Infância como “sinônimo da míngua”

Infância como “sinônimo da míngua”
(Foto: Bob Sousa)

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Fotos de Bob Sousa

Acostumaram-me a isso muito cedo e, em consequência, admirei o menino pobre, que, depois de numerosos padecimentos, realizou feito notável (…).
Graciliano Ramos, Infância.

Infância, o espetáculo baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos que o ator Ney Piacentini e o instrumentista Alexandre Rosa estão apresentando na SP Escola de Teatro até o final de abril, constitui uma experiência cênica e musical em que lirismo e lucidez se enlaçam a fim de não somente falar das agruras de uma criança de outrora, vividas em chave de rememoração, como também de estender tal experiência subjetiva ao âmbito da vida coletiva contemporânea.

Reminiscência individual e memória social são as matérias-primas das quais o narrador habilmente concebido pelo escritor alagoano se serve, colocando-nos frente a frente, seja pela via da sensibilidade, seja pela da razão, com um casal de pais que trata com absurda severidade suas crianças. E com um país que não faz diferente.

(Foto: Bob Sousa)

É bastante conhecida no universo da crítica literária a proposição de Antonio Candido para quem, no livro que Graciliano publicou em 1945, “os castigos imerecidos, as maldades sem motivo, de que são vítimas os fracos, estão na base da organização do mundo”. Assim é que infância e injustiça se equivalem, transformando o volume de recordações infantis de Graciliano em uma espécie de matéria especular das Memórias do cárcere, publicadas tempos depois.

A grande qualidade da prosa do escritor da qual o espetáculo faz sua principal linha de força é a prontidão épica. Ninguém, então, melhor do que Ney Piacentini, com sua larga experiência no teatro dialético brechtiano investigado e praticado pela Companhia do Latão, da qual é um dos fundadores, para adaptar esse rico e denso material para a cena, sem cair no risco de esboroar os contornos daquela prontidão.

(Foto: Bob Sousa)

Leitor e espectador não se sensibilizam pela experiência bruta do que tenha sido aquela infância e, sim, pelo modo como o narrador modifica os fatos ligados a ela, não somente mediando-os por uma consciência que é pura agudeza de espírito, como também submetendo-os a um processo pelo qual a memória se converte em matéria de representação, de mimese – para Aristóteles, uma forma de conhecimento que produz prazer.

Não é o nosso compadecimento diante dos sofrimentos indevidos de uma criança indefesa no sertão nordestino que mais importam no espetáculo (o mesmo ocorrendo no livro) e, sim, a transposição deles para o palco, com sua necessária transformação criativa, quando entram em cena os recursos estilísticos próprios do teatro e também atuam nele outros processos de elaboração poética (atentemos ao sentido original da palavra; poiésis: criação, ação, confecção, fabricação; isto é, a forma), no caso aqui, em especial, a música.

(Foto: Bob Sousa)

Há relatos contraditórios a respeito da relação de Graciliano Ramos com a arte presidida pela musa Euterpe. Se ele gostava de ouvir música ou se exasperava-se com ela, para nós, aqui, esse irônico dilema pouco importa, porque o trabalho de Alexandre Rosa – instrumentista, compositor e contrabaixista da Osesp – não se configura propriamente na criação de uma trilha sonora para a peça, que o espectador usufruiria como um elemento acessório, pontuando climas e atmosferas aqui e acolá. Em absoluto.

Alexandre, doutor em música-performance pela Unesp, concebe a música do espetáculo como uma linguagem essencial. E ela procura expressar, como forma pura, a contenção, a aridez, a síntese, o equivalente às “mesmas vinte palavras girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca” de que fala João Cabral de Melo Neto no belíssimo poema dedicado ao escritor alagoano.

(Foto: Bob Sousa)

A música de Infância tem muitas particularidades. O instrumento musical influencia o gesto e a forma de movimentação do intérprete e do próprio músico, ele também um actante em cena. Das narrativas do livro surgem pequenos motivos musicais que vão se transformando, sobretudo quando há variação dos instrumentos. A técnica empregada é fazer com que os elementos mínimos se transformem.

No palco, estão um contrabaixo acústico, um violão de cordas de nylon, uma viola caipira, um violino piccolo, uma ocarina, um gongo chinês, um harmônio de fole, um shruti box. Os dois últimos instrumentos, da tradição musical indiana, são usados para causar estranhamento aos ouvidos brasileiros. Estranhamento de timbres, segundo o instrumentista. Uma tentativa de criar um atrito sonoro com o público.

(Foto: Bob Sousa)

Texto e música caminham juntos, retroalimentando-se. Ator e músico não irradiam sua força criativa para além das palavras de Graciliano – o que poderia conduzir a uma atmosfera emocional inadequada, tiranizada pelo sentimentalismo. Como é próprio do gênero épico, a atuação, seja cênica, seja musical, ocorre o tempo todo no nível das palavras. Isto é, no nível da mediação exercida pelo narrador de Graciliano. Atento, crítico, sagaz.

À teia dos pequenos fios dramatúrgicos desenovelada por Ney Piacentini corresponde a teia dos leitmotivs sonoros executados por Alexandre Rosa, conferindo à empreitada o caráter de um recital sui generis. Um recital austero cujo desejo, inconsciente talvez, seja emular o drama musical ao estilo de Richard Wagner.

(Foto: Bob Sousa)

Ao contrário de acentuar o “sistema literário pessimista” de que fala Antonio Candido, o arco dramatúrgico do espetáculo investe na iniciação epifânica do menino no mundo das letras (uma cena de forte impacto, muito bem resolvida na admirável performance de Ney Piacentini) como uma saída daquele universo de “fatalidade cega e má”. Os homens são esmagados pela vida e esmagam uns aos outros, mas a arte e a literatura sempre haverão de funcionar como instrumentos de descompressão, como espaços felizes.

Além da leitura de todos os livros de Graciliano Ramos e da conversa com especialistas que estudam sua obra, o projeto de pesquisa do espetáculo levou ator e músico, em dezembro de 2021, a vivenciarem o sertão de Alagoas e de Pernambuco em busca dos espaços e do mundo sensorial sobre os quais Infância é construído.

Os viventes do aqui-agora Ney e Alexandre conviveram, assim, com os viventes do lá-então em busca daquela criança desassistida de afeto. Que, no espetáculo, ganha uma outra dimensão. Seja no sentido latino da palavra (sem fala ou incapaz de falar), seja no uso histórico do vocábulo em Portugal e Espanha (sem direito a herdar a coroa), há toda uma nação “infante” que precisa urgentemente invadir e pressionar nossa memória, segundo Walter Benjamim, a mais épica das faculdade humanas.

(Foto: Bob Sousa)

INFÂNCIA
SP Escola de Teatro – Sede Praça Roosevelt (60 lugares)
Praça Roosevelt, 210 – São Paulo
Segundas, terças e quartas, às 20h30
Ingressos: R$ 20 e R$ 10
Duração: 60 minutos
Classificação: Livre
Até 26 de abril

Welington Andrade é bacharel em Artes Cênicas pela Unirio, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da Faculdade Cásper Líbero.


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