Duas mulheres, duas ditaduras
Há dois livros publicados recentemente no Brasil, A Chamada (Ed. Todavia, 2025) e O Voo da Locomotiva, (Ed. Rocco, 2926) que tiveram a coragem de explorar as zonas cinzentas da prisão de mulheres politicamente engajadas contra a ditadura, expondo fatos e contradições em obras que são ao mesmo tempo conjeturas e realidades.
Tanto Silvia, a protagonista argentina real de A Chamada, escrito pela jornalista e entrevistadora Leila Guerriero (Premio Strega Europeu 2026), quanto a brasileira Rosa Maria, a protagonista/narradora (que empresta seu nome ao de uma revolucionária real), de O Voo da Locomotiva, do escritor Frei Betto(Premio Jabuti, Juca Pato etc.), esperaram anos para tornar pública a versão dos fatos que envolveram a prisão delas, na época da ditadura, respectivamente na Argentina (1976-1983) e no Brasil (1964-1985).
Até que ponto uma prisioneira pode suportar a tortura sem delatar seus companheiros e comprometer seus ideais políticos é uma das perguntas que são respondidas pelos livros. Até que ponto é lícito o uso da violência e até que ponto essa violência é praticada pelo torturador em nome do país que afirma defender e não para saciar seus instintos sádicos? As respostas levam em consideração também o sofrimento das vítimas. Tanto Rosa Maria como Silvia conseguiram apaziguar sua consciência no modo como suportaram a tortura até que os companheiros se dispersassem, como se reconciliaram consigo mesmas apesar do trauma permanente e como se viram livres de seus principais algozes. Num e no outro caso, e de maneiras diferentes, eles foram eliminados. Vejamos como.
O Voo da Locomotiva
Rosa Maria, que viveu nos cárceres da ditadura brasileira por mais de três anos, a partir de 1971, primeiro no DOI-CODI do Rio, depois em uma série de outros locais, era filha de mãe costureira e de pai motorista de ônibus, classe média baixa do Rio. Depois de separar-se do primeiro marido Sandro, e mãe de um filho, Rafael, Rosa Maria continuou sobrevivendo com o seu salário de instrutora de ginástica, até que reencontrou Raul em 1967, na cidade do Rio de Janeiro, onde morava: um ex-colega de estudos. Eles conversaram e ele lhe disse que estavam precisando de auxiliares numa gráfica clandestina onde ele trabalhava, e ela foi convencida a trabalhar lá, no empacotamento e na distribuição de uma série de panfletos. “Mas eu não tenho formação política” – disse ela a Raul. Ele respondeu que era até melhor. Deram-lhe o nome falso de Luzia, e ela começou a trabalhar na gráfica. Um certo dia, apareceu Raul preocupado, dizendo que durante uma expropriação bancária, haviam sido mortos dois “dos nossos”, e que, portanto, era muito perigoso continuar na gráfica, e havia necessidade de se dispersarem. A gráfica foi invadida e, felizmente, os documentos comprometedores foram postos a salvo. Durante o tempo em que a agora Luzia trabalhou na gráfica leu uma série de livros que Raul lhe havia dado, desde Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, ao Manifesto Comunista de Marx. E ela sentia seu ego enaltecido por se iniciar como uma “bandida do bem”, pelo fato de viver na clandestinidade. E continuou com suas leituras, sempre acreditando na utopia.
Aqui já se percebe uma diferença entre os autores dos dois livros. De um lado, uma jornalista que realiza uma série de entrevistas e articula passado e presente no estilo factual da entrevistada, e do outro lado, um escritor, com um estilo próprio requintado e percuciente que ele atribui à protagonista. O próprio autor já estabelece diferenças, por exemplo, entre esperança e utopia. A esperança seria diferente da utopia por ser uma expectativa de algo factível enquanto a utopia é uma referência inatingível. Leila Guerriero investiga jornalisticamente uma memória traumática; Frei Betto trabalha a experiência política também como elaboração literária e filosófica, como romancista, memorialista e antigo militante político.
Ao mesmo tempo em que Rosa continua suas leituras, ela é enviada ao sítio de Araras pelo Comitê Central da Resistência para iniciação militar. E encontra Lima, que é o instrutor, um ex-sargento do Exército, considerado quase como um semideus pelos seus e passa a ser treinada, aprofundando sua formação revolucionária, custe o que custar, conforme será visto no final de sua epopeia. Um dia ela é presa. Raul passou para o “lado de lá”. Geraldão, outro instrutor, também é preso.
