Notícias de outras ilhas: Fabio Weintraub

Notícias de outras ilhas: Fabio Weintraub
O poeta Fabio Weintraub (Foto: Pádua Fernandes)

 

Fabio Weintraub é poeta e editor, autor, entre outros, do livro de poemas Quadro de força (São Paulo: Patuá, 2019). Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena –, indica poemas de Yehuda Amichai, Primo Levi e Leila DanzigerA curadoria é de Tarso de Melo. Leia os poemas e o comentário do poeta abaixo.

 

Não sei exatamente por que razão, calhou de eu começar a assistir na Netflix, pouco antes da Páscoa, à incrível série israelense Shtisel, sobre uma comunidade judaica ortodoxa do bairro de Geula, em Jerusalém. Já tinha ouvido falar bem da série, que não é nova, mas só agora pude vê-la. Entre outras coisas, Shtisel me encantou por descortinar, de modo crítico, com humor e delicadeza, as relações tão complexas e contraditórias entre a comunidade religiosa, aparentemente fechada na estrita observância de seus costumes e preceitos, e o mundo secular, com o qual ela mantém uma relação nada óbvia. A sujeição das mulheres é muitas vezes revoltante (sofremos com a personagem Giti, que, abandonada pelo marido com cinco crianças, não consegue revelar sua situação nem ao próprio pai, o rabino Shulem Shtisel), bem como a hostilidade em relação aos artistas (como os irmãos Zvi Arye, que renuncia à carreira de cantor, e Akiva, o caçula que luta com todas as forças para dedicar-se à pintura, considerada uma ocupação frívola, quando não perigosa).

Uma das coisas que também chamam a atenção é a recorrência de cenas em que os personagens conversam com os mortos. Nada da vulgaridade sobrenatural que nos habituamos a ver no cinema e na tevê, nenhuma concessão ao grotesco nem à grandiloquência edificante. A assimetria e a estranheza entre vivos e mortos é aqui mais matéria de reflexão que de espetáculo. Uma bonita cena, entre muitas: o rabino Shtisel, viúvo há algum tempo, cogita se casar novamente. Ele ainda se sente ligado à falecida esposa, mas sua secretária, que já nutriu atração por ele sem ser correspondida, o adverte sobre a dureza que é envelhecer solitariamente. Já em casa, enquanto ele janta, uma lâmpada queima. Ao subir na cadeira para trocá-la, a cadeira quebra e Shulem cai, machucando-se. Não consegue reerguer-se. Imobilizado no chão, surpreende-se com a aparição da esposa a seu lado. Ambos ficam deitados algum tempo, olhando o teto da cozinha. Diz a mulher: “Há dez anos eu havia proposto trocarmos essas cadeiras”, ao que Shulem replica: “E por que não trocamos?”. “Por que você disse que elas ainda durariam dez anos”. Shulem então conclui rindo: “Viu? Eu estava certo”. E acrescenta: “Agora me ajude a me levantar.” Ao que a falecida responde: “Não posso, estou morta”.

Desde a contemplação inicial do teto, passando pelas mazelas domésticas (a falta de dinheiro para substituir os móveis) até a força do afeto em disputa desigual com a da gravidade, tudo é muito sóbrio, humano e bonito na breve conversa.

Por causa de Shtisel, escolhi compartilhar poemas de três poetas judeus que, de modos distintos, também abordam esse descompasso entre vivos e mortos, afeto e gravidade.

O primeiro deles é do poeta israelense Yehuda Amichai, que, tendo marcado presença em antologias coletivas publicadas no Brasil, como Poesia de Israel, organizada e traduzida por ninguém menos que Cecília Meireles (Civilização Brasileira, 1962)  recentemente ganhou entre nós sua primeira antologia exclusiva, com seleção e tradução de  Moacir Amâncio (Terra e paz: antologia poética, Bazar do tempo, 2018).

Desse poeta, pensei em escolher inicialmente o poema “Depois de Auschwitz”, em que os números tatuados nos antebraços dos prisioneiros do campo são descritos como “números de telefone de Deus”, que ninguém nunca atende. Acabei, no entanto, me decidindo por outro, em que Deus também aparece como figura infinitamente distante e ausente. Nestes tempos de distanciamento social, em que tanto se discute o raio de segurança diante da Covid-19, lembrei desse poema sobre o tamanho da destruição, que põe a nu a vacuidade dos nossos cálculos.

Publico aqui a tradução de Moacir Amâncio no livro já citado, mas a primeira vez que li esse poema foi no suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 1 de agosto de 1999, em tradução de Millôr Fernandes. Na tradução de Millôr, intitulada “O raio da bomba”, os versos finais dizem “e vai além, e amplia o círculo/ pro sem fim e pro sem Deus.”

