Ella Fitzgerald, a mais versátil das cantoras

Ella Fitzgerald, a mais versátil das cantoras
Ella Fitzgerald, em 1960 (Foto: NBC/Getty Archive)

 

Quando foi se apresentar no Copacabana Palace, em abril de 1960, Ella Fitzgerald estava nervosa. Tão nervosa que não parava de tremer e suar. Mesmo depois de 25 anos de carreira e de já ser conhecida como a Primeira Dama do Jazz, a cantora ainda conservava uma velha timidez e sofria com uma insegurança enorme que vinha do fato de achar-se feia. Mas, como sempre fazia, respirou fundo, engoliu seco e subiu no palco – o único lugar em que, de fato, se sentia à vontade.

É o que conta o musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello, que conviveu com a artista em sua equipe de som e como seu intérprete em um dos shows que fez no Rio de Janeiro. Ele se lembra muito bem de Ella Fitzgerald: mulher tímida, durona, de origem pobre, fora dos padrões de beleza – e dona de uma voz que jamais se ouviu igual.

Em 59 anos de palco, Ella construiu uma carreira de sucesso ao lado de grandes nomes da música, como Louis Armstrong, Frank Sinatra e até Tom Jobim. “Ella foi uma das primeiras mulheres, senão a primeira, a se colocar entre os maiores nomes do bebop, como John Coltrane e Charlie Parker. Ela praticamente inventou o scat singing, ou seja, usar a voz como um instrumento”, lembra Euclides Marques, músico e curador do Vinilcultura, do Espaço Cultural Uirapuru, em São Paulo, que fará um evento sobre Ella Fitzgerald na próxima quinta (27), com participação de Zuza.

Marques não pensaria duas vezes antes de colocar a Primeira Dama do Jazz como a maior voz de todos os tempos – “e em segundo lugar, Billie Holiday”, brinca. Isso porque, sem dificuldade alguma, Ella conseguia transitar entre os diversos estilos do jazz, fossem as baladas românticas, fosse o bebop, fossem os improvisos em scat singing ou as big bands.

“Era a mais versátil de todas as cantoras. Nenhuma fazia o que ela era capaz de fazer com a voz”, conta Zuza. A versatilidade combinava-se à sua voz espantosa: Fitzgerald tinha uma extensão vocal que abrangia três oitavas, o que significa que ela conseguia ir do agudo ao grave com extrema facilidade. Ao todo, Ella foi premiada com 14 Grammys e recebeu duas medalhas de honra nos Estados Unidos: a Medalha Nacional das Artes e a Medalha Presidencial da Liberdade.

Frank Sinatra e Ella Fitzgerald no The Frank Sinatra Show (Foto: Reprodução)
Com Frank Sinatra no The Frank Sinatra Show, em 1958 (Foto: Reprodução)

Primeira vez da Primeira Dama

Aos 17 anos, Ella se inscreveu em uma competição amadora de canto e dança no teatro Apollo, no Harlem, onde pretendia fazer um número de dança. De última hora, porém, a garota resolveu cantar Judy, de Connee Boswell, e The Object of My Affection, das Boswell Sisters – e foi ali, no salão lotado do teatro Apollo, em 1934, que surgiu a Primeira Dama do Jazz.

A performance foi tão admirada que, poucos meses depois, a jovem foi rapidamente convidada a participar da big band de Tiny Bradshaw, na Harlem Opera House, onde conheceu o baterista Chick Webb, que a roubou para sua própria banda – ainda que a considerasse mal cuidada e até feia, “um diamante bruto”, como ele mesmo diria em uma entrevista ao New York Times. “Se fosse hoje em dia, Ella não teria muita oportunidade. Hoje, infelizmente, só se valoriza a beleza, e não a voz das cantoras”, pontua Zuza.

Com essa banda, Ella gravou seus primeiros singles e começou a se tornar conhecida nos Estados Unidos. Quando Webb morreu, em 1939, a cantora ocupou seu lugar e a banda se tornou a Ella Fitzgerald and her Famous Orchestra. Mesmo assim, por ser negra em tempos de racismo intenso, Ella enfrentou muitos problemas, como lembra Marques: “Certa vez, caminhando pelas ruas de Nova York, a jovem cantora ouviu seu primeiro LP sendo tocado em um estabelecimento. Mas, ao tentar entrar, foi barrada por ser negra”. Ella, no entanto, vivia para a música e, segundo Zuza, tentava não se focar muito na questão racial: “Lembro de uma entrevista no Brasil em que os jornalistas queriam desviar o assunto para acontecimentos racistas nos Estados Unidos, mas a cantora ficou brava e disse que tinha vindo falar de música, não de política”.

