Cuba 8’46’’

Cuba 8’46’’

 

Nos dias posteriores ao fim da guerra de independência, Deus apareceu a Liborio – personagem que simboliza o povo cubano – enquanto este cortava cana. Exausto, descalço e com as mãos ensanguentadas, Liborio lhe conta:

“Já não somos súditos do rei da Espanha. Agora somos livres. […] Mas às vezes me pergunto por que a vida ainda é tão dura”.

Deus lhe explica que “neste mundo nada pode ser perfeito, ou do contrário ninguém iria querer ir para o Céu. O açúcar é doce, mas dá trabalho extraí-lo da terra. O oceano é vasto e generoso, mas tem tempestades súbitas e correntes perigosas que te arrastam e afogam. A própria Cuba é tão bela, a pérola das minhas criaturas, que tive de criar a peste, os mosquitos, os ouriços-do-mar e os espinhos do marabu para que a vida aqui não seja como a do Paraíso”.

E reitera: “Nada pode ser perfeito neste mundo”.

Liborio então se agarra a uma última esperança:

“Mas a liberdade não tem manchas. A liberdade sim é perfeita, não é?”.

“Para isso – lhe responde Deus – criei os ianques”.

O acadêmico e cubanólogo Louis A. Pérez, que adaptou essa “Fábula sem ficção” (do romance de John Sayles Los gusanos), a completa com esta outra metade, da qual extrai a moral: Deus criou os Estados Unidos como uma das grandes nações do mundo, dotada de um poder inimaginável e de uma riqueza nunca antes vista. Mas calculou os perigos dessa soma de poder e de riqueza, e a facilidade com que a complacência poderia transformar-se em arrogância.

Deus queria pregar a humildade, para sublinhar que o exercício do poder, mesmo dentro daquela escala sem precedentes, não carecia de limites. E, com o fim de despertar a cobiça dos norte-americanos, Deus criou uma terra tão bela quanto Cuba e a situou perto da América do Norte, para que parecesse que a tentativa de possuí-la contaria com o beneplácito divino. Mas Deus também concedeu aos cubanos a força moral e a vontade coletiva necessárias para se opor a essa pretensão.

Os norte-americanos não conseguiam entender como eles, que podiam se apoderar de quase qualquer coisa que desejassem, onde quer que estivesse, não podiam ter Cuba. Quanto mais tentavam, tanto mais os cubanos resistiam. Isso se manteve durante quase dois séculos – conclui o acadêmico –, de modo que o empenho norte-americano de se apoderar de Cuba e a determinação cubana de impedi-lo se converteram em parte da idiossincrasia de cada país e em uma espécie de obsessão para ambos.

Quis recordar esta fábula porque ilustra, melhor do que qualquer análise, qual é a verdadeira causa do conflito que opõe a Ilha ao seu poderoso vizinho do norte.

Um ano depois do triunfo da Revolução de 1959, o sociólogo estadunidense C. Wright Mills publicou um pequeno livro de sucesso fulminante tanto em inglês quanto em espanhol (Listen, yankee), cujo narrador, um cubano comum que interpela seu ouvinte norte-americano, se pergunta:

“Nos ajudará a eleição de um novo presidente dos Estados Unidos em 1961?”.

Ao que ele mesmo responde:

“Não parece provável. Seus dois candidatos competiram tanto em ignorância quanto em beligerância em relação a nós. […] O que devemos pensar quando Mr. Nixon fala abertamente em nos pôr de joelhos e Mr. Kennedy ‘adota uma posição firme’ e nos chama de ‘satélite comunista’? […] A única coisa que os Kennedy e os Nixon conseguem ver no mundo é um imaginário cenário militar, e ambos o veem cheios de histeria” (Escucha, yanqui. México: FCE, 2019, p. 47).

Com altos e baixos, com maior ou menor beligerância e matizes de um ou outro tipo, esse panorama se manteve desde então e obrigou os cubanos a viver em um estado de excepcionalidade desgastante.

