Anatomia da dor

Anatomia da dor
Guto Muniz

Eu descobri que o livro seria eu. O único tema do livro é a escritura. A escritura sou eu. Então, eu sou o livro”.
(Marguerite Duras a respeito de
La douleur).

As menções mais antigas feitas ao herói aqueu Filoctetes – que, ao desembarcar na ilha de Tênedos, enquanto comandava sua esquadra rumo a Troia, foi picado por uma serpente e abandonado logo depois na ilha de Lemnos, por Odisseu e Agamêmnon, em virtude das dores que o faziam gritar e do forte odor que exalava de sua ferida – são as epopeias homéricas. O canto II da Ilíada faz duas menções ao “sapiente arqueiro”. Primeiramente, Homero afirma, nos versos 721-723, que ele “padecia de um tormento atroz em Lemnos, ilha onde aqueus o abandonaram: ulcerava da chaga horrível da hidra tétrica”, mencionando nos dois versos seguintes que “argivos logo se lembrariam, junto às naus, de Filoctetes”. Já os versos 185-188 do canto III da Odisseia registram que “os mirmidões também voltaram [para casa], sob o comando de Neoptólemo Aquileu; o Peântio Filoctetes igualmente” (ambas as traduções dos poemas homéricos aqui são de Trajano Vieira).

É a informação dada na Ilíada de que os gregos haveriam de se lembrar do herói durante o longo tempo que durou o cerco a Troia – já que sem suas flechas, presenteadas por Héracles, a cidade não poderia ser tomada, conforme havia vaticinado Heleno, filho de Príamo – que converte o tratamento épico da narrativa em torno do personagem em matéria trágica. Sófocles (497/6-406/5 a.C.) escreveu duas tragédias sobre o guerreiro: Filoctetes (409 a.C.), que chegou até nós, e uma obra anterior da qual só restam fragmentos, Filoctetes em Troia, que provavelmente trata da cura da ferida do protagonista e de seu triunfo sobre Páris, a quem, segundo a lenda, matou com uma de suas flechas certeiras. (Uma possível interpretação para a etimologia do nome do herói – “phílos”, amigo, e “ktétes”, do verbo “ktâsthai”, possuir, adquirir, angariar – seria “aquele que estima muito o que possui”, no caso, suas flechas).

Tomando por base a penúltima peça escrita por Sófocles, o ator e diretor Vinicius Torres Machado concebeu o experimento cênico Filoctetes em Lemnos, no qual parte de um episódio excruciante ocorrido com sua própria saúde há cerca de duas décadas para estabelecer com o texto sofocliano uma imprevista interlocução a respeito da agonia de um tormento físico difícil de esquecer. Mas vale ressaltar que, embora a identificação entre intérprete e personagem seja bastante estreita – ambos são acometidos por uma ferida que os expõe, em toda amplitude semântica, à experiência da dor –, não é sobre ela exatamente que está assentado esse Filoctetes em Lemnos. Algo muito distante da tentação narcísica implícita em muitos experimentos que fazem uso, hoje, da onipresente dramaturgia do eu ocorre aqui.

Talvez porque Vinicius, contrariando a opinião de Edmund Wilson, que declara a respeito do mito de Filoctetes que ele “não está entre aqueles que excitaram a imaginação moderna”, tenha se deixado mesmo contagiar pelo arquétipo do herói ferido, concebendo uma forma teatral totalmente afeita à invenção, à qual chega fazendo o drama tanger a tragédia e esta dedilhar a épica. Em conversa com este crítico, o performer afirmou: “Eu fiz um estudo do teatro grego no meu pós-doutorado na Bélgica e comecei a trabalhar sobre a ideia de que foi Sófocles quem inventou essa história de Filoctetes estar sozinho na ilha. Em Homero não aparece isso. Aí pensei em fazer uma peça antes de Neoptólemo e Ulisses chegarem para resgatá-lo. Sou diretor aqui no Brasil, mas lá pude ter a coragem de me colocar em cena porque faz uns vinte anos que quero apresentar no palco alguém sozinho convivendo com a dor. Eu já havia tentado algumas experiências, mas tinha dificuldade de me expor. De expor o corpo. Aí, lá longe, a coisa aconteceu”.

Instalado em um espaço cênico que evoca um fim de mundo cujo efeito é hipertrofiar a condição de seu isolamento (reforçado pelo negrume latente da iluminação), o performer vive – seja pela nudez, seja pela mudez, seja ainda pela quase total inação, que beira a astenia – a condição de uma solidão selvagem. “Um homem sem amigos, sem cidade, um cadáver entre os vivos”, dirá dele Odisseu no texto-matriz. Simetricamente, Vinicius-Filoctetes encontra-se, aqui também em um limiar: à beira da vida, por um sopro da morte. Reduzindo o modo de seu ser, sua existência, ao modo de sua presença, uma coisa a ser vista, perscrutada, examinada, ele oferece o próprio corpo em exposição como o morto-vivo que já foi e de cuja memória guarda algumas cicatrizes. Assim é que o espetáculo é uma espécie de lição de anatomia, em que, arremedando Rembrandt, o atuante disseca o corpo de modo a revelar a fisiologia de uma dor da alma.

É possível pensar que há algo de lutuoso na empreitada – o que a aproxima da matéria trágica (“A tragédia é um poema sobre um túmulo”, diz Teofrasto (372-285 a.C.), discípulo de Aristóteles) e ao mesmo tempo a afasta dela, por se tratar de um luto interrompido, irrealizável, impossível porque dramaticamente vencido. Mas há algo de lamentoso também – um lamento eloquentemente sublinhado pelo silêncio da cena, interrompido poucas vezes por ruídos ensurdecedores. Se como afirma Lessing a respeito da personagem (embora o absolva em sua linha de raciocínio), “nós desprezamos todo homem a quem uma dor física arranca um grito”, à plateia cabe honrar a expressão silente dessa dor.

À saída da sessão, o público ganha um pequeno livro de 61 páginas – “Sobre como encenei meu pé” – que, com sua prosa imoderada, catártica, envolvente, configura-se na expressão do que ao verbo foi permitido dizer. Trata-se de um belo material complementar ao espetáculo. Que amplia a percepção dele, e o dignifica ainda mais. Filoctetes em Lemnos provoca uma questão absolutamente contemporânea: a legitimidade do auto testemunho e sua interlocução com o cânone literário. A instigação dessa experiência-limite, vencida aqui pela firmeza de propósitos, é dar forma à ferida inscrita no corpo e no espírito, desejando extrair dela alguma beleza. Dar forma à ferida aberta. Como a flor (segundo canta o poeta) também o é.

FILOCTETES EM LEMNOS

Concepção geral e performance: Vinicius Torres Machado

Direção e criação: Marina Tranjan

Cenografia: Eliseu Weide

Desenho de som e criação: Pedro Canales

Iluminação: Wagner Antônio, Dimitri Luppi

Welington Andrade é bacharel em Artes Cênicas pela Uni-Rio, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da Faculdade Cásper Líbero.

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