O tempo da dor é infinito – diz Frei Betto, e Luzia, torturada e estuprada, confessou seu nome verdadeiro, Rosa Maria Brito Tavares, depois do tempo que julgou suficiente para o irmão desaparecer com a Negra, a pistola que Raul lhe havia confiado e que ela havia levado para a casa dos pais. Resumidamente: “E três horas depois das torturas, eles então foram à residência de meus pais e não encontraram armas na minha casa. Daí levaram-me ao quartel da Tijuca. No setor de mulheres eu reconheci Marie, uma companheira, e nós não demos mostras de nos conhecermos. Levaram-me para a enfermaria, porque haviam me dado um tiro no pé, sem que eu tivesse percebido”…
Um flash
“Fui levada para a enfermaria do quartel da Tijuca. Aí, um jovem soldado, um soldado raso, Rodolfo, estava conversando com um colega a respeito do Bar Don Juan, de Antônio Callado. E ele foi extremamente atencioso comigo. Você vê que alguns jovens ainda não tinham passado pela lavagem cerebral. E eu tinha levado um tiro no pé. Infelizmente, acharam a minha carta, que eu havia escrito ao Alexandre, que estava com o Geraldão, para que a entregasse a ele, em Cuba. No segundo dia do hospital, eu tive um pesadelo. Uma locomotiva vermelha que passava apitando a todo vapor e quando chegava próximo de mim, alçava voo, antes de me esmagar. O major Silva, o vice-diretor do quartel, começou a me interrogar. Soube que o companheiro Aníbal e o Tião não haviam traído. Eles estavam ali, na ala reservada aos presos políticos. Aníbal, já quase morto, depois de tanta tortura, havia tentado se suicidar. Nós mulheres éramos consideradas putas comunistas e eles extremistas mafiosos. Retiraram os ossinhos soltos no meu pé e me engessaram. O episódio com o padre Gonçalves foi comovedor, na medida em que, embora do Exército, ele soube me compreender. Fui levada, depois da operação, à piscina para recuperação. E aí o sargento Castro entrou na água comigo e me abusou. Me tocou, afundou minha cabeça na água quando ele ia ejacular e me disse: “Goza, e eu quero ouvi-la gozar.” Era uma besta sádica. Eu era uma não pessoa. Comecei a pensar em suicídio, até que o militar jovem e gentil chamado Rodolfo facilitou a minha vida no sentido de, aos poucos, fazer uma série de agrados e me propor levar bilhetes para a minha casa. E eu escrevi um bilhete para meu irmão Fabrício. De repente, me deram alta e me levaram, depois do tempo em que o gesso reconstruiu o meu osso, até a minha casa”.
Semelhanças
Esse episódio reforça um dos argumentos centrais tanto de Voo da Locomotiva quanto de A Chamada: o heroísmo não consiste em suportar indefinidamente uma dor ilimitada, mas em preservar, enquanto possível, aquilo que ainda pode ser preservado — um companheiro, uma informação, uma esperança ou simplesmente a própria dignidade. E que, mesmo entre os militares a serviço da repressão pode haver o sentido cálido de humanidade, como é o caso de Rodolfo e do padre Gonçalves.
Diferenças
Aqui aparece outra diferença interessante entre os dois livros. Rosa Maria enfatiza muito a dimensão coletiva da resistência: antes der ceder e fazer algumas confissões, calcula o tempo necessário para salvar o irmão não militante e proteger a organização, e só quando, devido à delação de Raul, a casa de seus pais é invadida. Ela é presa de novo e o irmão também é preso e ameaçado de tortura, de modo que ela não vê outra solução para salvá-lo a não ser “entregar” o nome de alguns estudantes da UNE e do IMES não engajados, conhecidos dela da época em que era instrutora, que não tendo precedentes teriam mais chances de serem liberados.
Já Silvia, em A Chamada, concentra-se mais na devastação interior produzida pela tortura e pelos estupros, considerados uma prática normal pela repressão, no “butim de guerra” que passa a ser o seu corpo, como ela o define e, no lento processo de reconstrução de sua identidade. As duas experiências convergem no sofrimento extremo, mas cada vítima ilumina uma face distinta da mesma tragédia histórica.
Traição e reabilitação
Resumindo a fala de Luzia: “Meu irmão foi salvo em troca dessas minhas informações, digamos assim, que acabaram sendo a minha traição. E um militar de serviço, diretor das operações, o comandante Sérgio, um dos que me estupraram um certo dia chega perto de mim, me parabeniza por eu estar me “reabilitando” e me diz:” hoje nós vamos comemorar. É meu aniversário e eu quero estar só eu e você. Levou-me a um sítio, que era de um parente dele, sentou-me à mesa e disse, agora nós vamos tomar champanhe e vamos comemorar o dia do meu aniversário. E foi desviando a arma que ele tinha, a tiracolo, colocando-a em cima da mesa, com meu grande estupor: a arma era a Negra”.
