Chega de subestimar as direitas

Chega de subestimar as direitas

Manifestação na av. Paulista, em São Paulo, no dia 13 de março de 2016 (Foto: Dario Oliveira/Estadão Conteúdo)

Nosso desprezo bem-humorado não foi capaz de tornar esses setores menos expressivos e, na verdade, os tem feito cada vez maiores

Definitivamente, é preciso deixar de subestimar as direitas. Nos últimos tempos, um dos maiores erros do campo das esquerdas tem sido não tratar, com a merecida seriedade e atenção, alguns acontecimentos políticos aparentemente banais e inofensivos.

Afinal, que risco para nossa “hegemonia” existiria em uma “doida” que não sabe sequer a diferença entre a bandeira do Japão e os símbolos do comunismo? Que ameaça poderia haver em “meia dúzia” pedindo a volta da ditadura aqui ou naqueles poucos “gatos pingados” clamando Bolsonaro presidente ali? Que perigo representariam umas dezenas de pessoas aplaudindo as performances de Janaína Paschoal pelo impeachment ou ainda aqueles “lunáticos” que não votam nos Estados Unidos organizando ato pró-Trump no Brasil? Ou então como levar a sério um promotor que chama Simone de Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”?

Os exemplos análogos, nos últimos dois anos, abundam. Mas, diante de todos esses casos, nós mais rimos do que refletimos sobre o que se passava. Compartilhamos memes hilários, vídeos engraçados, gifs criativos e outras tantas formas de exposição da “mediocridade deles” que as tecnologias nos têm oferecido para nossa diversão, ao mesmo tempo em que nos desorganizávamos cada vez mais.

No fundo, caricaturamos essas personagens da direita para diminuí-las, como se portassem apenas alucinações sem sentido e estivessem fadadas ao isolamento, longe de qualquer força social e, portanto, destituídas de expressão política.

É evidente que a caracterização política do adversário é um momento necessário e até fundamental da luta por convencimento. E os rótulos, muitas vezes e quando bem usados, carregam grande dose de correspondência com a realidade e fortalecem projetos de hegemonia. Além disso, rotular, sem qualquer sentido pejorativo, um “outro” nos unifica e nos confere certa “identidade política” tão difícil nesses tempos de fragmentação das esquerdas e que, aparentemente, perdemos pelo caminho.

Nesse contexto de recrudescimento crescente da polarização do espectro político, fomos tachados de “petralhas corruptos” e, automaticamente, retrucamos com o apelido de “coxinhas”. Isso funcionou para dividir a sociedade. E traçar linhas no chão com o objetivo de evidenciar diferenças não é, em si, um problema; o problema é quando tensionamos uma divisão sem estratégia e sem a mínima possibilidade de constituirmos uma maioria com toda a diversidade interna ao nosso campo.

Acabamos nos isolando a nós mesmos. Nesse cenário, as direitas nem precisaram fazer muito esforço. Apenas capitalizaram em cima dos nossos erros e surfaram nas condições adversas dessa difícil conjuntura.

Assim, o que parecia despretensioso e descontraído, foi nos anestesiando e acabou se tornando a tônica das nossas análises e intervenções políticas. O problema aí foi reduzir nosso olhar sobre tais fenômenos à tentação de ridicularizá-los. Essa postura prepotente e um tanto escapista tem sido um duro sintoma de nossas sucessivas derrotas e a defesa que nos restava diante daquilo com que não estamos sabendo lidar.

Nosso desprezo bem-humorado não foi capaz de tornar esses setores menos expressivos e, na verdade, os tem feito cada vez maiores. Achamos que Dilma nunca seria afastada e ela foi defenestrada do cargo; pensamos que Trump nunca ganharia a presidência dos EUA e ele ganhou; sabíamos que Haddad teria dificuldade eleitoral, mas nunca pensamos em uma derrota retumbante de primeiro turno; isso sem falar em Brexit, as iminentes eleições francesas, o movimento “Escola Sem Partido” e o combate à “ideologia de gênero” e outras tantas tragédias do passado que nos esperam no futuro próximo.

Esses acontecimentos estão atravessados por traços comuns que não podem ser desprezados quando lidos em conjunto. É evidente que há diversas outras razões para a ascensão conservadora em diversas partes do mundo e também no Brasil, mas já passou da hora de superarmos essa mania obsessiva das esquerdas em fundar sua superioridade no campo moral e achar, por isso, que a história há de nos dar razão. Além disso, não se pode tomar qualquer crítica como manifestação do “fascismo” das direitas. Há críticas razoáveis e importantes que precisam ser ouvidas.

Não basta estar na zona de conforto e de certeza segura de que estamos do lado certo. É preciso repensar como nos organizar e agir politicamente para alcançarmos mais gente, com mais radicalidade e, ao mesmo tempo, com mais diálogo.

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