A Grande magia é belo chamado à razão

A Grande magia é belo chamado à razão
Créditos: João Caldas

 

Brecht disse certa vez que belo é resolver problemas. Não por acaso ele chamou seu teatro, a certa altura, de “teatro para uma época científica”. Essa ciência da arte, de onde virá a beleza – ou uma tradução singular sobre o que pode ser a beleza – não é tarefa colocada ao acaso. É proposição que define tudo aquilo  que o encenador alemão criou: um teatro crítico, desensimesmado , em que a “resolução” das questões postas é tarefa coletiva. Nesse sentido, resolver problemas não é, como podemos imaginar de pronto, correr atrás de resultados e sim expor racionalmente as circunstâncias que movem a ação humana, que a fazem existir como tal. A grande magia, trabalho atual da Cia. Elevador de teatro panorâmico em cartaz no Sesc 14 Bis, salvo engano tem algo a ver com essa forma de atitude crítica.

O espetáculo comemora os 25 anos do coletivo, uma das referências mais frutíferas na cultura de grupos que marcou a cena de São Paulo nas últimas décadas e que neste momento vive uma inegável crise (tema para um outro texto). A experiência vivida em São Paulo nos mostra que grupos não são famílias com artistas que seguem juntos a vida toda. O usual é que resista ali um núcleo duro, que movimenta certo projeto pensado para pesquisas de longo prazo, eventualmente comportando outros artistas convidados a cada montagem.  O que interessa é que, de todo modo, há ali uma cultura própria, em que pese o panorama muito diverso. É uma cultura resguardada por formas de construção cênica que embora mudem seguem azeitadas pelos instrumentos lapidados na convivência estendida, desdobrada em métodos de trabalho e expressão, em perspectivas políticas e etc. Como podemos ver nesse aniversário da Companhia, o grupo não é algo acidental. Um espetáculo como A grande magia só pode existir a partir de repertório e de uma liga singulares. Dificilmente seria possível, com esse viço e rigor, no chamado teatro de produção.

Dramaturgia abraça diferentes gêneros

A peça, uma comédia em chave de metateatro, caminha engenhosamente do humorístico ao dramático, e não sem motivos. A sua veia crítica é apontada nesse trajeto que vai do cômico ao patético. A história tem muitos lances e acidentes que o crítico não vai descrever, sob risco de antecipar o que o espectador pode viver ele mesmo. De qualquer maneira, trata-se da história de um marido possessivo, sua esposa e personagens ligados ao casal, em certo contexto. Durante um show de ilusionismo, o mágico, um tipo de retórica suspeita, faz a companheira do sujeito desaparecer dentro de um sarcófago. A questão é que a mulher aproveita o truque para sumir de verdade, em uma fuga com o amante. Toda a sequência, desdobrada em três atos, desenvolve-se dentro do formato da comédia tradicional: um momento para a apresentação dos personagens, outro para a complicação do conflito e o último para uma – no caso, provisória – resolução.

Ao ouvir o texto criado pelo italiano Eduardo De Filippo (1900- 1984), praticamente um desconhecido entre nós, podemos antecipar que o autor não foi apenas um exímio escritor de literatura dramática. É um autor com intuição direta para a cena. Parece ouvir atentamente o que o palco pede e entende muito do traçado, talvez pelo fato de ele mesmo ter sido ator, o que não explica tudo mas pode ajudar a compreender a desenvoltura da sua carpintaria.

A obra de De Filippo  está sob visível influência de Luigi Pirandello, no sentido do interesse por uma dramaturgia empenhada em investigar as máscaras sociais.  Porém, é criação que nos chega com autonomia, moldada nos seus próprios termos e, certamente, com elementos para uma discussão mais diretamente política que nos textos de seu conterrâneo.

A peça pode ser lida em diversas direções – por exemplo, como um bem urdido quiproquó em torno do tema da verdade e do autoconvencimento, ou também, além disso, como um tratado político envolvendo as relações entre ideologia e razão. Permanece, em qualquer caso, o propósito da diversão jogada nos espaços entre criação e fruição. O texto tematiza e faz valer o diálogo palco-plateia como um dos seus desdobramentos especulares. Na montagem, essa característica ganha um amparo considerável, com a introdução de um narrador que não existe no texto original e que colabora com a abertura das portas e janelas da cena. E então o espelhamento proposto em vários momentos do espetáculo se estende também ao público, chamado a observar as possibilidades do que pensamos ser a representação, a ilusão, a verdade – sobre as tábuas e na vida. Estes assuntos certamente são abordados pelo dramaturgo napolitano sob o trauma da Segunda Grande Guerra. Talvez por isso apareçam matizados pela perplexidade. A experiência da tragédia conduz a uma disposição para fazer perguntas sobre os sentidos do real diante do fracasso. Do ponto de vista da escrita são contextos externos à obra que, no entanto, a levam para uma necessária – e bem-sucedida – mistura de gêneros.

