Memórias que enganam

Memórias que enganam

 

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Àqueles que iniciam a formação para o exercício da psicanálise é oferecido com frequência o seguinte conselho: Estudem, estudem muito, e no momento da prática clínica, mais precisamente durante as sessões, esqueçam tudo que estudaram.

Estranho conselho, à primeira vista. Porém, a análise pessoal, denominada análise didática, a que o analista em formação necessita submeter-se, possibilita a ele a compreensão do fenômeno.

W.R. Bion (1897-1979), psicanalista britânico, alertou para o fato de que memória e desejo deveriam ser banidos da prática psicanalítica, sob a alegação de que “objetos psicanalíticos não podem ser apreciados pelos sentidos – são isentos de forma, odor, tato, visão, etc.”. De outro modo, “a mente torna-se saturada por elementos sensoriais e de prazer-dor, ambos enganosos” (Cogitações, Imago Ed., 2000, p. 303.).

Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, já havia chamado a atenção para as “lembranças encobridoras”, ou falsas lembranças, que não passavam de fantasias plenas de desejo. O clássico exemplo desse mecanismo psíquico é o Complexo de Édipo, experiência fundamental para a constituição da mente da criança, quando certas memórias são excluídas.

Não precisamos nos valer exclusivamente da memória para a elaboração de ideias e pensamentos. A intuição é uma habilidade psíquica de que todos dispomos, e que ainda é pouco compreendida, menos ainda utilizada. Houaiss a define como a “capacidade de perceber ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou análise”.  A palavra vem do latim intuitione, formada a partir de in- (em, dentro) e tuere (olhar para, guardar). Podemos chegar a determinada conclusão sobre algo de forma involuntária, ou inconscientemente, como se costuma dizer. Porém, a memória embaça, obstrui mesmo, o exercício da intuição; é a tal “mente saturada” descrita por Bion.

Embora a ideia da existência do inconsciente tenha se tornado de domínio público, as pessoas pensam pouco sobre isso, sobre o que nós realmente somos, ao considerarem apenas as manifestações objetivas da consciência. Pois as traições que nos pregam nossa memória não estão distantes de nossa vida cotidiana. Ao contrário, as lembranças enganadoras estão presentes em nossos sonhos de cada noite.

Momento decisivo para o entendimento, mesmo que parcial, da psique humana foi a publicação do monumental A interpretação dos sonhos, no início do ano de 1900, no alvorecer de um novo século, por Sigmund Freud. Surgia ali uma via direta para o acesso ao inconsciente: o sonho. Quando, ao despertar pela manhã, buscamos a pessoa mais próxima para relatar um sonho extraordinário que tivemos, esta memória pode ser bastante enganadora.

Tornou-se célebre a definição freudiana: “O sonho é a realização de um desejo”. Para Freud, o sonho possui um conteúdo manifesto e um latente. O que Freud chamou de “trabalho do sonho” (a condensação, o deslocamento, a dramatização e a simbolização), permite que o conteúdo latente se manifeste, utilizando-se de uma espécie de linguagem cifrada. A memória que guardamos do sonho, que às vezes chega a ser tão real que pode mesmo ser confundido com a própria realidade, é sempre trazida à consciência de forma ambígua, disfarçada, através do inconsciente (podendo então ser interpretada no trabalho analítico).

Estes são alguns exemplos de memórias que enganam. Não se deve confiar cegamente na memória – nossa mente é mesmo elusiva.

 

André Luiz Vianna, 74, residente em Brasília – DF, médico, PhD
pela Universidade de Londres, professor aposentado da
Universidade de Brasília, psicanalista formado pela Sociedade de
Psicanálise de Brasília, filiada à IPA.

 

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