Dois Papas: elenco sustenta a peça

Dois Papas: elenco sustenta a peça
Créditos: Ale Catan

 

Em uma passagem do seu livro Exercício findo, obra em que fez o balanço da crítica de teatro moderna no Brasil, o crítico Décio de Almeida Prado (1917-2000) explica seu método de análise, nada ortodoxo ou científico e que, no entanto, parecia o adequado para observar não só uma cena teatral em plena formação como também uma tradição crítica que se inaugurava: “O meu esforço crítico, durante a representação e enquanto escrevia, organizava-se com a intenção de entender bem o que os outros falavam, esposando momentaneamente aquele universo de ficção, com as suas leis próprias. Acreditava no destino com os gregos, na Divina Providência com os cristãos, no determinismo com os naturalistas, no materialismo histórico com os marxistas. Conforme os autores ou as escolas, eu via o mundo como um facho de razões luminosas ou uma sombra fugidia, como um enigma ou como uma explicação”.

Essa fé de origem no teatro, chamada por Ana Bernstein de “crítica cúmplice” deveria nos valer até hoje. Nos diz sobre a necessária disposição de empatia do espectador – crítico profissional ou não – diante das proposições artísticas apresentadas em cena. Mas tornou-se também, com o tempo, um instrumento mais complexo, à medida que o próprio teatro diversificou a escolha dos seus temas e os modos de os formalizar. Para ficar em um aspecto que aqui mais interessa, a cena dos anos recentes passou a ter grande e recorrente interesse no documental, criando as bases de gêneros híbridos sob o guarda-chuva dos “teatros do real”. São peças-palestra, narrativas íntimas, painéis sociais, autoficções e outras variações performativas. As interpolações entre documento e criação ficcional têm hoje presença mais que razoável nas temporadas.

Dois Papas, a dramaturgia de Anthony McCarten em cartaz no reinaugurado teatro Cultura Artística, em São Paulo, está em meio a esse processo de eleição dos assuntos e dos modos com que o documental serve de base à cena ficcional atualmente. Não é uma operação simples, pois não se trata, pela natureza da mestiçagem, apenas de promover o arranjo cênico de fontes documentais à luz da liberdade de criação poética. Trata-se também agora, talvez mais que antes, de equilibrar aquela generosa crença de origem à qual se referia o velho Décio, às suas implicações éticas. O enraizamento dos materiais no real, mesmo quando recriado, cobra o seu preço. Já não é apenas uma questão de aceitar a autonomia do espetáculo como um facho autossuficiente de “razões luminosas” ou “sombras fugidias”, com as suas leis próprias. O documento em cena, recriado ou não, fricciona e repõe, nos termos da nossa época, algumas relações caras à estética, entre elas a dimensão política do encontro entre verdade e representação. Nem o documento nem a criação são materiais pacíficos. São escolhas em que a assunção do ponto de vista está particularmente implicada.

 

Dramaturgia esquemática, encenação atenta

A peça  de Anthony McCarten virou roteiro do celebrado filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e tem como núcleo dramático o encontro imaginado entre Joseph Ratzinger, o então papa Bento XVI, e o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, que viria a ser o papa Francisco. Em uma projetada aproximação entre os dois, Bergoglio vai até a Itália reclamar o despacho que lhe garantiria a aposentadoria, depois de uma carreira eclesiástica na qual a popularidade de homem comum e a simpatia atual pela defesa dos empobrecidos não apagam um passado de grande pecado: o alinhamento “involuntário” com a ditadura argentina que vitimara, entre outros, muitos dos seus companheiros de sacerdócio. A omissão, o não enfrentamento do regime sanguinário em nome de uma hipotética pacificação que viria, é um lance de culpa que corrói a consciência. Para ele a saída do cardinalato é um direito, mas é também uma desistência íntima, com o peso do débito.

Na peça, porém, Ratzinger já planejara o seu próprio desembarque do papado. Em um improvável autojulgamento permitido pela imaginação do autor, Bento XVI descobre que não tem vocação para a função, não tem a empatia que se espera de um líder religioso nem o viço necessário para lidar com coisas como escândalos financeiros no Vaticano e todas as outras perturbações da vida mundana – a discussão sobre o celibato, a presença das mulheres na hierarquia da Igreja, os casos de pedofilia envolvendo padres, que se multiplicam mundo afora pelos campos do Senhor. Na versão de McCarten, a renúncia de Bento deve-se então, antes de tudo, à indisposição vocacional de um respeitado acadêmico, de uma vigilante autoridade conservadora, protetora de dogmas, diante de um mundo que, segundo avaliação feita pelo personagem (dificilmente pelo homem real) pede liderança mais conciliadora e mais capaz de intervir nos dilemas contemporâneos. Essa liderança é Bergoglio, que apesar das profundas diferenças de opinião em relação ao primeiro e  quanto ao que deve ser a tarefa dos católicos, é visto por Bento, surpreendentemente, como uma espécie de contra modelo ideal, pronto para corrigir o seu próprio ideário eclesiástico. Pelo que se tenta mostrar, trata-se de um ato de radical abnegação, compreensão e desprendimento.