A atriz Marylin Monroe e a cantora Ella Fitzgerald conversando no Club Tiffanny em Hollywood. (Foto: Bettmann/Corbis)
Com Marylin Monroe no Club Tiffanny, em Hollywood (Foto: Bettmann/Corbis)

A gravadora Decca e a invenção do scat

Foi só em 1942 que Ella resolveu tentar uma carreira solo, quando foi contratada pela gravadora Decca – na qual gravou seus primeiros álbuns, já que, até então, só havia gravado singles. A decisão foi certeira: justamente nos anos 1940, o swing e as big bands estavam sendo pouco a pouco substituídos pelo bebop, um jazz mais rápido, fluido e improvisado, em geral com menos músicos no palco.

Neste contexto de mudanças, influenciada por músicos mestres do improviso como Charlie Parker e Dizzy Gillespie, Ella começou a deixar as letras de lado e a imitar os sons que os instrumentos da banda faziam, transformando a própria voz em um instrumento de sopro – era o scat singing, uma de suas marcas registradas. Embora a técnica seja famosa na voz de Louis Armstrong, muitos críticos musicais apontam Ella como a pioneira do scat, por sua genialidade na hora de escolher os sons no improviso.

Em 1955, a Primeira Dama saiu da Decca para trabalhar em uma gravadora criada em torno dela por seu empresário, Norman Granz: a Verve Records. Foi com a Verve, e por incentivo de Granz, que Ella pôs em prática seus lendários songbooks, coletâneas em que interpretava canções de Cole Porter, Duke Ellington, Harold Arlen e outros grandes compositores do cânone cultural americano conhecido como Great American Songbook.

Zuza lembra que seu sucesso na época era tão grande que bastava a cantora subir no palco para ser aplaudida: “O songbook de Duke Ellington foi lançado no Carnegie Hall, em 1958. Eu estava lá e vi algo que nunca havia visto: uma cantora ser ovacionada antes do show”. Nos anos 1960, então chegando às três décadas de idade, Ella já era uma cantora milionária e mundialmente famosa, com turnês que chegaram até o Brasil.

A queda

Pouco depois do auge, a Verve foi vendida para a MGM, que acabou não renovando o contrato de Ella. Mas a cantora não parou por aí, e nem estacionou nos songbooks: seguiu firme com álbuns diferentes daquilo a que estava acostumada, cantando até canções natalinas. Na década de 1970, ela passaria pela Pablo Records, outra gravadora de Granz, onde ficaria em seus anos finais e produziria suas últimas gravações. Pouco depois, Ella gravou um disco com Tom Jobim, Ella abraça Jobim, no qual arrisca um português misturado: “Nas apresentações, ela dizia que ia cantar metade em português, metade na ‘língua de Ella’”, recorda Marques.

A única coisa capaz de diminuir a velocidade com que Ella se adaptava às constantes mudanças do jazz foi a diabetes. Aos poucos, a Dama foi perdendo a visão, e, em 1993 – dois anos depois de sua última gravação em estúdio -, teve as duas pernas amputadas. “Ainda assim, ela chegou a cantar: seus últimos shows foram no mesmo ano da amputação. Mas a voz já não tinha o brilho de antes”, lembra Zuza.

Depois de sua morte, em 1996, todo o material dos seus 59 anos de carreira foi arquivado no Museu Nacional de História Americana; as partituras de seus discos, colocadas em segurança na Biblioteca Schoenberg, na Universidade UCLA; e seus arranjos musicais de suas canções foram guardados na Biblioteca do Congresso Americano.

Para Marques, genialidade resume a trajetória de Ella: “Negra, mulher, gorda e não exatamente bonita. Tinha que ser muito craque, muito boa, muito genial, para vencer em uma época daquelas. Ella era muita coisa em termos de música. E foi assim que ela venceu”.

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