Não vamos relatar o final para não comprometer a surpresa do leitor do livro recém lançado, mas ficamos sabendo que a prisioneira conseguiu chegar até as fronteiras do Brasil com o dinheiro que Sérgio tinha no bolso, passar pelo Uruguai e chegar a Paris com documentos forjados; “graças ao decreto de anistia recíproca, em 1979 e o fim do regime militar, em 1985, me foi possível retornar ao Brasil”.
O sonho recorrente da locomotiva vermelha deixa de ser apenas um pesadelo. Ela aproxima-se para esmagá-la, mas, no instante decisivo, levanta voo. É uma imagem de morte suspensa e de sobrevivência inesperada. Mais tarde, quando reaparece acompanhada do Bolero de Ravel, o símbolo ganha uma dimensão quase mítica: o movimento inexorável da violência e também da resistência, tal como em A chamada o som de Angelita, cantada em espanhol por Nat King Cole que encobria os gritos dos torturados.
O abuso sexual cometido pelo sargento Castro é descrito não apenas como agressão física, mas como aniquilação da pessoa. A observação de Frei Betto – “o estupro não é apenas profanação da carne; é a mais ferina violação do espírito” – desloca o episódio para uma reflexão ética mais ampla sobre a tortura como destruição da subjetividade.
Em termos literários, Frei Betto utiliza um procedimento muito eficaz: alterna cenas extremamente concretas (a cirurgia no pé, a piscina, a mesa com champanhe, a arma sobre a mesa) com símbolos recorrentes (o sonho recorrente em que a locomotiva levanta voo antes de atingir Luzia e o Bolero de Ravel) e considera que o estupro não é apenas profanação da carne, deslocando o episódio para uma reflexão ética mais ampla sobre a tortura como destruição da subjetividade.
Esse tópico também dialoga de maneira muito estreita com A Chamada. Em ambas as obras, a questão central não é descobrir quem traiu, mas compreender o que a tortura faz com uma pessoa e até onde alguém consegue preservar sua dignidade quando todas as alternativas são moralmente devastadoras.
A Chamada
Vamos sintetizar agora alguns momentos de A chamada. Conforme se sabe, no dia 24 de março de 76, dá-se na Argentina o golpe de Estado que instaura a ditadura militar, destinada a durar até 1983. No dia 18 de junho de 76, ou seja, três meses depois, os Montoneros realizam em Buenos Aires uma série de atentados. A repressão começa e é monstruosa e desproporcional. Toda a máquina do Estado passa a servi-la. Há centenas de centros clandestinos onde milhares de militantes de esquerda são sequestrados e torturados. Uma grande quantidade deles é feita desaparecer. Essa política de terrorismo de Estado ultrapassa em muito a lógica do combate aos grupos armados e passa a atingir amplos setores da sociedade.
Por volta do dezembro de 76, o grupo dos Montoneros deixa o país. Há divergências entre os membros e uma reorganização no estrangeiro para uma contraofensiva em 79. Silvia Labayrú vai ser uma das protagonistas dessa história. Ela é filha de Beatriz e Jorge Labayrú, pessoas de classe media alta, sendo que o pai é um militar da aeronáutica de alta patente e a mãe, bonita a ponto de seduzir não se sabe quantos homens. Silvia cresceu em uma família marcada por fortes contradições afetivas. O casamento dos pais era instável, com infidelidades recíprocas, circunstância que certamente contribuiu para um ambiente emocional complexo onde o conceito de lealdade era extremamente lábil.
Estamos em 69 e a Silvia estava estudando no Colégio Nacional de Buenos Aires, uma escola muito politizada, que aderiu à greve decretada pelos sindicatos de Córdoba contra o regime de Juan Carlos Onganía. (A escritura de A chamada é toda ela um recorrer de flashes presente/passado/futuro). Então, os estudantes aderiram à greve, mas Silvia Labayrú e alguns poucos colegas continuaram insistindo para que as aulas continuassem. Uma das moças que faziam parte da classe dela, Irene Scheinberg procurou-a, e começou a explicar-lhe a importância de participar da greve, a importância de participar de movimentos de esquerda. Naquela época, o verbo usado era “melonear”, ou seja, convencer com argumentos. E Silvia se deixou convencer e entrou no Partido Comunista, no setor chamado Federação Juvenil Comunista, e começou a aproximar-se da militância, que é uma forma, digamos, apaixonada de adesão. Não é que tivesse participado de cursos, ou de experimentos, ou de treinos, ou que tivesse algum tipo de preparo como ocorreu com Luzia.
