Aprender o silêncio

Aprender o silêncio
(Arte Revista CULT)

 

Por Solange Lima Sarruf

Empatia parece um tema muito interessante para debate, pelo seu contexto tão generalizado, que, de uma forma geral, é definida como uma qualidade, uma forma elevada de sentimento que leva ao altruísmo, se colocar no lugar do outro, perdoar, compreender. Parece ser a solução de todas as desigualdades sociais, dos preconceitos, das relações sociais.

Existe o empático em relação à humanidade, aos animais, à natureza. Olhar um animal abandonado ou em cativeiro desperta um sentimento muito próprio em quem os enxerga; colocar-se no lugar do outro nem sempre é bom porque enxergamos também suas sombras e nossas limitações.

Colocar-se no lugar de uma criança em ambiente de risco, sentir a violência não só como uma reportagem, um acontecimento.

Clarice Lispector traduz muito bem o que falo: “Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, o nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque quero ser o outro.”

Ser empático em tempos de divergências é ser solitário, aprender o silêncio; o outro está distante, o sentimento se perde no distanciamento e no fundamentalismo. A impotência que se sente diante de tantos conflitos em que a sexualidade é mais importante que a miséria.

É sentir o abismo de alunos que, ainda hoje, com tanta ostentação tecnológica, habitam sem saneamento básico, perdem os dentes na adolescência, desistem da escola, desistem de apanhar, partem para o que é possível…

O empático pode deprimir, perder seus mecanismos de defesa e no grande jogo da vida acaba sendo o perdedor; aquele que sofre e se lamenta porque não consegue um riso fácil.

A empatia merece um olhar mais empático.

Solange Lima Sarruf, 55, professora e orientadora pedagógica da rede municipal em Nova Friburgo-RJ 

 

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