***

O diâmetro da bomba

Yehuda Amichai

O diâmetro da bomba media trinta centímetros
e o diâmetro da destruição, cerca de sete metros,
nele, quatro mortos e onze feridos.
Ao redor, num campo mais largo
de dor e tempo, há dois hospitais
e um cemitério. Mas a jovem mulher,
enterrada no local de onde viera
à distância de mais de cem quilômetros,
aumentou muito o círculo,
e o homem solitário que chora pela morte da moça
no litoral de um país distante
inclui o mundo inteiro no círculo.
Não direi nada sobre o grito dos órfãos
que chega ao trono divino,
e de lá abre o círculo
até o infinito e o nada de Deus.

***

 

O segundo poema que me vem à mente nestes tempos de pandemia e confinamento é de um sobrevivente dos campos de concentração, Primo Levi, mais conhecido como prosador e memorialista. Está no livro Mil sóis, publicado no ano passado pela Todavia, com tradução de Maurício Santana Dias.

 

Rumo ao vale

Primo Levi

Arrancam as carroças rumo ao vale,
Estanca a fumaça das sarças, glauca e amarga,
Uma abelha, a última, vasculha em vão a cúrcuma;
Lentas, inchadas de água, as encostas desabam.
A névoa sobe rápida entre os lariços, como invocada:
Em vão a persegui com o passo pesado de carne,
Logo tornará a descer em chuva: a estação terminou,
Nossa metade do mundo caminha para o inverno.
E logo terão fim todas as nossas estações:
Até quando estas minhas pernas vão me obedecer?
Ficou tarde para viver e amar,
para penetrar o céu e compreender o mundo.
É tempo de descer
Rumo ao vale, os rostos fechados e mudos,
E nos refugiar à sombra dos nossos zelos.

***

Para nós também, provisoriamente refugiados “à sombra de nossos zelos”, terá também ficado tarde “para viver e amar”?  O último poema que escolho é de uma brasileira, Leila Danziger, e se encontra em um livro de 2012, Três ensaios de fala, publicado pela 7Letras. Ele se liga a outros poemas da autora sobre o pai falecido (e os incontáveis vestígios de sua presença, que a engajam em um trabalho de memória e luto).

 

Hebraico

Leila Danziger

À direita da mesa
29 cartões com as letras do alfabeto
método Ler é fácil
comprado por meu pai em 1968
por duzentos e vinte cruzeiros novos
pagos à Mazal, rua Senador Dantas 45-B, sala 801 –
recibo guardado em um envelope da Revista Engenheiro Moderno.
Examine todos os itens do método
Tome agora a sua decisão

Retiro o elástico que reúne os cartões
entregues assim
à mesa
em dispersão

e leio –
o delicado trabalho do mofo
que avança decidido pelas laterais.

                                                                   (Há poderosas formas de vida
                                                                   que se reproduzem
                                                                   em úmida comunidade
                                                                   desde o Levítico.)

___________

Reúno novamente as letras do alfabeto.
Investigo a origem da dissolução.
que se propaga a partir do canto superior direito
e percebo –
sedimentações esbranquiçadas
formarem-se
no ponto exato
onde meu pai segurava os cartões.

 

Difícil saber o que mais me agrada neste poema. Talvez a disposição para investigar “a origem da dissolução” e o caminho das “poderosas formas de vida” que florescem no espaço antes ocupado por nós, por nossos zelos, nossa ânsia de tornar o mundo legível e habitável. Nesse momento em que planeta e seus demais moradores sinalizam claramente a disposição para se recuperar do flagelo infligido por nossa terrível presença, é tentador enxergar a dissolução como uma forma de… retomada.

Encerro com uma última dica de um pequeno grande livro que também li nessa Páscoa: A cena interior, de Marcel Cohen (Editora 34, 2017). Trata-se das memórias de um sobrevivente do Holocausto cuja família, judeus de origem turca que viviam em Paris, é deportada para os campos de extermínio na Alemanha. Ele perde a mãe, o pai, a irmã (um bebê de sete meses), um tio e os avós paternos. O autor, que tinha cinco anos à época, só se salva por ter ido passear no parque com a babá no momento em que os familiares foram detidos.

Trata-se de mais uma obra de literatura de testemunho que chama a atenção pelo escrúpulo do autor em ficcionalizar sobre as lacunas de memória. Com base em um material muito reduzido, poucas reminiscências, algumas fotos e objetos, histórias contadas por parentes, ele vai reconstituindo a história dos familiares de modo surpreendente. Uma pulseira de bebê, uma fragrância de colônia, o jeito de segurar o violino em uma fotografia são os parcos indícios de que ele se serve para trazer de volta à lembrança, sem romancear, a figura dos que se foram. Não por acaso, embora seja um livro de memórias, o subtítulo adotado na obra é “fatos” (e, nas páginas finais, os objetos que apoiam as evocações aparecem designados como “documentos”). Uma obra que impressiona não só pela matéria, mas pela sobriedade e pelo rigor narrativo.


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