A Bahia, o tempo e meu próximo romance

A Bahia, o tempo e meu próximo romance

Não sei como vou enlaçar esses três temas em um único texto, talvez o resultado seja um laço torto. Mas como estou em casa, na minha Coluna Torta, vamos em frente.

Estive na Bahia. Mergulhei de olhos abertos na escura Lagoa do Abaeté e lá dentro é surpreendentemente verde-limão. O areal branco do entorno arranca nosso coração de tanta beleza. Também provei lambreta, amendoim cozido e cocada-puxa. Quitutes e sorrisos saltitavam a todo instante.

Salvador é tão diferente de Fortaleza, onde nasci. Não sei por que o imaginário sudestino e sulista insiste em homogeneizar nosso sotaque, nossa cadência, nossas construções simbólicas e físicas. No Ceará nem na Bahia dizemos: Ó, xente, bichinho!. Com caras e esgares pantomímicos e a mão na cintura. Com uma pureza ridícula vista como “autóctone” definindo toscamente o personagem nordestino inventado pelo Projac.

O Nordeste é um continente tão imenso, que nem eu, que sou nordestina, nascida e criada, conheço dez por cento da sua diversidade. Um pernambucano é tão diferente para mim quanto um gaúcho. Mas vamos voltar à Bahia.

O mar da ilha de Itaparica é verde-transparente e lá, à noite, você pode degustar licores à base de cravo-da-índia e confessar segredos cabeludos a desconhecidos. De dia, você pode, inclusive, em um mergulho mais ousado, perder a parte de cima do seu biquíni. E depois do estrago, cair na gargalhada.

Em Salvador, passei os dedos (era proibido) no trono de Dom João VI e pensei: “Aqui pousou a mão de um assassino”. Fui ao bicentenário Ilê Axé Opó Afonjá onde há muito tempo o Sartre e a Beauvoir fizeram visita. Onde Jorge Amado costumava acessar sua espiritualidade. Depois, comi moqueca de siri mole. E se eu estivesse no corredor da morte, o último prato que pediria seria moqueca de siri mole.

Falando em morte, vamos ao tempo. Não faz dois dias, fiz quarenta e seis anos. Sendo muito otimista, estou na metade da vida. Já deve haver uma rua que escurece ao pôr do sol em que passei pela última vez, um livro na minha estante que jamais lerei, uma porta que se fechou para sempre, um espelho que me esperará em vão, o lago, o Rhone, a captura do idioma tecido entre pássaros e rosas do Persa, esse vasto ontem, tudo em breve estará tão perdido como Cartago e será queimado pelos romanos com fogo e sal, como no consagrado poema Limites do Borges.

Vivi uma infância adultizada, infringida por um luto atroz, tão pequena e já me demorava nas plantas dos canteiros do meu prédio, no térreo, rasgando e cheirando a seiva das babosas pensando em como burlar uma dor sobrenatural. Na adolescência caí rápido em mesas de bares, e, uma amiga me lembra, de que eu me sentava diante de desconhecidos e pedia a eles que me contassem suas histórias. Morei em praias, me alimentava basicamente de arraia, descavava a pele de tanto sol.

Afinava as sobrancelhas, usava sapatos prateados para ir a shows de rock pesado, fumava mil cigarros picados, pintava o cabelo de vermelho à la Christiane F., ia mal em álgebra e química orgânica. Depois, em um redemoinho, vislumbrei vitrines em Paris que expunha idosos bebendo café solitários, assisti a aulas de sociologia na Sorbonne, ia ao cemitério ver a tumba do Jim Morrison, ia a festas na École d’Architecture, onde, lembro, tive que explicar a um francês, chamado Guillaume (gnomo?), que nem todas as brasileiras eram prostitutas ― nada contra a profissão.

Depois morei nos Estados Unidos no ano em que as Torres Gêmeas caíram, e saí de lá adesivada com uma etiqueta laranja, que adiante, fui saber, significava “Alerta de Terror”. Minha mala toda aberta, a única do avião inteiro a ser escolhida, o policial revistando minhas calcinhas, meu diário, de onde escapuliu a foto da minha mãe. Eu tinha que assistir a toda aquela devassidão violenta, quieta, sem me mover, please, Miss Pontes.

Lembro de cuspir no solo imperialista antes de subir a escada do avião que me levaria de volta ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro, o português chiado amolecendo as minhas vértebras tensas, o calor arrefecendo meu pulmão congelado. Lá no Rio fiz faculdade, amigos para a vida inteira e me constituí como jovem adulta. Via três filmes nacionais por dia enquanto não estava na farra ou na faculdade. Escrevi então meu primeiro livro, em Copacabana.

Janus me vigiando, como no poema supracitado do Borges, e já estou há dezenove anos em São Paulo, com duas filhas de quase oito anos de idade, um companheiro e uma gata preta, algumas plantas malcuidadas e um amontoado de pastas com textos, rabiscos e notas, que se empilhadas, vão dar no teto de casa. É curioso: o tempo passa e não podemos tocá-lo, ele escapa ou simplesmente não existe.

O que não existe ainda e está em vias de existir é meu próximo romance, Vida doçura, uma história quase policial, quase autoficcional, quase maternal, quase. Doeu tanto para escrevê-lo. O processo de escrita durou só três meses. Mas o tempo de edição foi de mais de dois anos ― ao contrário do meu romance anterior, Os tais caquinhos, que demorei cinco anos escrevendo e um mês editando. Estou animada, mas ansiosa. Não é fácil peitar seus medos e dizer a que veio, mostrar sua cara, seu nome, deixar-se vulnerável, abrir um flanco, servir-se de bandeja aos urubus sem nome, em um mundo digital cada vez mais cruel.

E tem a “coisa” do segundo romance quando o seu primeiro teve uma acolhida calorosa. Uma escritora mexicana que admiro imensamente, Valeria Luiselli, disse em uma palestra que é um desafio enorme escrever o segundo romance. Muito mais do que o primeiro. Porque no primeiro você está livre, existe um campo aberto e florido de ideias a sua frente. Você não deve nada a ninguém. No segundo, já existe uma espécie de contrato com seus leitores. Afinal, você não pode decepcioná-los.

Ao mesmo tempo em que o autor não quer repetir fórmulas já usadas em seu primeiro romance, ele quer inovar e manter o laço íntimo que já fez com seus leitores. Ou seja, é algo estranho e difícil como mergulhar no mar pelada em plena luz do sol.

Vamos voltar para a Bahia e ao famoso acarajé da Cira, que mais me lembravam macarrons. Para mim, cearense que sou, a Bahia é um mistério. Eu precisaria de cem anos para começar a entender a Bahia, o verbo barroco e enigmático da Bahia.

Não à toa a maioria dos meus artistas prediletos vêm de lá. Caetano, Bethânia, Raul Seixas, Tom Zé, Gal, Glauber, Caymmi, Wally Salomão. Que deslumbramento de experiência humana eu vivi por somente oito dias! Fiz até um poema fraco em elegia à Bahia quando voltei para São Paulo. Saiu capenga, torto, como tudo que sai de mim. Mas felizmente sai. Viva a Bahia, viva o tempo de Borges, viva meu romance que está por vir! Viva.

*Tradução dos trechos do poema Limites de Borges por Millôr Fernandes

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