem eu também gostava de brincar. Só meus três irmãos não tinham condescendência com minha suposta “mágica”. No fundo do quintal, em cima da garagem e da lavanderia, estava o pequeno apartamento onde moravam meus avós. Meu avô Renato Kehl, eugenista (na época não tinha ideia do que era isso), gostava muito de mim. Minha avó Eunice (cujos diários, recomendo, foram publicados pela ed

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