Representação sublinha a dúvida

As atuações são demarcadas no espetáculo como se fossem as de personagens de uma comédia dell’arte, bem desenhadas pelo elenco em composições físicas de onde saltam caracterizações imediatamente legíveis. E risíveis. Os tipos, postos a bailar na marcação bem definida, explicitam o artifício, assumido como tal. São movidos no espaço da cena a partir do contraste entre passagens deliberadamente tumultuadas, velozes, mas límpidas, e outras em que o respiro abre passagem para momentos reflexivos e, por vezes, para momentos em que a autocrítica aparece quase sempre suspensa nos fios da dúvida. A dúvida! –  motor de uma fábula que teima em fazer perguntas a si própria, lâmina a ameaçar o pescoço e os discursos das personagens, criando lances de tensão cômica que deleitam a plateia enquanto o ser humano caminha irremediavelmente em direção ao malogro. É uma peça realmente muito boa, defendida por um elenco bem equalizado. Uma peça com vocação para ganhar o palco por trupes, que encontra na Elevador de teatro panorâmico a musculatura ideal para render até onde pode.

O espetáculo é, assim, antes de tudo, um inequívoco trabalho de atores e atrizes em colaboração coletiva, que seguem e realizam, como um grande e virtuoso coro, a afinação pedida pelo diretor. Sem demérito ao valor do conjunto, não há como não nos mobilizarmos especialmente com as interpretações de Chico Carvalho (Otto, o mágico) e Pedro Haddad (Calógero, o marido). Grandes trabalhos. Carvalho é um ator que domina com tanta desenvoltura e tantos recursos o cinismo e os perrengues de seu personagem que lá pelas tantas passamos a torcer pelo bom destino daquele que aos poucos revela-se, enfim, além de farsante, um sobrevivente. Nós o abraçamos, com falha moral e tudo. Ficamos à espera do próximo golpe de uma inteligência pressionada pela iminência do fracasso diante dos renovados lances de desconfiança. Está desenhado com capricho e grande efeito. Da mesma forma, Pedro Haddad explora a contracena com dedicação comovente. Aproveita o que pode do personagem que faz a curva mais significativa da história. Elabora em desempenho notável a trajetória de Calógero e nos mostra o movimento, vamos dizer, acrobático, do juízo moral, que vai de um a outro ponto da ortodoxia – da posição de rígida descrença ao patetismo de um autoconvencimento radical, na contramão absoluta dos fatos. É um personagem que nos chega, na pele do ator, como um exemplar da sociabilidade não só da época em que a peça foi escrita como também dos dias de hoje.

Encenador-artesão

A mise-en-scène faz questão de mostrar-se ensaiada. Além da orientação do elenco, passa pelas canções  que comentam, ora de um jeito lírico ora de forma irônica, o andamento da trama; pela luz (de Marcelo Lazzaratto), pensada na direção do show de variedades; até a direção de arte (Simone Mina), que reproduz no início telões de fundo remetendo a velhas formas da cenografia e avança, no último quadro, para o simbólico, abrindo possibilidades muito bonitas de leitura crítica da cena.

Assim, a montagem assinada pelo veterano Marcelo Lazzaratto deve ser tomada no sentido forte da palavra.  É orientada por um contra-naturalismo que, como é recorrente na comédia, leva a emoção a ser abordada como roupas que são estendidas no varal da razão (uma imagem do espetáculo). O trabalho de Lazzaratto se oferece aos nossos olhos como o de um artesão que tem grande amor ao ofício. É possível ver e sentir isso observando o seu gosto pelo trabalho com o elenco; no estudo dos tempos precisos de cada cena, na marcação não só rigorosa como também rica em um tipo de teatralidade que se explicita radicalmente como tal – o que, sabemos, não é tarefa fácil se o diretor não quiser que a coisa toda se dilua em pastelão. Que este trabalho esteja amparado em convenções históricas do teatro não é demérito, é um pedido justo da dramaturgia, que segue gerando interesse. Não se trata de formalismo ou reverência vazia e sim de respeito à política da linguagem proposta pelo autor. O diretor soube ouvir isso e respondeu com muita atenção.

