Carta ao pai – Denise Stoklos

Carta ao pai – Denise Stoklos
Sérgio Pardal em “O filho” (Foto: José Cardoso)

Quem puder, assista Carta ao Pai, nova peça de Denise Stoklos que está no SESC Consolação em SP.

 

Assisti ontem e recomendo que assistam, por todos os motivos. Denise Stoklos é uma artista inacreditável como performer, como diretora de seus próprios processos, como idealizadora de seus próprios trabalhos. Denise é uma usina de ideias corporificadas. Toda ideia de Denise é um corpo que ocupa lugar no espaço. Por isso, vê-la no palco traduz-se em êxtase: passa-se à outra ordem de existência, aquela da arte, aquela da transcendência, que é, ao mesmo tempo, um choque com o real. Cai-se dentro do real; finalmente descortinado, ele é sonho.

Fac-símile de Carta Ao Pai

Em sua nova peça Carta ao Pai, Stoklos e seu “teatro essencial” mostram-se, mais uma vez, como “tudo”: particular e geral, singular e universal, começo e fim, horizontal e vertical.  A experiência da peça é algo como falta com plenitude, prazer com dor, feio com belo, horror com gozo, pensamento com corpo. Tudo está ali: literatura, filosofia, psicanálise, teatro, dança, desenho, palavra e silêncio. Pode parecer abstrato o que eu digo, mas é assim que vi a peça. Assim que vi o mundo de Kafka pelas lentes de Stoklos.

A peça é surpreendente (poderia ser diferente?). Eu teria vontade de contar até o fim, mas há os prazeres do inusitado que fazem bem à percepção.

Para vê-la não é preciso ter lido A Carta ao Pai de Franz Kafka. Necessário apenas, estar de ouvidos bem abertos, de olhos bem abertos, deixar-se levar por Stoklos e sua habilidade de abrir um portal para além do espetáculo ao qual nos acostumamos como moscas em uma janela fechada. Ali, deixamos de ser moscas, voamos como pássaros até o espírito aquietar-se aos poucos. Rimos, rimos muito, sabendo que todo riso é o mais intenso desespero e choramos, choramos, como se o intenso desesperar da vida, nos devolvesse uma solidão necessária.

A dor de existir de Kafka é tratada como a dor de existir de todos. A dor de existir da arte, do teatro, do povo brasileiro. Denise Stoklos, obrigada por nos deixar saber que Kafka é nosso.

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