Celebração da identidade e autocomemoração

Celebração da identidade e autocomemoração
Silvia Machado

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Os espetáculos que integram a 11ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) que até agora foram alvos de apreciação crítica por parte desta coluna tiveram como principal linha de força a exploração de experiências de autoficção: o relato enervado do escritor francês Édouard Louis a respeito de uma violência sofrida, narrado em âmbito sociobiográfico; as memórias pessoais de dois atores ainda jovens e o modo como eles as relacionam ludicamente com uma obra canônica no meio teatral, A gaivota, de Anton Tchekhov; a experiência pessoal de um intérprete com a limitação física e com a dor, recriada em cena a partir de uma imprevista (e franca) interlocução com o universo trágico retratado por Sófocles em Filoctetes

Gênero bastante aderido aos tempos contemporâneos, que assistem àquilo que o professor Alfredo Bosi chamou de exacerbação da singularidade, a autoficção convida artistas e escritores a se lançarem à complexa empreitada da escrita de si e à busca concomitante da intersecção entre o Eu que (se) narra e o Outro a quem este Eu se dirige, seja esse Outro quem for – um antagonista particular, as tramas sociais e políticas mais amplas ou a universalidade da existência. O risco, claro, é o de essa densa urdidura psíquica e social não ser tecida a contento, gerando somente, seja no palco, seja nas páginas de um livro, o modorrento desenrolar de um fio de Narciso (do fio de um Narciso?).

Dentre os jovens autores a serem celebrados no âmbito da literatura de autoficção estrangeira encontra-se o de Édouard Louis, escritor francês que se tornou um fenômeno editorial no Brasil a partir de 2024, ano em que participou da Festa Literária de Paraty (Flip) e concedeu uma entrevista bastante densa ao programa Roda Viva da TV Cultura. Partindo de suas memórias pessoais – as de um jovem nascido em Hallencourt, cidade operária no norte na França –, Louis narra e ao mesmo tempo analisa as desigualdades sociais, a pobreza, a homofobia e as insidiosas formas de violência que sofrem as populações desassistidas na França (e, por extensão, em toda a Europa). Por isso, foi motivo de celebração a participação dele na MITsp deste ano, uma vez que a Mostra tem reunido já há uma década artistas, pensadores, curadores e toda uma ampla gama de profissionais do teatro que se posicionam à esquerda do espectro político, fortemente comprometidos em fomentar os mais variados exercícios estéticos que possam pôr em questão os mecanismos da opressão política e econômica exercida pelo neoliberalismo digital que nos enredam diariamente. Duas das obras de Édouard Louis serviram de base a, respectivamente, dois espetáculos que integram a MITsp neste ano: História da violência (já devidamente examinado pela coluna) e Quem matou meu pai, cada um deles a seu modo chegando a resultados no palco muito diferentes.

Partindo dos excertos estampados na orelha e na quarta capa da edição do livro lançado aqui em 2018 pela Editora Todavia, somos convidados a demonstrar uma sincera simpatia por uma obra que relata poeticamente “as várias formas com que o preconceito social, a homofobia e a pobreza podem matar um homem”, que constitui também “um grito profundamente emotivo contra [a] casta privilegiada de políticos” e que, por fim, se transforma em “uma ode contra a brutalidade e as injustiças de classe”.

Tais empenhos éticos e políticos, entretanto, não garantem, a nosso ver, o êxito da transposição da obra para o palco. Ninguém haverá de discordar da contundência da narração em primeira pessoa de uma história dolorosa que é próxima de muitos de nós também e da seriedade de um escritor que tem dado declarações consistentes e produzido livros que são um verdadeiro antídoto contra o cinismo e a brutalidade circundantes. Entretanto, a arte do teatro parece solicitar um pouco mais do que a empatia por uma causa ou uma pessoa.

Como um espetáculo de teatro inscrito nas malhas estéticas e políticas da MITsp – dispostas sempre a articular exercícios que combatam as formas hegemônicas de vida e a propor, por sua vez, formas outras, prenhes de futuro –, a performance de Édouard Louis é de uma previsibilidade frustrante. Estão lá no palco uma história de abandono e solidão (acentuada por uma trilha sonora, ora dramática, ora envolvente e descartável como um hit); o recurso à dublagem estereotipada de canções icônicas do universo gay; o microfone-símbolo do teatro épico, que, pelo uso reiterado na cena contemporânea, vira somente um objeto-fetiche, destituído de pregnância crítica; uma dramaturgia que é pura dependência do livro, incapaz de tornar o palco um espaço tridimensional de fato…

O ponto de virada no livro soa bastante interessante no palco (quando o intérprete começa a dar “nome aos bois”, respondendo, então, à pergunta implícita no título da obra e sobrepondo a cada nome enunciado com ênfase uma perífrase de forte carga emocional), mas, ainda que leve à plateia a um estado catártico (há um eco da técnica do agitprop agindo aí), do pondo de vista eminentemente político, é inofensivo. (Impossível não pensar no que faremos com toda essa ardência e indignação, caso o candidato da extrema-direita no Brasil continue a crescer, ganhando até, talvez, as eleições democráticas no país no fim do ano).