É uma dramaturgia de efeito, sem riscos e bastante esquemática, na forma e no pensamento. Em suas três didáticas sequências, por vezes a pesquisa histórica parece vazar direto pela boca das personagens, sem mediações senão aquelas que reforçam as oposições entre os dois, algo que lambe o maniqueísmo. De um lado o progressista, afável e popular Bergoglio. Um dançarino de tango, um torcedor de futebol, um homem de Deus que ousou ter uma namorada. De outro, o duro, antiquado Bento XVI, um camarada que não sabe direito nem mesmo que os Beatles e o ABBA existiram.

E funciona. A peça tem efeito e comunicação imediata. Mas a facilidade com que o texto nos alcança deve-se à transmutação dos personagens históricos nestes estereótipos de caráter e comportamento. Há, em contraponto, no alinhavo da trama, o cuidado de apontar aqui e ali “contradições”, seja na lembrança a um ou outro pecadilho pessoal, seja na reflexão sobre faltas mais graves, que vão além do plano íntimo. No entanto, são recursos que parecem mais obedecer ao protocolo da carpintaria teatral, no sentido de criar algum nível de complexidade sem o qual aqueles seres tenderiam totalmente à caricatura. Ao fim, o gosto do autor pelas tipificações sai vencedor e, sim, mantém o conflito dramático bem aceso. É um enfrentamento bom de assistir, apesar da superficialidade.

A encenação de Munir Kanaan é bastante cuidadosa, seja no aspecto plástico, seja na atenção às dinâmicas da cena. Faz a peça funcionar plenamente em mais de duas horas de representação, sem barrigas. Mas a direção parece estar mais preocupada com isso mesmo, com a sustentação do representado. Kanaan não quer briga com o texto. Não há disposição crítica frente à dramaturgia, que ganha extensão no palco orientada sempre pela conciliação reclamada no final do espetáculo. O plano visual, todo em estruturas brancas, é limpo, ascético. Não diz nem sim, nem não. Só é quebrado significativamente para indicar, em projeções ao fundo, a origem humilde do cardeal: uma parede de igreja com pintura e verniz descascando. Tipificações. É uma direção, pode-se dizer, fiel.

 

Ótimo elenco redime peça conservadora

Neste contexto, o de uma encenação sustentada, o espetáculo conta com a garantia de atuações excelentes. Os quatro atores e atrizes do elenco valorizam muito o que lhes é dado a representar. Apesar dos limites da dramaturgia, Carol Godoy (Irmã Sofia) e Eliana Guttman (Irmã Brigitta) trazem “mulheres de Deus” fortes, empáticas na defesa de posições sejam elas ingênuas, justas ou conservadoras. Sem dúvida representam no palco firmemente, além de suas personagens, os papéis que a liturgia católica vem historicamente lhes negando.

A contracena entre Zé Carlos Machado e Celso Frateschi é o filé do espetáculo. São atores veteranos com musculatura mais que suficiente para fugir ao esquematismo do texto, quando podem. Machado dissolve a sisudez de Ratzinger em todos os momentos em que isso pode ser verossímil. Os planos reflexivos e de consciência de Bergoglio são valorizados por Frateschi com desenvoltura admirável. O encontro dos dois certamente deleita o espectador de teatro que, além da ação propriamente dita, costuma suspender-se para, aqui e ali, admirar o ofício da atuação.

No final do espetáculo, Francisco sobe ao ponto mais alto da cena, em contraluz que o reveste com aura santa. Sobe para dizer que é “um pecador”, e que devemos rezar por ele. Naturalmente, é uma confissão e um pedido que vai além do homem, do padre. É um pedido que não sem razão poderia vir da própria Igreja católica. Foi no catolicismo que provamos – especialmente nós, latino-americanos, nas comunidades eclesiais de base, por exemplo –  o compromisso dos homens de Deus com as parcelas mais injustiçadas do povo, com o combate às desigualdades sociais. E foi também no catolicismo que vimos surgir as alianças mais espúrias, injustas e bárbaras entre religião e poder. Nesses termos, Dois Papas é um espetáculo que desvia dos reais motores da história e fantasia a redenção social pela boa vontade de entendimento. Pauta os impasses históricos da sociedade quase que exclusivamente como uma grande discussão moral. Em que pese o seu ótimo rendimento cênico, apenas simula discutir a falência do humano, ao mesmo tempo em que clama por uma conciliação que é indubitavelmente conservadora. É uma cena capaz de agradar as pessoas cordatas, católicas ou não, que sonham com uma paz social em abstrato. E somos muitos. Pois quem haverá de discordar que o mundo pede mais fraternidade e menos cisão?  Entretanto, o espetáculo pedirá maior compreensão dos espectadores que não estão necessariamente ligados à fé como mero lance metafísico ou a desordem do mundo como algo a ser resolvido pela disposição generosa para o perdão.

Aquela fé ontológica no que o teatro oferece, pedida pelos modernos, talvez tenha alcançado, nos dias e circunstâncias atuais, o ponto do paroxismo. Dois Papas é exemplo de espetáculo que talvez esteja nos dizendo que, também quanto à prospecção estética, já não se trata de uma questão de fé e, sim, do enfrentamento das aporias.

 

*Kil Abreu é jornalista e crítico de teatro

 

 

DOIS PAPAS

Teatro Cultura Artística

Rua Nestor Pestana, 196 – Consolação, São Paulo – 662 lugares

De 22 de agosto a 13 de setembro*

Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h.

*Não haverá apresentação no domingo dia 14/9

Preço: De R$ 180 a R$ 50

Duração: 135 minutos (com intervalo de 15 minutos).

Classificação: Livre.

Indicação: 14 anos.

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