Após a pax de Obama, com a chegada do primeiro Trump, o antigo e imaginativo entramado do bloqueio estadunidense se enriqueceu até limites impensáveis: durante o seu mandato, as sanções foram se somando umas às outras até ultrapassar as duzentas, isto é, mais de uma por semana em média. Entre elas esteve a inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, o que implica um insaciável assédio econômico e financeiro.

Essa catarata de pressões estimulou – mais do que quaisquer das demais causas, não desprezíveis – uma emigração que se tornou massiva, sobretudo entre os jovens, nos últimos anos.

A ordem executiva assinada pelo presidente norte-americano no passado 29 de janeiro, considerando Cuba uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos, tenta ser o golpe final na Revolução cubana.

Tal ordem (tão ridícula quanto perniciosa) pune qualquer país que exporte combustível para Cuba, o que supõe, na prática, recorrer ao estrangulamento, impedir o funcionamento mais elementar da sociedade e impor uma rendição ou induzir, através da fome e da desesperação, uma explosão social que, nas condições atuais, resultaria funcional – para além da vontade de cada um – à vontade imperial.

Antecipando-se a tais propósitos, e com semelhante desprezo ao que nos primórdios do século passado Teddy Roosevelt exclamara orgulhoso “I took Panama!”, Trump fala com desfaçatez e insolência de “tomar Cuba” e “fazer com ela o que quiser”.

Não é difícil imaginar que anseie conseguir, de um modo perverso e cruel, o que não puderam catorze administrações estadunidenses, incluindo a sua. Seguramente também sonhe em ver, no litoral de havana, grandes hotéis com seu nome estampado em reluzentes letras douradas.

Enquanto isso, políticos e meios influentes de todas as partes se dedicam à tarefa de pensar Cuba a partir da ideia de engano histórico. Movidos pela urgência de desmontar o sentido mesmo da Revolução, recorrem a formulações pertencentes ao campo semântico do absurdo e da derrota, à ideia de que não há emancipação possível por essa via, de que a única opção é entre democracia liberal e totalitarismo.

Esquece-se – por exemplo – o que a Revolução cubana significou em matéria de dignificação, esperanças e melhorias concretas para milhões de pessoas, incluindo sua tenaz luta de décadas pelas reivindicações do Terceiro Mundo.

Ignora-se o fato de que alcançou indicadores de saúde e desenvolvimento humano mais avançados, inclusive, que os de alguns países ricos, e de que formou uma população educada e centenas de milhares de profissionais e técnicos, tanto cubanos quanto estrangeiros que estudaram gratuitamente na Ilha.

Pretende-se apagar seu fomento à cultura e o acesso massivo a ela, assim como o orgulho de ter sido uma potência olímpica.

Aspira-se a diluir na memória sua incansável vocação solidária, incluindo a decisiva participação – que tantas vidas cubanas custou – na independência de Angola e Namíbia, e na derrota do apartheid na África do Sul; assim como o envio de pessoal de saúde a meio mundo, e a capacidade – graças ao desenvolvimento biotecnológico alcançado – de imunizar seus cidadãos contra a Covid-19 com vacinas próprias.

Apesar desses exemplos, o certo é que Cuba nunca pôde construir a Revolução que quis, mas sim a que pôde, tanto pelas pressões externas quanto por limitações próprias. E no caminho teve de renunciar a boa parte dos sonhos.

É fácil, portanto, descrever os inúmeros problemas e carências da sociedade cubana, os vícios e demandas insatisfeitas que se misturam com tropeços, dogmatismos e problemas estruturais, o desgaste natural e a fadiga que acompanham a burocracia, o verticalismo e arbitrariedades de diversos tipos.

Mas convém recordar que nenhum desses males está associado à rendição da soberania diante do capital, à desnutrição e aos despejos, à injustiça social e à humilhação dos humildes, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado; e muito menos a torturas, desaparecimentos forçados e execuções extrajudiciais, tão comuns na história latino-americana.

