Educação como refúgio

Educação como refúgio
(Arte Revista CULT)

 

Sou professor. O meu lugar de fala é barricada. O local de onde falo é a escola. A mesma que é precarizada há anos. Roubo o termo barricada Jorge Larrosa, outro professor. A escola é ainda em nossa sociedade um espaço de reflexão, de tempo, de atenção. Nós professores, de acordo com Larrosa, roubamos os jovens do shopping para colocá-los na escola. A escola é barricada ao consumo, ao imediatismo, ao individualismo, ao economês que visa apenas o mercado. Utilizamos o ambiente escolar para que nele tenhamos um tempo livre a pensar. Errar, acertar, repetir, olhar… fazer do pouco, muito. Do muito, algo que contemple a vida e faça a reflexão tomar partido. E nunca uma escola sem partido. A escola deve tomar todos os partidos para si e jamais negar sua função social e política.

Sim, sou professor. A minha posição de fala tem a educação como matéria-prima. O meu lugar de fala diz que a escola tem de ser pensada na escola para poder apresentar as virtudes dela. A escola que menciono em voz alta é lugar de luta e resistência. Não apenas um momento de disciplinar, mas de emancipação, de pluralidade. A escola deve ser destacada como refúgio do pensamento. No exemplo brasileiro, a escola deveria ser uma das áreas destinadas a ouvir o outro de forma diversa e respeitosa. Deveria!

O meu lugar é o espaço escolar. É na escola que torno o meu pensamento público e doutrino jovens a raciocinar de inúmeros lugares. É na escola que ensino a respeitar o outro independente da sua maneira de pensar ou agir. Por isso, eu, professor, não posso temer! Não devo ter receio de assuntos polêmicos ou de censuras. Carrego comigo a liberdade como forma de atuação. A escola tem a sua linguagem que inviabiliza a repressão. Aqui na instituição escola, que, para alguns, sempre está em crise – e ainda bem que está em eterna crise -, que ministro aulas oferecendo a oportunidade de expressar opiniões e argumentos livres de amarras conservadoras. Mas… o meu lugar de fala também pode ser usado para denunciar! Sou professor e não me furto a acusar os movimentos desumanos a verem a escola como um lugar de extremo perigo! E com isso, essas tais vozes acusam a escola de retrógrada e ineficiente. A voz pedagógica tem de ser calada por aqueles que não leram Paulo Freire e nunca irão ler. A escola, meu lugar de fala, necessita desafiar a ordem social como meio de rever posições. A escola é o último local para questionar o dito, posto, sacramentado, como verdade. De qual lugar a verdade é o meu local de fala? A escola é meu canto da experiência. Como diz Larrosa, a experiência que ultrapassa o ser, que deixa marcas, que incomoda. A escola é o legítimo lugar do incômodo e da intervenção política. Nós professores precisamos da escola para se distanciar do mundo consumista e poder pensar. E foi na escola dos últimos meses que vi meninas e meninos serem agredidos por suas posições sexuais e políticas. É nesta escola que observei a intolerância como marca de jovens e adultos que não sonham mais.

Alessandro Varela dos Santos, 44, é professor de Sociologia, História e Filosofia, e doutorando em educação. Mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul

 

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