dia 3: “Sirat”, “La petite dernière” e “Eddington”, novo longa de Ari Aster
O deserto sempre foi um ambiente de interesse especial para o cinema: além da sua majestosa beleza estética, propicia aos personagens viagens interiores, a entrega a delírios e um teste para sua própria força a partir das adversidades geográficas. Sirat, do franco-espanhol Óliver Laxe, se passa no interior do Marrocos e explora todas as possibilidades do que um ambiente desértico pode oferecer. E o faz com tanta destreza, com tamanho poder de envolvimento do espectador, que o longa pode até deixar Cannes sem prêmios, mas terá certamente admiradores bastante aguerridos por onde estrear.
A trama acompanha Luís, um espanhol que vai para o Marrocos junto do filho pré-adolescente, Estéban, atrás da filha já adulta, que desapareceu sem dar notícias. Ele a procura em raves no deserto marroquino, mas não consegue pistas sobre seu paradeiro. Até que encontra um grupo de clubbers que está de partida para uma outra festa no meio do nada, perto da fronteira com a Mauritânia, então pai e filho decidem segui-los para ver se têm mais sorte ao procurá-la na outra rave.
Enquanto isso, eclode no Marrocos uma guerra (da qual temos poucas informações), e o país se vê em meio a um tenebroso caos. Mas Luís, Estéban e os clubbers se metem deserto adentro, livrando-se dos percalços causados pelo conflito, mas precisando enfrentar um ambiente inóspito, que oferece paisagens magníficas, mas que consiste em praticamente apenas areia, ventos fortes, sol escaldante e, em certos locais, campos minados.
É claro que, no fundo, Luís não está apenas indo atrás da filha. Sabe-se lá como é sua vida no dia a dia, mas fica meio evidente que, no deserto, ele consegue fugir para uma outra realidade – assim como fazem os clubbers, que optam por um estilo de vida hedonista e de inspiração hippie, sem conforto algum, mas ao menos distantes de toda a loucura que é o mundo em sociedade capitalista.
O grande problema é que, mesmo longe de tudo e de todos, a vida é cheia de mistérios insondáveis, e nem ali a existência deixa de se apresentar como algo incontrolável e inexplicável. O homem pode até piorar sua própria passagem pelo mundo, mas a vida, em si, pode ser tanto prazerosa quanto igualmente hostil – quando não cruel – onde quer que se esteja.
Sirat é uma grande viagem sensorial e alucinatória, de contornos místicos, ao som de muita música eletrônica – assistir ao longa fora do cinema fatalmente implicará em uma experiência menos rica do que o filme tem a oferecer. Esteticamente, Laxe faz uma obra de primeiríssimo nível. Se o cineasta não é tão bem-sucedido para elaborar implicitamente uma mensagem ou uma “moral da história” com seu filme (parece querer embutir alguma observação geopolítica, mas ela nunca se constrói de fato), ao menos em termos sensoriais ele consegue nos transmitir bastante coisa. E uma conclusão não muito animadora: a de que a existência humana escapa ao nosso controle, e que nos resta apenas seguir adiante, sem pensar ou planejar muito. Entorpecer-se de vez em quando, como os clubbers, pode até ajudar nessa nossa cruzada terrena, mas no fim das contas somos apenas um grão de areia em um interminável deserto de coisas que nos escapam.
Também na briga pela Palma de Ouro, La petite dernière mostra um drama lésbico sobre a descoberta sexual de uma francesa de ascendência argelina, que coloca a própria fé islâmica em questão quando percebe que seu desejo por outras mulheres é algo inevitável, ainda que proibido por sua religião.
O filme é dirigido por Hafsia Herzi, que começou como atriz, destacando-se por seu carisma e beleza em O segredo do grão, de 2007, do tunisiano Abdellatif Kechiche. Como realizadora, faz um cinema mais convencional, mas tem sensibilidade para cenas de diálogos intimistas – a conversa final que a protagonista tem com sua mãe é um trecho especialmente belo.
Mas talvez o forte de Herzi sejam mesmo as cenas de flerte e encontros amorosos – quando a protagonista conhece mulheres em aplicativos de pegação lésbicos, os encontros têm uma vivacidade que o resto do filme nem sempre possui. Sobretudo o primeiro deles, quando a protagonista conhece uma mulher mais velha, e as duas falam sobre as especialidades sexuais da mais experiente.
O que o filme traz de mais interessante, no entanto, é a forma como expõe o confronto entre religião e sexualidade. O longa não prega a sobreposição de um sobre o outro – e tampouco a conciliação entre ambos. Não: o islamismo proíbe a homossexualidade, e Herzi nos diz que isso infelizmente é um conflito que a comunidade LGBT que segue o Alcorão precisa enfrentar para sempre. Não existe fórmula para mediar fé e desejo, e apesar de ser um preço caro a ser pago por lésbicas que queiram continuar a ser muçulmanas, ele é incontornável. Ninguém disse que viver é fácil…
Eddington, do americano Ari Aster, completou a lista dos competidores pela Palma de Ouro desta sexta. Conhecido sobretudo por suas incursões no cinema de terror, em filmes como Hereditário, de 2018, e Midsommar – O mal não espera a noite, de 2019, o cineasta parece ter tomado gosto pela comédia de toques soturnos que apresentou em seu longa mais recente, Beau tem medo, de 2023. Porque ele volta a uma verve semelhante em Eddington, com a diferença de que, aqui, o lado psicológico do protagonista tem menos destaque do que o ambiente social em que ele se encontra inserido.
O filme é uma comédia de humor sarcástico à moda dos irmãos Coen, sobre a briga entre um xerife e o prefeito de uma cidadezinha no meio-oeste americano, durante a pandemia de Covid-19. Os dois se tornam rivais na disputa nas novas eleições municipais, em uma época em que os EUA (e o mundo) viviam em meio a um sentimento generalizado de paranoia, fomentados por fake news, teorias da conspiração e os conflitos entre vozes conservadoras e a cultura woke.
Mas os que admiram Aster por sua habilidade em trazer o espectador para dentro de seus filmes (ao menos os de horror) mal vão reconhecer o cineasta, desta vez. Porque ele demora tempo demais até encontrar um tom e uma cadência para a sua sátira política, então o filme simplesmente não sai do lugar até praticamente sua metade. Nada se encaixa, e o longa é disforme – é praticamente um amontoado de interessantes falas sarcásticas, que miram desde o politicamente correto à demagogia política, mas despejadas em uma narrativa desformatada, sem um estilo definido. Aster tenta fazer algumas pirotecnias com sua câmera, mas o roteiro não se acomoda a praticamente nada do que ele propõe em termos de mise en scène.
Joaquin Phoenix escolheu um jeito de falar para o seu protagonista que é por demais enfadonho – seu personagem se recusa a usar máscara na pandemia, mas quando ele diz suas falas, emite um som tão abafado que é como se tivesse a boca vedada por uma. A partir da metade, porém, quando ele precisa falar menos e se mover mais, o personagem finalmente se impõe. Phoenix empresta ao seu xerife um jeito de caminhar especialmente engraçado, com passos curtos e repentinos; se o filme tem alguma sobrevida (embora não muita) em sua reta final é graças à presença física do ator. Eddington demonstra uma grande vontade do diretor de fazer um filme definitivo sobre os nossos tempos, mas conseguir que ele tenha virado um “filme”, no fim das contas, já deveria ser motivo de festa para o cineasta.





