Livro infantil ‘Zumbi assombra quem?’ celebra a cultura afro-brasileira

Livro infantil ‘Zumbi assombra quem?’ celebra a cultura afro-brasileira Ilustração de Edson Ikê (Divulgação)

Durante a brincadeira com os amiguinhos da escola, Candê é xingado e expulso do jogo. “Sai daqui, Candê sujo! Cabelo de zumbi”, gritam os colegas. Amuado, Candê volta para casa e recorre à sabedoria de seu Tio Prabin: “Tio, então Zumbi assombra quem?”, ele pergunta.

E o Tio, espantado com o significado que um nome tão importante ganhou na boca da molecada, responde: “Candê, Zumbi quis mesmo estorvar e ser um pedregulho na colher de prata dos palacetes, ser um caroço na mastigada do manjar em caldas dos castelos. Não é porque é feio que apavora e sim porque sua realeza não cabe na moldura espinhosa que desenharam pro seu pescoço”.

A história é do livro Zumbi assombra quem? (Nós), do escritor e historiador Allan da Rosa. Voltada para o público infanto-juvenil, a obra acompanha as peripécias e dúvidas infantis de Candê, um menino negro que vive com a mãe, Manta, e seu Tio Prabin em um bairro periférico que poderia situar-se em qualquer cidade brasileira. Através das palavras, crenças e histórias de sua família, o garoto começa uma jornada de conhecimento sobre sua ancestralidade, sua beleza e sua força – enquanto enfrenta o racismo que não dá tréguas nem mesmo para um menino de sete anos.

Lançado em outubro, o livro celebra as raízes africanas, resgada a história dos quilombos e faz o leitor questionar, junto com Candê, a historiografia “oficial” do Brasil, narrada nos livros didáticos, geralmente, pelos brancos. “Quem assina esses dicionários? De onde será que vem essas certezas babando pelos cantos da boca?”, questiona, a todo momento, Tio Prabin.

Através da fala macia e característica de Prabin, Candê e leitor aprendem que Zumbi foi um grande herói – e não um monstro ou demônio -, conhecem a força e a coragem das mulheres negras (muito bem representadas no livro pela mãe de Candê e por sua avó, Dona Cota Irene), e ficam sabendo que não há nada de feio em ter cabelo crespo, nariz largo e pele negra.  

Ilustração de Edson Ikê (Divulgação)
Ilustração de Edson Ikê (Divulgação)

Além de resgatar a história dos quilombos e desconstruir os padrões de beleza brancos, Zumbi assombra quem? versa sobre outros temas relacionados ao racismo, como a desigualdade social, a violência policial e até mesmo o preconceito contra religiões de matriz africana.  

Em um dos trechos mais marcantes, por exemplo, um coleguinha de Candê faz um escândalo na escola porque um grupo de músicos foi tocar tambores: “Coisa ruim e fedida do diabo”, diz o menino, aos prantos. Mas Tio Prabin, paciente, explica ao sobrinho: “Como um livro de poesia, tambor é árvore que na mão frutifica, que na raiz da alma gira e no chão da pele anda e floresce”.    

Zumbi assombra quem? é uma leitura fluida, por ser escrito de forma poética e coloquial, como se a história estivesse sendo narrada ali, na hora – é um livro que acolhe como uma leitura feita pelos avós na hora de dormir. E o objetivo, segundo o autor, é este mesmo: “Eu tenho o sonho de que as pessoas mais velhas leiam Zumbi assombra quem? em voz alta e com a sua molecada e seus coroas, porque não há intimidade maior do que ler junto”, diz.

Rosa conta que a ideia de escrever um livro questionador para crianças veio das vivências e leituras que fazia com o filho, Daruê, que hoje tem 10 anos de idade. “Precisei, tanto por meio de historinhas, quanto de estudo da história, apresentar positividade a ele. Na minha busca, eu não queria apresentar só heróis infalíveis e idealizados, mas também contradições da nossa história. isso aparece nos diálogos do Tio Prabin com o menino Candê”, conclui.

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