A cuspida que rompeu o silêncio

A cuspida que rompeu o silêncio

 

Porém enquanto houver saliva
todo o país está em armas.”
— Marina Tsvetáieva, 1939

Na noite de 17 de abril de 2016, durante a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, eu cuspi na cara de Jair Bolsonaro. O gesto foi meu, mas não fui apenas eu quem cuspiu. Foi meu corpo — marcado por uma infância pobre, por uma história familiar de trabalho duro e ignorado, por um amor queer que desafia a norma, por uma consciência política forjada na resistência — que irrompeu. Mas também foi o inconsciente coletivo: aquele que guarda as dores do Brasil profundo, dos corpos explorados, das vozes caladas, das mulheres silenciadas, dos negros escravizados, dos LGBTQIA+ violentados. A cuspida foi uma irrupção — uma falha no dispositivo da dominação, uma descarga ética contra o espetáculo de hipocrisia, misoginia, racismo e cinismo que se desenrolava diante de mim e do país inteiro naquela sessão farsesca da Câmara.

Ao caminhar de volta do microfone à minha cadeira, depois de declarar meu voto contra o golpe parlamentar, fui alvejado por um insulto homofóbico vindo de Bolsonaro, o mesmo que dedicara seu voto ao torturador de Dilma Rousseff. Era mais um episódio de uma longa série de assédios e violências simbólicas e morais que ele me dirigia desde que entrei no Congresso, e que estão bem documentados no filme Entre os homens de bem (2015). Mas, naquele instante, o insulto atravessou todas as barreiras da contenção racional. Fui tomado por algo mais profundo que o pensamento: uma pulsão, um gesto físico que me escapou. Cuspi. E só me dei conta do que fiz porque o ato foi registrado por câmeras. Não foi planejado. Foi um retorno do recalcado, do reprimido, do que pulsa na carne e na história.

Freud nos ensinou que o inconsciente é o lugar onde se guardam os afetos que não puderam ser elaborados pela consciência — onde o trauma se converte em sintoma, e o recalque retorna travestido de gesto. E Jung foi além, ao propor que há também um inconsciente coletivo: um reservatório comum de imagens, medos, mitos e impulsos que atravessam os sujeitos históricos e fazem emergir arquétipos diante de situações-limite. Minha cuspida foi isso: a fusão do inconsciente pessoal com o inconsciente coletivo, explodindo em um ato que me transcendeu — um gesto simbólico, histórico, político, ético.

Essa ação reaparece em minha obra. Em O que será (Editora Objetiva), descrevo a cuspida como um ato de irrupção do corpo diante da política-espetáculo: “um corpo que reage ao Brasil ancestral”. Em O que não se pode dizer: experiências do exílio (Civilização Brasileira), retomo o gesto como “um grito impossível de quietar, uma resistência material” — porque quando se calam as palavras, é o corpo que fala.

A cuspida foi criticada por muitos. E eu fui violentamente atacado — como já vinha sendo antes. Mas naquela ocasião, quase ninguém saiu em minha defesa. Apenas dois intelectuais públicos se levantaram com coragem: Marcia Tiburi e José Eduardo Agualusa. Marcia escreveu um texto na Revista Cult em que descreve o impeachment como “um espetáculo de ódio e mentira, uma atualização de práticas de linchamento simbólico que definem o fascismo contemporâneo”. Mesmo sem se referir diretamente à cuspida, ela reconheceu o clima insuportável de violência institucional, de performatividade fascista, que justificava atos de resistência. Agualusa, por sua vez, foi direto: publicou no jornal Público, de Portugal, uma crônica intitulada “Por uma ética da cuspidela”, na qual escreveu:

A histórica cuspidela do deputado Jean Wyllys […] soava muitíssimo mais legítima que a original de Eça de Queiroz, não só por causa do alvo, mas porque nesta estava em causa a dignidade de um país inteiro.”

A imprensa brasileira hegemônica — especialmente as Organizações Globo, cujas diretrizes editoriais definiram os contornos narrativos do golpe — silenciou de maneira deliberada. Não disse uma palavra sobre a homofobia de Bolsonaro. O mais grave é que a mesma mídia que alimentou o impeachment com manchetes manipuladas, como parte de um projeto neoliberal de retomada do poder pela via não-eleitoral, hoje se apresenta como defensora da diversidade e da democracia — apagando o papel que desempenhou no acirramento do ódio.

Reagir com o corpo em momentos-limite não é novidade na história política. Em 1798, o deputado norte-americano Matthew Lyon cuspiu no rosto de seu colega Roger Griswold no plenário do Congresso dos EUA, após ser insultado. O episódio gerou escândalo e briga física, mas ficou registrado como exemplo da tensão política levada ao limite — e da cuspida como gesto de recusa. Por outro lado, o pesquisador Jerry Lembcke demonstrou que o mito dos veteranos do Vietnã cuspidos por manifestantes antiguerra nos EUA era uma construção ideológica: não há provas reais desses episódios. É preciso separar o mito da ação concreta e simbólica. E a minha cuspida foi real — e política.

Mais do que um gesto pessoal, ela foi a materialização do que chamo de síndrome de Cassandra. Na mitologia grega, Cassandra foi condenada a prever o futuro sem jamais ser acreditada. Seu dom profético se tornara maldição: anunciar a verdade, mas ser tratada como louca. Minha trajetória política e intelectual — marcada por denúncias precoces do avanço da extrema-direita, da lógica de fake news, da instrumentalização religiosa da política — foi ignorada ou ridicularizada por muitos, inclusive pela esquerda institucional, até que fosse tarde demais. Minha cuspida foi uma profecia corporal, um gesto que dizia: isso não é normal. E ninguém quis ouvir.

Durante a pandemia, esse gesto foi ressignificado. Quando Bolsonaro debochava publicamente dos mortos pela Covid-19 — dizendo, por exemplo, “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, em abril de 2020, quando o país já superava cinco mil mortes por dia — a imagem da cuspida voltou com outra força. Quando, dois meses depois, já com mais de trinta mil mortos, declarou que “lamentava, mas era o destino de todos”, compreendi que meu gesto não foi um exagero, mas uma antecipação moral. Em junho de 2021, o Brasil ultrapassaria meio milhão de mortes, muitas delas evitáveis. E o presidente que zombava da dor nacional era o mesmo a quem eu cuspira anos antes.

Hoje, quase dez anos depois, a indignação que me atravessou naquela noite se tornou coletiva. As redes sociais fervilham com vídeos gerados por inteligência artificial que desmascaram os privilégios da classe política dominante — seus salários obscenos, seus auxílios imorais, seus carros oficiais, suas imunidades seletivas. As hashtags #CONGRESSODAMAMATA e #CONGRESSOINIMIGODOPOVO se espalham como rajadas de nojo. São, no fundo, cuspidelas simbólicas e digitais, dirigidas ao mesmo Parlamento que naquele 17 de abril deu início à destruição do pacto democrático de 1988. Se a minha cuspida foi solitária, hoje ela encontra ressonância em milhares de vozes que aprenderam, talvez tardiamente, a cuspir também — em palavras, imagens, memes e protestos.

Eu não me arrependo. Reafirmo, hoje, a decência daquele gesto. Ele veio do fundo da história. E foi uma reação política à imoralidade institucionalizada. Em tempos de normalização do inaceitável, cuspir pode ser um ato de higiene moral. O silêncio, este sim, é cúmplice da barbárie.

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor de Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc São Paulo), entre outros livros de não-ficção, acaba de lançar o livro de contos O anonimato dos afetos escondidos (Planeta)

 

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