A mais bela declaração de amor: Jorge e Zélia, amados

A mais bela declaração de amor: Jorge e Zélia, amados

 

O ano era 1945, quando o regime do Estado Novo de Getúlio Vargas dava sinais de queda. Uma multidão de cerca de 100 mil pessoas se reunia no estádio do Pacaembu, em São Paulo, para um comício em homenagem a Luiz Carlos Prestes, onde Pablo Neruda declamava um poema sobre os filhos dos heróis da América e os velhos operários de olhos úmidos.

No entanto, a visita do poeta chileno ao Brasil marcaria não só um dos momentos mais importantes da luta comunista da época, como também uma das mais belas declarações de amor de nossa literatura. O romancista baiano Jorge Amado — então candidato a deputado federal por São Paulo — e Zélia Gattai, uma jovem, filha de imigrantes italianos “anarquistas, graças a Deus”, sustentavam um amor platônico, com flertes de Jorge direcionados a Zélia em sua coluna na Folha da Manhã.

Uma noite, Amado, Gattai e Neruda passavam de táxi em frente ao Cemitério da Consolação, após um jantar, quando o baiano desceu do automóvel, comprou todos os cravos vendidos por um florista e fez uma chuva de flores sobre Zélia, enquanto dizia que a amava — uma cena que o chileno nunca esqueceu, como afirma a filha mais nova do casal, a escritora Paloma Amado: “Desde então, Pablo sempre dizia a mamãe: ‘mira, comadre, los claveles en la madrugada’.”

O episódio marcou o início de uma longa relação de amor, respeito e colaborações literárias entre dois dos maiores escritores brasileiros, que só se interrompeu com a morte de Amado, em 2001. Paloma ilustra a admiração mútua e a afinidade ideológica entre os dois com uma anedota: “Quando queriam elogiar mamãe, diziam que ‘por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher’. Papai dizia: ‘Zélia nunca andou atrás de mim; sempre andou ao meu lado e de mãos dadas, caminhando pra frente. E a nossa frente é sempre a esquerda’. Com uma frase tão simples, ele resumia tudo sobre os dois.”

O amor de Zélia e Jorge retorna a São Paulo este mês com a exposição Amados: Zélia & Jorge, que permanece até o dia 22 de fevereiro de 2026 na Caixa Cultural, com curadoria de Paloma Amado, que falou por telefone à Cult sobre a relação dos dois, o cotidiano da família e os futuros projetos para a publicação da obra fotográfica de Zélia.

 

Como era um dia típico junto a Zélia Gattai e Jorge Amado? Quem eram as figuras que costumavam frequentar a casa?

Era muito simples. Sempre tomávamos um café da manhã farto, como é de costume aqui na Bahia. Acordávamos cedo. Se eles estivessem escrevendo — mamãe começou a escrever aos 63 anos —, sentavam-se cada um em sua máquina de escrever, e trabalhavam até o almoço. Se eles não estivessem escrevendo, saíam para passear. Papai gostava muito de ficar no jardim cuidando das plantas e lendo. Mamãe também fotografava. Em geral, à tarde. Ela ia ao laboratório e se perdia no horário, revelando negativos e ampliando imagens. Ambos liam bastante.

Muita gente frequentava nossa casa. Carybé e Mirabeau Sampaio nos visitavam quase todos os dias. Muitos também vinham de fora só para nos conhecer. Mas o domingo era um dia especial, quando fazíamos a “domingueira” — como papai dizia: a partir das nove horas, a casa ficava aberta para quem quisesse entrar. Sempre havia uma baiana fazendo acarajés e batidas de frutas, que papai comprava no bar do Diolino.

Nessas domingueiras, recebíamos sempre meu tio James, João Ubaldo Ribeiro e o artista Emanoel Araújo. Caymmi e Camafeu de Oxóssi também sempre nos visitavam e tocavam juntos.

 

Alguma história pouco conhecida te marcou na infância?

Durante muito tempo, Vitorina era a baiana que recebíamos para fazer acarajé em nossa casa. Além de Baiana de Acarajé, ela era a mãe pequena de um terreiro de candomblé jeje que frequentava. Mãe pequena é, digamos, a vice-mãe de santo, a segunda pessoa do terreiro. O orixá de sua cabeça era Tempo — o mesmo da música de Caetano, representado pelas gameleiras de salvador, uma árvore imensa.

Um dia, Vitorina teve um derrame cerebral bastante grave, que a forçou a parar de trabalhar e a deixou de cadeira de rodas e com problemas na fala. Todo mundo a ajudava. Um dia era festa de Tempo em seu candomblé. E, nessa ocasião, o filho de santo do orixá tem obrigação de dançar. Ela mandou telefonar papai, mamãe, eu e Carybé nos convidando para assistir a festa.

Quando os tambores bateram para Tempo, vários homens fortíssimos a ergueram por debaixo do braço e pela cintura e saíram dançando, até que o santo baixou e ela se soltou e começou a dançar sozinha — com as próprias pernas, gritando com a braveza de Iansã.

No intervalo, como é tradição, os filhos de santo trocaram suas roupas pelas vestes de seus orixás e, enquanto comíamos a comida do santo, Vitorina veio nos cumprimentar — de olhos fechados, com o santo — e levantou Carybé, um homem pesado, e girou com ele pelo terreiro.

