Filosofia do Blefe – uma simulação

Filosofia do Blefe – uma simulação

Quem joga poker diz que o blefe é imprescindível e que o bom jogador tem que saber blefar. Quem blefa, o faz fingindo ter ótimas cartas na mão. Há uma enganação, uma espécie de trapaça, ainda que seja uma trapaça leve, já que o blefe é quase uma regra do jogo. Pelo que entendi, o jogo de poker implica a regra e a enganação como uma espécie de sub-regra, algo que deve ser aceito e que, bem feito, chega a ser uma espécie de mérito. Melhor para quem tem talento, pior para quem não consegue. No blefe, há a aposta na credulidade alheia com a qual o blefador mantém sua posição como uma espécie de dono da verdade, mas não se trata de nenhuma verdade. Essa é a posição de poder sobre o adversário – o otário em jogo – mesmo que essa posição seja provisória e o blefador possa ao fim da jogada se dar muito mal. Bem provável que haja um prazer por si só nesse gesto de blefar mesmo que o resultado não seja o desejável.

O blefe é muito mais uma espécie de simulação do que de mentira. Na canção “Poker Face” de Lady Gaga, a blefadora faz cara de estar a fim, de estar amando, mas não está. Simula estar só para ver o que o outro faz com o que ela fez, com sua cara de simulação. Quem lê o “Manual do Blefador” usa os “conhecimentos” ornamentais recém adquiridos, bem decorados, para demonstrar entender de um assunto, o que só é possível ao nível do uso diante de outros que entendem tão pouco quanto ele. O Manual do Blefador não serve para falar com especialistas, mas apenas para encenar um saber evidentemente falso em certos contextos que pedem um jogo falso. A dissimulação seria inevitável, mas já não precisamos dela, porque os limites entre o verdadeiro e o falso implodiram. Simulamos num acordo geral em que ninguém fará denúncias senão para voltar às regras do jogo.

O falso se torna verdadeiro dentro do falso. O blefe seria, em certos contextos, uma espécie de cinismo oculto. Talvez uma mistura do verdadeiro com o falso na qual é impossível detectar onde começa a mentira e onde está a verdade. Um estar no tempo do talvez. Um sim e um não ao mesmo tempo. O bom blefador deixa o outro em suspenso. O bom blefador é sempre meio perverso: sua satisfação está em ver o rosto do outro acreditando nele. Poker Face no espelho invertido em que se estampa o rosto do otário. O otário feliz em pensar que sabe o que não sabe. Feliz provisoriamente como está o seu algoz.

Se colar, colou

Na literatura, nos meios de comunicação, no cinema, na televisão, tudo parece obedecer a uma espécie de lógica do blefe. É a lógica do “se colar, colou”. A imprensa, a indústria em geral, o mercado, todos produzem mercadorias como trapaça. Se colar, colou. A indústria dos utensílios inúteis, as bugigangas do consumismo, são efeito dessa lógica em que alguém aposta que o outro vai cair no blefe. Talvez não seja um exagero dizer que todo consumo depende do blefe. Ou seja, o consumidor está sendo enganado e consentindo com a enganação porque ela é a sub-regra do jogo do consumo.

A lógica do blefe rege a educação reduzida à mercadoria: simulamos educar nossos filhos, as escolas simulam transmitir conhecimento. A educação escolar não significa nada, o conhecimento não é mais do que algo vazio, um nome que se usa para sustentar a instituição. A indústria do vestibular talvez seja o melhor exemplo do blefe diante do qual comprar um diploma seria cinismo. O conhecimento é simulado tanto na escola quanto na loja onde o vendedor passa a impressão de que um sapato não é apenas um sapato, de que um eletrodoméstico não é apenas um objeto útil, mas algo carregado de informação. Hoje em dia o vendedor é mais informado sobre o vinho do que o estudante sobre o que ele realmente aprende que não seja para alcançar a média nas provas. Todos estão unidos na regra do “se colar, colou”.

(Entender o blefe é fundamental para entender a lógica de nossa cultura. Uma filosofia do blefe seria capaz de expor traços fundamentais de nossas relações em geral. Mais ainda, dessas relações enquanto implicam jogos de linguagem e jogos de poder. Onde começa a linguagem, onde termina o poder? O que escapa ao jogo?)

Vida simulada

Consideremos que o todo da experiência com a vida seja como um jogo, o blefe seria um jeito de fazer tudo não fazendo. De ser quem não se é, pelo menos por um tempo, sendo, ao mesmo tempo, aquele que se é. “Ser”, neste caso, é algo totalmente diferente de uma verdade e de uma mentira. Se lembrarmos de Caillois, o blefe seria parte do que ele chama de “Mimicry”, um jogo de fingimento, como quando ao brincar crianças usam uma personagem, por exemplo.

A vida das redes sociais dá garantias disso. Por isso, o termo simulação parece tão oportuno. Nas redes todos simulam. Ninguém é o que é, mas só o que pode, quer ou consegue ser, ou melhor, “mostrar”. O velho e antiquado verbo ser é ali reduzido ao aparecer e ao mostrar, as duas faces da cabeça de Janus. Mostrar nas redes faz parte do simular. O blefador não apenas finge que é isso ou aquilo, ele usa uma artimanha para causar um efeito sobre o qual ele não tem nenhuma segurança. De qualquer modo, o blefador testa seu poder. Ele aposta com o objeto que tem nas mãos. Pode ser dinheiro, pode ser um segredo, pode ser uma pessoa… Se tudo é blefe e a vida é só um jogo de simulação, é fácil pensar que não há mal nisso. A lógica do blefe implica que não se veja mal nele. Quem denunciar o jogo não entendeu sua regra e não poderá jogar.

Talvez que tenhamos aprendido a blefar com Deus – o grande blefador – numa aposta infinita em que fingimos ter nas mãos cartas melhores do que de fato temos. O bom blefador olha para a crença do outro na sua enganação e, pensando que Deus é apenas mais uma simulação, sabendo que tudo é permitido, vai dormir e se finge de morto.

Talvez essa conversa toda não seja mais do que um blefe…

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