Por ora, Trump e seu sinistro secretário de Estado acreditam ter encontrado a Solução Final para Cuba. Não se trata desta vez de um bombardeio pontual, assassinatos seletivos e o sequestro de um presidente, como na Venezuela; tampouco de uma guerra aberta, como no Irã.

Para Cuba escolheram, levada à dimensão nacional, a Fórmula Derek Chauvin, isto é, aquela posta em prática pelo policial de Mineápolis obstinado em pressionar com seu joelho o pescoço de um homem algemado no chão.

Confortável em sua incômoda postura, Chauvin sabia que dispunha de todo o tempo do mundo. A George Floyd, em contrapartida, bastaram 8 minutos e 46 segundos para morrer asfixiado.

Como a Floyd, a Cuba se reserva a variante de privá-la de qualquer entrada de oxigênio, justamente quando parece, mais uma vez, ter ficado sozinha. Esse é o altíssimo preço que se tenta cobrar da Ilha por ter se atrevido a desafiar a ordem vigente, oferecer uma alternativa e sustentar o olhar diante dos donos do mundo durante quase sete décadas.

Precisamente em Cuba, em 1898, os Estados Unidos emergiram como potência mundial. O “século americano” começou com a derrota das tropas espanholas, às quais os cubanos haviam enfrentado ao longo de trinta anos apenas para ver como, em uma guerra relâmpago, o exército norte-americano se apropriou da vitória.

Está-se por ver qual papel voltará a caber ao império, agora em declínio, em sua nova e pretendida aventura na Ilha.

Quanto a Cuba, diante do pior (ainda que não impossível) dos cenários, vale a pena recordar algo que expressava o poeta Roberto Fernández Retamar em 1991, quando para os cubanos o panorama, após o desaparecimento da União Soviética, não poderia ser mais sombrio.

Ele recordava muitos dos grandes derrotados da história e afirmava que não havia razão para acreditar que nosso projeto necessariamente teria de vencer, e que, de fato, “uma das coisas belas que ele tem […] é que parece ter quase todas as chances de perder”.

Mas “subir no carro dos ianques porque ‘inevitavelmente vão ganhar’”, concluía, “é uma meta repugnante que seria razão suficiente para que eu não subisse nesse carro”.

O fato é que o processo cubano sobreviveu àquele duro momento. E, embora a história possa nos reservar um futuro imediato não menos sombrio, ela não se encerrará após os hipotéticos 8 minutos e 46 segundos aos quais querem nos condenar.

Não se deve esquecer que, se é verdade que Deus criou os ianques para que os cubanos conhecessem os limites da liberdade, também é verdade que decidiu criar estes para que aqueles conhecessem os limites de sua prepotência.

Havana, 18 de março de 2026

P.S. Escrevo entre apagões que podem durar, nesta privilegiada capital dentro do contexto cubano, doze horas diárias, como parte de uma angustiante cotidianidade que passou a fazer parte de nossas vidas.

Mais ainda: na semana passada, em meio a uma intervenção cirúrgica à qual fui submetido, pude viver o momento em que o hospital ficou às escuras. Os cirurgiões nem sequer se alteraram; seguiram adiante com a pouca iluminação que se filtrava através da porta de vidro.

O jovem anestesista tirou o celular do bolso e dirigiu a luz ao meu abdômen durante o tempo que levou para que o gerador do hospital entrasse em funcionamento.

Hoje tive a primeira consulta pós-operatória. O médico me encontrou muito bem.

Jorge Fornet (Cuba, 1963) é diretor da Revista Casa de las Américas e da Academia Cubana de Línguas. É membro do Conselho Consultivo da Fundação Darcy Ribeiro e autor de uma dezena de livros, focados principalmente em história intelectual e literatura contemporânea latino-americana.

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