Marasmo latino-americano
Começo de ano, fugindo do calor com um ventilador turbo ligado na cara, leio no meu celular que o presidente dos EUA sequestrou um presidente latino-americano que estava vestido com conjunto da Nike, óculos escuros e que foi exposto como um pato de caça em uma foto imediatamente icônica, as mãos atadas por uma possível algema de ferro.
Não vou sair em defesa do governo no mínimo ambíguo da Venezuela, mas a imagem é uma punhalada na soberania, sobretudo na paz, da América Latina que já penou por tantas ditaduras atrozes, capitaneadas por presidentes norte-americanos ao longo do último século ― eu mesma filha de um torturado na ditadura de 64.
Me vem agora uma cena de um filme do Godard (ou de um documentário?) em que ele pergunta insistentemente a um norte-americano de que América ele é. O gringo não entende e responde cheio de si: I’m american! E o personagem (ou o próprio Godard) insiste: De que América? O gringo já irritado responde resoluto: North-America. Godard retruca: Mas de que parte da América do Norte? Não lembro como termina a conversa aflitiva, mas que lava a alma de todos nós, também americanos, lava. Com sua metralhadora de perguntas simples ele coloca o americano em um lugar inominável, oco.
Quando morei lá e sofri preconceito de diversas matizes me espantava como um campeonato de beisebol poderia ser chamado de World Cup, já que só os times estadunidenses iam disputar o troféu. Eles realmente se acham os donos do mundo. Interferem onde querem, dão desculpas esfarrapadas, perseguem adversários via CIA das formas mais insidiosas ― sabiam o que o Maduro comia e o nome dos cachorros dele, por exemplo. Sequestram o presidente de um país e sua esposa, e fica por isso mesmo.
Dessa vez a história é meio contada como farsa porque, seu principal personagem, Donald Trump, é uma caricatura de um sociopata irrefreável, um chimpanzé maluco solto pelo zoológico roubando picolés de criancinhas com um braço e desfigurando o rosto de uma idosa com uma perna. Pobre dos puros chimpanzés, desculpem-me a metáfora.
Um marasmo e um estupor convivem comigo nesse início de ano. Uma preguiça símia, para continuar no mundo dos primatas, um estarrecimento com os caminhos da América Latina e do próprio Brasil em ano eleitoral para presidente e senadores.
Se o chimpanzé bronzeado artificialmente e de olhos suínos não tiver um troço até lá, estamos MUITO a perigo. E o que eu posso fazer? Botar o emoji da bandeirinha da Venezuela na minha conta de Instagram? Pegar em armas para defender a soberania brasileira, como o presidente da Colombia, Gustavo Petro, declarou recentemente? Não, mesmo. Não consigo chegar a um metro de uma arma. Eu e a maioria da população não podemos fazer nada, sobretudo diante deste congresso lombroso e de uma dezena de governadores fascistoides — como, por exemplo, Tarcísio Freitas, veladamente candidato à Presidência da República. O vídeo descaradamente eleitoral, sobre a invasão dos EUA à Venezuela — com pelo menos oitenta mortos nessa brincadeirinha, diga-se —, que ele publicou ontem, é de dobrar os intestinos dos mais sensíveis.
Tive de desligar o celular e olhar para o meu teto de estuque por minutos a fio. Não é nada agradável ter colocado duas filhas no mundo-marasmo em que vivemos para um mundo-futuro. Mad Max é Bluey se não formos acrescentar a crise climática na conta. Finjo que não é comigo, escuto o disco novo da Rosalía enquanto rego uma lágrima de cristo no quintal.
Aí me vem uma pontada no baço, quando lembro de um vídeo de IA feito com venezuelanos de joelhos agradecendo ao “salvador” Trump. Ou quando ligo as notícias na televisão e vejo jornalistas contemporizando o ataque vil sofrido pelo povo venezuelano que vivia sob uma ditadura de esquerda.
Tudo bem que ainda fechem as narinas para o suíno de laquê no cabelo loiríssimos, o dono do mundo, quicando a esfera terrestre com suas patas animalescas, mas, segundo os analistas políticos da imprensa brasileira, meno male, alguém foi lá e botou a mão na massa, ou no petróleo, como ele mesmo afirmou na caradura, e a impressa brasileira insiste em trocar o ouro negro pela palavra “democracia”. Dá muita raiva. E o calor quadruplica essa raiva e a minha consternação.
O que nos sobra é o marasmo do verão, já que a união europeia lixa as unhas compridas. O que nos sobra é desejar que o imperialismo norte-americano esteja chegando ao seu fim, com um fascista regendo com as batutas do apocalipse. O que será, será. Mas o que aconteceu no dia 03 de janeiro de 2026 foi imenso, macabro e perigoso.
O que será das minhas filhas? O que será dos seus filhos e se você não tem filhos, do futuro da América Latina? O Pato Donald Trump vai grilar o nosso continente igual está tentando fazer com a Groelândia? Vamos novamente (enfim, Bolsonaro e caterva presos) sermos ridicularizados com o epíteto de República das Bananas?
Eu quero o Brasil que eu sonhei e vi acontecer ali no início dos anos 2000, quando eu tinha vinte e poucos anos e meus amigos tinham dinheiro para pagar aluguel e viajar para o exterior. Onde a fome foi extinta. Onde por um curto espaço de tempo se podia viver de literatura. (Hoje meus amigos se suicidam.) O Brasil rico em biomas e melodias, colorido, futurista, um Brasilcore e encantador para os estrangeiros que nos visitam e vivem uma aventura imensamente humana. Eu quero um Brasil humano para minhas filhas. E para os seus filhos brasileiros. Sofremos tanto até aqui, merecemos. Não é um suíno de olhos siderados pelo poder que vai destruir nosso sonho, enquanto olho pro teto e penso nesse texto.
Um frio me sobe à espinha quando concluo que seremos os próximos venezuelanos. Nosso progresso e riqueza vai de encontro ao projeto estadunidense de dominação mundial. Pode me chamar de alarmista porque, se você está minimamente conectado com os últimos acontecimentos, é o caso de se estar alarmado mesmo.
Ainda quero acreditar numa possível derrota da extrema-direita brasileira no poder executivo. Ainda quero acreditar em futuros presidentes latino-americanos progressistas. Ainda quero acreditar na força do BRICS, mas minha filha me chama, está enjoada e com dor de cabeça, então procuro um analgésico na caixa bagunçada de remédios para ela, enquanto ela me olha com olhos melancólicos e intensamente latino-americanos.
Natércia Pontes nasceu em 1980, é cearense e mora em São Paulo. Autora de Copacabana dreams (Cosac Naify, 2012), (Segunda edição, Companhia das letras, 2024), finalista do Prêmio Jabuti, 2013, e de Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021). É autora de outros contos publicados em edições como Granta (2023) e O dia escuro (Companhia das Letras, 2024).