Quando isso aconteceu, pedi a meu pai para me explicar. Ele disse “eu não. Isso é um milagre, e milagre a gente não explica. A gente vê, sabe que viu e guarda”. Isso foi uma lição para mim. Quando conto essa história, lembro de Pedro Arcanjo, um personagem de Tenda dos milagres. Materialista e pai de Xangô — igual a meu pai — ele dizia: “meu materialismo não me limita”. Papai sabia que a vida nos passa muito a perna para derrubar nossas crenças.

 

Como você se sente vendo a obra de Zélia Gattai retornar a São Paulo, cidade sobre a qual escreveu tão delicadamente em Anarquistas graças a Deus?

Ela foi uma paulistana muito fiel à sua cidade. A São Paulo de sua infância, do início do século 20, nunca saiu de dentro dela. Quando íamos visitar suas irmãs, ela se surpreendia com os novos edifícios e sempre nos contava o que existia antes no lugar deles.

Fico muito feliz pela exposição estar acontecendo em São Paulo. Não só por ela, que tinha orgulho de sua terra e a retratou com muita delicadeza, mas também por ser uma exposição sobre o amor entre os dois, sobre um casal que viveu mais de 50 anos juntos, com muito respeito e felicidade, sem perder de vista que não foi o primeiro casamento de nenhum dos dois. Ambos tinham experiências anteriores e filhos.

Quando queriam elogiar mamãe, diziam que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Papai respondia: “Zélia nunca andou atrás de mim; sempre andou ao meu lado e de mãos dadas, caminhando pra frente. E a nossa frente é sempre a esquerda”. Com uma frase tão simples, ele resumia tudo sobre os dois.

Eles se conheceram em São Paulo, quando meu pai se candidatou a deputado federal nas eleições que escolheram a Assembleia Constituinte de 1946, para a qual foi eleito pelo Partido Comunista. Pouco depois, mudaram-se para o Rio, então a capital federal, mas não podiam se casar por causa do desquite. Somente com a aprovação do divórcio, em 1977, puderam oficializar a união.

São Paulo foi o berço desse amor. Na exposição há uma instalação intitulada “Segredo a Sete Chaves” que reproduz a declaração de amor de papai para mamãe. Na ocasião, eles estavam em um táxi, com Pablo Neruda, em frente ao Cemitério da Consolação. Papai parou e comprou todos os cravos e cobriu mamãe, no banco de trás, com uma chuva de flores, repetindo que a amava. Desde então, Pablo sempre dizia a mamãe: “mira, comadre, los claveles en la madrugada”. Na exposição, você pode tomar um banho de cravos e escutar Zélia contando essa história.

 

Zélia se autodenominava uma memorialista e produziu muitos livros nesse sentido. De onde você considera que tenha vindo esse interesse pela memória?

Acho que isso é de família. Na coleção de fotografias que temos na Fundação Jorge Amado, há muitos registros dela, desde a infância até a adolescência. Meu avô tinha o costume de retratar a família. Há, por exemplo, uma foto dele e outros imigrantes italianos atravessando pela primeira vez a estrada de Santos em automóveis. Ou seja, meu avô já tinha esse apreço pela memória.

Minha mãe, que só começou a escrever com seus 60 anos, também foi uma fotógrafa extraordinária desde cedo. Meu pai comprou para ela uma máquina fotográfica russa, com os direitos autorais que recebia da União Soviética. Ela não tinha limites: aprendeu a falar russo para ler o manual da câmera.

Ela dizia que era uma “paparazzi às avessas”, porque conseguia fotografar as pessoas mais importantes — ninguém fugia dela, pois ela era esposa de Jorge Amado. Por causa disso, ela conseguiu fazer a mais bela fotografia de Fidel Castro — totalmente desarmado — e doou para a Fundação cerca de 30 mil negativos organizados em papel de seda.

 

Há planos para publicar a obra fotográfica de Zélia?

Agora a Fundação está compondo os volumes de arquivo. Acabei de revisar o primeiro, com fotos de viagens dos dois pelo Oriente, material de grande importância hoje. Pouca gente sabe, mas meu pai e minha mãe, junto do poeta cubano Nicolás Guillén e de sua mulher, estiveram entre os primeiros escritores latino-americanos a visitar a China sob o governo de Mao Tse Tung, em 1952. Esses registros são da maior importância e não abrangem apenas a China, mas também Bangladesh, Mianmar, entre outros. Esse livro deve ser publicado no começo do ano que vem.

 

Em que grau você considera atual o legado político de Jorge Amado?

Acho que papai ainda exerce, através de seus livros, uma influência política bastante importante, e acredito que isso não vai acabar nunca, porque ele era um homem com ideias muito claras. Ele gostava de dizer que pensar pela própria cabeça custava um preço altíssimo, mas que sempre valia a pena. E mamãe também, pela influência que exerceu como mulher. Mesmo sem nunca ter sido uma militante partidária, ela militou pela causa socialista e deixou um grande legado. Por causa do mesmo processo que enviou Olga Benário à Alemanha, meu avô também foi colocado na fila para ser enviado à Itália de Mussolini; só não foi porque morreu antes. Essa experiência que Zélia teve ainda muito jovem fez com que nunca deixasse de lutar pela paz e pela união dos povos. Esse foi um laço muito forte entre meus pais.

 

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