Por fim, há que se pensar no risco talvez maior da empreitada. Deixando de ser o autor implícito nas páginas de um livro e ganhando corporeidade física em um palco diante de nós (sobre o qual demonstra desenvoltura, sim, mas limitada pelo ator que não é), Édouard Louis deixa de promover a cultura da memória e da identidade – tão cara em sua literatura – para virar ele próprio um acontecimento, que inclui, problematicamente, sua autocomemoração (assistida pela plateia, que, eufórica, o aplaude em cena aberta duas ou três vezes). Se em Quem matou meu pai, o livro, há a rememoração de um trauma cuja função primeira é abalar o leitor; em Quem matou meu pai, a peça, há a preponderância daquilo a que François Hartog, em sua análise sobre o conceito de acontecimento nos dias que correm, chamou de efeméride – que, na avalição do historiador francês, tem duas características básicas: ser festiva e vazia.

QUEM MATOU MEU PAI
Texto e atuação: Édouard Louis
Direção: Thomas Ostermeier
Vídeo: Sébastien Dupouey, Marie Sanchez
Cenografia: Nina Wetzel
Composição: Sylvain Jacques
Dramaturgismo: Florian Borchmeyer, Elisa Leroy
Iluminação: Erich Schneider


CÉLÉBRATION DE L’IDENTITÉ ET AUTO-CÉLÉBRATION

Welington Andrade

Version française par Thaïs Chauvel*

Les spectacles de la 11 édition de la Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) qui, jusqu’à présent, ont fait l’objet d’une appréciation critique dans cette chronique ont eu pour principale ligne de force l’exploration d’expériences d’autofiction : le récit percutant de l’écrivain français Édouard Louis au sujet d’une violence subie, raconté dans une perspective sociobiographique ; les souvenirs personnels de deux acteurs jeunes encore et la manière dont ils les relient, de façon ludique, à une œuvre canonique du milieu théâtral, La Mouette, d’Anton Tchekhov ; l’expérience personnelle d’un interprète confornté à une limitation physique et à la douleur, recréée sur scène à partir d’un dialogue imprévu (et franc) avec l’univers tragique représenté par Sophocle dans Philoctète

Genre bien ancré dans les temps contemporains, qui voient se déployer ce que le professeur Alfredo Bosi a nommé une exacerbation de la singularité, l’autofiction invite des artistes et écrivains à se lancer dans l’entreprise complexe de l’écriture de soi, tout en cherchant simultanément l’intersection entre le Moi qui (se) raconte et l’Autre auquel ce Moi s’adresse, quel qu’il soit – un antagoniste particulier, les trames sociales et politiques plus vastes ou encore l’universalité de l’existence. Le risque, bien sûr, c’est que cette dense trame psychique et sociale ne se tisse pas de façom convaicante, ne produisant ainsi, que ce soit sur scène ou dans les pages d’un livre, que le morne déroulement d’un fil de Narcisse (du fil d’un Narcisse ?).

Parmi les jeunes auteurs à célébrer dans le domaine de la littérature autofictionnelle étrangère figure Édouard Louis, écrivain français devenu un véritable phénomène éditorial au Brésil à partir de 2024, année où il a participé à la Fête Littéraire Internationale de Paraty (Flip) et accordé un entretien particulièrement dense à l’émission Roda Viva de TV Cultura. Partant de ses souvenirs personnels – ceux d’un jeune homme né à Hallencourt, ville ouvrière du nord de la France –, Louis raconte, tout en les analysant, les inégalités sociales, la pauvreté, l’homophobie et les formes insidieuses de violence subies par les populations démunies en France (et, par extension, dans toute l’Europe).

Raison pour laquelle sa participation à la MITsp de cette année est aussi célébrée, puisque la Mostra réunit depuis une décennie déjà des artistes, des penseurs, des curateurs ainsi que toute une gamme de professionnels du théâtre qui se situent à gauche de l’échiquier politique, fortement engagés dans la promotion des plus divers exercices esthétiques qui puissent remettre en question les mécanismes de l’oppression politique et économique exercée par le néolibéralisme numérique qui nous enserre quotidiennement. Deux des œuvres d’Édouard Louis servent de base à deux spectacles présentés à la MITsp cette année : Histoire de la violence (déjà examiné dans cette chronique) et Qui a tué mon père, obtenant tous deux, chacun à sa façon, des résultats bien différents.