 

 

 

            Em leitura possível, A grande magia nos mostra os caminhos que vão do truque recreativo à manipulação da verdade; e da fé na verdade aos dogmas sedimentados em crença. No caso, é quando as intuições políticas do autor são remetidas dos anos 40 do século passado aos dias atuais. É uma prova de que os sentidos de uma obra se renovam nos movimentos materiais do fluxo histórico, que não é reto. Sobre isso o momento em que vivemos, pautado nas ilusões vendidas pelo neofascismo, nos diz bem. Então, deixando de lado as “mazelas do comportamento humano”, tomadas como motivação universal, o que mais interessa na peça, proponho, é mesmo a disputa pela ideia de verdade. Uma disputa que não acontece em abstrato, mas nas circunstâncias dos processos sociais. Daí aquilo que a intriga nos mostra. Trata-se da representação cômica dos erros da “condição humana”, mas também das suas melancólicas e, no limite, trágicas consequências se pensarmos em termos de projetos para a convivência coletiva.

Verdade como razão própria

No espetáculo há então, subliminarmente, essa questão, que a dramaturgia não alcança, mas ilumina: se pensarmos o espetáculo cotejando-o com a conjuntura atual a partir de um ponto de vista, podemos dizer, minimamente “progressista”, o problema é que o ilusionismo que os conservadores criaram para si diante da realidade, ou seja, a sua razão própria, parece inabalável diante dos aparatos críticos disponíveis. E, ainda: sob esta razão própria, para um cidadão ou cidadã conservadores os ideologizados somos nós.

Se esta percepção estiver correta, podemos dizer, por um lado, que A grande magia acerta no alvo da discussão que importa, sem propor solução, o que pode parecer, para alguns, insuficiência. Por outro lado, podemos dizer que essa recusa em tirar o discurso salvacionista da cartola é a forma mais honesta e politicamente mais produtiva diante de um horizonte de expectativas que foi drasticamente encurtado – o nosso.

Voltando a Brecht, nesse caso o espetáculo é um chamado à razão. Não porque resolva para nós o problema, mas por apontar que a aparente aporia não desaparece em um passe de mágica. Tem motivações explicáveis e complexas. O salto qualitativo para fora da queixa só poderá ser proposto e conduzido por nós mesmos, que estamos na plateia. Além das qualidades propriamente formais da montagem, isso, supomos, também é – naquele sentido que nos mostrou o encenador alemão – parte importante da sua beleza.

  • Kil Abreu é jornalista e crítico de teatro

Ficha técnica

 

Texto – Eduardo de Filippo

Direção e Adaptação – Marcelo Lazzaratto

 

Elenco:

Carolina Fabri, Chiara Lazzaratto, Chico Carvalho, Ernani Sanchez, Fernando Vitor, Gabriel Miziara, João Portela, Larissa Garcia, Marina Vieira, Pedro Haddad e Rita Gullo.

Iluminação – Marcelo Lazzaratto

Direção de Arte (cenografia e figurino) – Simone Mina

Trilha Sonora – Marcelo Lazzaratto

Fotos – João Caldas

Visagismo – Roger Ferrari

Assistente de Figurino e Arte – Graziella Cavalcanti

Assistente de Cenografia – Vinicius Cardoso

Assistente de Direção – João Portela

Assistente de Produção – Rafaela Gimenez

Produção de Figurinos e Arte – Rick Nagash

Costureira – Selma Ferreira

Pintura de arte – Werner Schultz

Cenotécnico – Wanderlei Silva

Operador de Som – Gabriel Bessa

Operador de Luz – Filipe Batista

Contrarregra – Hiago Oliveira

Camareira – Alessandra Ribeiro

Mídias sociais – Tathiana Botth e Platea Comunicação & Arte

Assessoria de Imprensa – Pombo Correio

Produção – Anayan Moretto

Projeto: Cia. Elevador de Teatro Panorâmico

 

 

Serviço

 

Quando: De 30/8 a 21/9. Sextas e sábados, 20h. Domingos, 18h. Dias 4 e 11/9. Quintas às 15h. Dia 18/9. Quinta, 20h

Ingressos: R$ 60 / R$ 30 / R$ 18

Vendas online em centralrelacionamento.sescsp.org.br ou pelo aplicativo Credencial Sesc a partir de 19/8, 17h

Vendas presenciais nas bilheterias das unidades do Sesc São Paulo

Classificação: 12 anos

Gênero: Comédia

Duração: 120 minutos

Capacidade: 523 lugares

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