Foi simplesmente uma adesão para não ser diferente dos demais, uma espécie de desafio pessoal e ela não aparece como alguém preparada para a luta armada, mas como uma jovem que vai sendo absorvida por um contexto político extremamente polarizado. Uma vez dentro do esquema, ela não tinha como sair, inclusive porque os seus casos amorosos eram todos com jovens engajados. Bem, era filha de um militar e se sentia segura (o título da obra se deve à “chamada” telefônica, interceptada pelos militares quando Silvia estava presa, em que o pai dela extravasava violentamente seu ódio pelos Montoneros, sendo considerado “dos nossos” pelos interceptadores, e isso fez com que a prisão de Silvia fosse alternada por períodos de liberdade para acudir ao filho recém-nascido, na casa dos pais dela). Ela tinha um namorado chamado Alberto, que havia conhecido em 1974 justamente na unidade básica peronista onde ele militava, durante uma reunião das unidades básicas de Buenos Aires. Daí havia iniciado um relacionamento que haveria de durar vida afora, independente de outros relacionamentos dela. Na primeira vez que ela foi presa, foi logo solta, justamente depois de se verificar que era filha de um militar. Depois, ficou um tempo na casa da avó, a uns 50 quilômetros de Buenos Aires, até esta casa ser objeto de uma irrupção dos militares no janeiro de 1977, às cinco horas da manhã. Por quê? Porque havia uma suspeita de que uma série de jovens que lá se encontravam, pertencessem ao peronismo revolucionário e aos Montoneros. Silvia foi presa de novo, junto com eles. A partir desse momento, a prisão se torna estável e ela é transferida para a Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), um dos principais centros clandestinos de detenção da ditadura.
O Abuso
É justamente nesse período que começa a parte mais complexa do livro: sua permanência na ESMA, os abusos obsessivos perpetrados por alguns oficiais como uma espécie de praxe, o estigma que a acompanharia durante décadas .Ela passa a descrever essa prisão, repetindo, inclusive, que, diferentemente de outras presas como Cuky Carazo que foi sequestrada e mantida presa clandestinamente na mesma ESMA, onde foi submetida a trabalho escravo, mas sobreviveu, ela jamais teria participado de operações que levaria a matar alguém. Guerriero utiliza essas diferentes trajetórias para mostrar que não existia uma única forma de sobreviver à ESMA e que, após a redemocratização, muitas sobreviventes passaram a julgar umas às outras com extrema severidade.
No caso de Silvia, a única “traição” que segundo depoimento recente dela mesma (no youtube) teve consequências teria sido o fato de ela não haver se negado a acompanhar o militar Alfredo Astiz, que se fazia passar por irmão de um desaparecido, a penetrar no âmbito do grupo das Madres de Plaza deMayo. Ela o teria acompanhado no papel de sua irmã, escolhida entre as outras presas por ter olhos azuis iguais ao militar e seria solta em seguida, após sua “colaboração”. (Mas pergunta-se, teria sido possível para ela se negar?) A atuação de Alfredo implicou o sequestro e a morte de duas religiosas francesas Alice Domon e Léonie Duquet, que colaboravam com familiares de desaparecidos, sequestradas em dezembro de 1977, durante a operação contra o chamado grupo da Igreja de Santa Cruz, depois da infiltração do capitão Alfredo Astiz.
Finalmente, em 2014, foi aceita pela justiça argentina a denúncia de Silvia Labayrú e mais duas ex-prisoneiras argentinas contra os abusos sexuais de que foram vítimas durante a ditadura e os principais algozes, Alberto González “el Gato”e Jorge “ el Tigre” Acosta, foram condenados, respectivamente a 20 e 24 anos de prisão.Parte inferior do formulário
Conclusão
Nenhuma das protagonistas procurou convencer o leitor de sua inocência.
Elas procuraram responder a perguntas muito mais difíceis:
Poderia eu ter agido de outro modo? Qual é o limite da responsabilidade sob tortura? Como continuar vivendo depois disso? Como foi possível sobreviver e reconstruir a própria memória?
É justamente nesse ponto que A Chamada e O Voo da Locomotiva deixam de ser apenas relatos sobre as ditaduras argentina e brasileira e passam a constituir profundas reflexões sobre culpa, memória, violência política e sobrevivência moral.