À partir des extraits reproduits sur le rabat et la quatrième de couverture du livre publié, ici, par la maison d’édition Todavia en 2018, nous sommes d’emblée invités à éprouver une sympathie sincère pour une œuvre qui rapporte poétiquement « les différentes formes à travers lesquelles le préjugé social, l’homophobie et la pauvreté peuvent tuer un homme », qui constitue aussi « un cri profondément ému contre [la] caste privilégiée des politiciens » et qui, enfin, se transforme en « une ode contre la brutalité et les injustices de classe ».

Ces engagements éthiques et politiques ne garantissent cependant pas, à notre avis, la réussite de la transposition de l’œuvre sur scène. Personne ne contestera la force de la narration à la première personne d’une histoire douloureuse qui est proche et familière pour beaucoup d’entre nous, ni le sérieux d’un écrivain qui donne des déclarations cohérentes et produit des livres constituant un véritable antidote contre le cynisme et la brutalité qui nous entourent. Toutefois, l’art du théâtre semble exiger un peu plus que de l’empathie pour une cause ou pour une personne.

En tant que spectacle qui s’inscrit dans les fils esthétiques et politiques de la MITsp – toujours disposés à articuler des expériences qui combattent les formes hégémoniques de vie et à proposer, en retour, d’autres formes, porteuses d’avenir –, la performance d’Édouard Louis se révèle d’une frustrante prévisibilité. On trouve là, sur scène, une histoire d’abandon et de solitude (accentuée par une bande sonore tantôt dramatique, tantôt aussi enveloppante et éphémère qu’un tube) ; le recours au doublage stéréotypé de chansons iconiques de l’univers gay ; le microphone-symbole du théâtre épique qui, à force d’être utilisé dans la scène contemporaine, devient un simple objet-fétiche, dépourvu de toute force critique ; une dramaturgie qui est purement dépendante du livre, incapable de rendre le plateau un espace véritablement tridimensionnel…

Le point de bascule du livre est plutôt intéressant sur scène (lorsque l’interprète commence à « appeler les choses par leur nom », répondant ainsi à la question implicite contenue dans le titre de l’œuvre et superposant à chaque nom énoncé avec emphase une périphrase imrpégnée d’une forte charge émotionnelle) ; mais, s’il conduit le public à un état cathartique – on y perçoit l’écho de la technique de l’agit-prop –, du point de vue proprement politique, c’est inoffensif. (Impossible de ne pas se demander ce que nous ferons de toute cette ardeur et de toute cette indignation si le candidat de l’extrême droite au Brésil continue de progresser, allant peut-être jusqu’à remporter les élections démocratiques à la fin de l’année.)

Il faut réfléchir, enfin, au risque plus encore grand que comporte cet entreprise. Cessant d’être l’auteur implicite des pages d’un livre pour prendre une corporéité physique sur le plateau face à nous (où il fait, certes, preuve d’aisance, limitée, toutefois, par l’acteur qu’il n’est pas), Édouard Louis cesse de promouvoir la culture de la mémoire et de l’identité – si chère à son œuvre – pour devenir lui-même un événement, qui inclut, de façon problématique, sa propre autocélébration (encouragée par le public qui, euphorique, l’applaudit deux ou trois fois sur scène). Si, dans Qui a tué mon père, le livre, il y a la remémoration d’un traumatisme dont le but premier est ébranler le lecteur ; dans Qui a tué mon père, la pièce, on retrouve ce que François Hartog, dans son analyse du concept d’événement à l’époque contemporaine, a appelé l’« éphéméride » – qui possède, d’après l’historien français, deux caractéristiques fondamentales : être festive et vide.

QUI A TUÉ MON PÈRE
Texte et interprétation : Édouard Louis
Mise en scène : Thomas Ostermeier
Vidéo : Sébastien Dupouey, Marie Sanchez
Scénographie : Nina Wetzel
Composition musicale : Sylvain Jacques
Dramaturgie : Florian Borchmeyer, Elisa Leroy
Lumière : Erich Schneider

*Thaïs Chauvel é franco-brasileira, possui mestrado e doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo e atua há quinze anos como professora de língua e literatura francesa.

*Thaïs Chauvel est franco-brésilienne. Elle est titulaire d’un master et d’un doctorat en lettres de l’Universidade de São Paulo et enseigne la langue et la littérature françaises depuis quinze ans.

Welington Andrade est titulaire d’une licence en arts de la scène de l’Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, d’un master et d’un doctorat en littérature brésilienne de l’Universidade de São Paulo, et professeur à la Faculdade Cásper Líbero.

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