O tradutor do pensamento mágico

O tradutor do pensamento mágico
O escritor, filósofo, ativista e líder de seu povo, Ailton Krenak (Foto: João Kehl/Revista Cult)

 

Quando Ailton Krenak pintou a cara de jenipapo, em plena Assembleia Nacional Constituinte, em setembro de 1987, estava produzindo uma imagem histórica, síntese da luta dos povos indígenas pelos seus direitos no Brasil. “Sangrei dez anos por conta daquele gesto”, diz ele. “Aquele protesto não pode ser reproduzido, revisitado. Mesmo nos dias de hoje.” Difícil esquecer o contraste elegante de seu paletó branco e o rosto pintado de preto. Foi o ponto alto da vitoriosa campanha das mais de 300 etnias indígenas que vivem no Brasil pelo direito simples de existir. O feito, inédito, está inscrito na Constituição de 1988: o direito de existir como povo, cultura, território, modo de vida.

Agora, esse direito está novamente ameaçado pela destruição acelerada da floresta. O governo Bolsonaro planeja grandes obras na Amazônia sem consultar os índios, incluindo a regularização do garimpo e da mineração em suas terras, além de promover o desmonte ostensivo da política ambiental e dos órgãos de fiscalização, como a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A retórica inflamada do presidente pela assimilação dos povos indígenas à “sociedade nacional”, como se eles fossem ameaças à “soberania nacional”, coloca ainda mais gasolina nessa queimada. 

Aos 66 anos, Krenak segue resistindo. Lançou este ano o livro Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras) e vive intensa agenda de palestras, entrevistas e eventos. De sua aldeia Krenak, às margens do rio Doce, em Minas Gerais – ecossistema destruído pela lama da mineração –, o filósofo, escritor, jornalista, ativista e líder de seu povo circula pelo mundo orientado pela intuição e por seus sonhos, com a urgência de traduzir para os brancos fragmentos da cosmovisão dos povos indígenas. “Quando os índios falam que a Terra é nossa mãe, dizem ‘Eles são tão poéticos, que imagem mais bonita’. Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados no corpo da Terra. Somos terminal nervoso dela. Quando alguém fura, machuca ou arranha a Terra, desorganiza o nosso mundo”, diz Krenak em entrevista à Cult, realizada em outubro passado, em São Paulo. 

Como é ser guiado por um pensamento mágico?

Tem um povo que vive na região do vale do Mucuri, em Minas Gerais, os Maxacali. Eles são vizinhos dos Krenak, que estão na bacia do rio Doce. Nosso território, nossas florestas, foram devastados. O gado entrou lá no começo do século 20. A única coisa que os mineiros sabiam fazer era derrubar mata, botar boi e fazer garimpo. Os nossos parentes Maxacali continuam até hoje cercados por todas aquelas fazendas, sendo moídos por aquela violência colonial em volta deles. Mas 90% deles não falam português e se negam a aprender português – como uma maneira de continuar vivendo neste mundo, que são capazes de recriar todo dia. Eles dão nome a todas as plantas e animais que existiram naquela paisagem antes de ela ser destruída. Cantam para eles, invocam a presença deles e criam um mundo animado para poder habitar. Os Krenak foram várias vezes arrancados da beira do rio e jogados em outros sítios, outros lugares, e tivemos que fazer o mesmo. Tivemos que criar um mundo para poder habitar, paralelo a este que vocês habitam no cotidiano. É uma orientação que pode ser pensada como mágica, mas na verdade é o nosso modo de vida. Enquanto perseverarmos nele, vamos continuar sendo quem somos. Essa experiência de experimentar uma consciência coletiva é o que orienta as minhas escolhas. Se alguém me chama para fazer uma viagem a algum lugar do mundo, eu espero sonhar com aquilo. Se eu não sonhar com a viagem ou com um convite pra sair desse lugar, significa que eu não vou. Nunca sei o que vou fazer. Da mesma maneira que nunca preparo o que vou falar em lugar nenhum. 

É uma “inconstância da alma selvagem”?

É uma forma de preservar de alguma maneira a nossa integridade, a nossa ligação cósmica. Estamos andando aqui na Terra, mas andamos em outros lugares também. E a maioria dos parentes faz isso, todos fazem. É só você olhar a produção de alguns desses indígenas mais jovens que estão hoje interagindo com o campo da arte e da cultura, publicando, falando. Você percebe neles essa perspectiva coletiva. Não conheço nenhum sujeito de nenhum povo nosso que saiu sozinho pelo mundo. Isso sugere que todo mundo anda em constelação. E eu também. É como se fosse um módulo que te conduz. 

Com o que você tem sonhado ultimamente?

Tenho sonhado com uma sequência tão absurda de desastres que me lembra quando eu era jovem e encontrava os velhos, principalmente quando comecei a visitar as aldeias nas florestas do Acre, de Rondônia, e os pajés diziam: “Vocês precisam tomar cuidado porque o mundo está invadindo a nossa existência”. Invadindo. Eu ouvia os velhos falarem isso há 40 anos, como um espectador. Até que também comecei a ter os mesmos sonhos premonitórios que eles, ao olhar as estradas, os tratores e as motosserras chegando; o barulho delas derrubando as grandes árvores, a revolta dos rios, os rios falando. Às vezes com raiva, bravos, às vezes com sentimento de ofensa. Nós acabamos nos constituindo como terminal nervoso do que eles chamam de natureza. Meu corpo pode ter uma reação de vomitar se eu escutar o barulho de uma motosserra. Aquele barulho pra mim é uma ameaça. O fedor do diesel, de gasolina. São cheiros envenenados. 

Você é um tradutor entre dois mundos que estão novamente em conflito extremo, com um deles querendo acabar com o outro. O que é possível traduzir neste momento? 

Fazer essa mediação entre os que vivem fora e dentro deste mundo cheio de racionalidade é ocupar um lugar de constante conflito. Não é confortável. Acredito que nenhum dos meus outros irmãos que tenha que fazer isso se sinta bem. É uma constante fustigação do espírito para ter ciência de onde se está, não se confundir e ficar perdido, saber de onde veio e ter alguma perspectiva de para onde se está indo. Cada um dos nossos povos têm um conduto e, se você ficar nesse lugar, relaciona-se com outros mundos sem tanta aflição. Mas é uma experiência involuntária também. Entendemos que muitos de nós nascem com essa habilitação. Tem gente que nasceu pra ser caçador, tem gente que nasceu pra ser guerreiro, ficar ali segurando a porta do território convocando o povo, convocando tudo o que ele pode para resistir nesses lugares. Esse é o lugar de onde a gente fala e habita. A gente não fala de qualquer lugar. No livrinho Ideias para adiar o fim do mundo, eu estava experimentando a ideia de compartilhar com outras pessoas – que vivem nessa realidade de um mundo prático – que existem outros mundos. Se conseguirmos fazer essa comunicação, já distendemos um pouco o lugar que habitamos. Esse mundo pragmático em que a gente coexiste é um lugar de passagem de outros povos, outras mentalidades e culturas. E não existe só este mundo de concreto, ruas e cidades; que imprime no corpo da Terra a marca dos homens como se eles fossem a única existência inteligente e sensível. Se você conversar com os sábios dos Krenak, dos Guarani, dos Xavante e perguntar “O que quer dizer o nome do seu povo?”, eles vão dizer “ente humano”, “nós”, desmantelando a ideia de indivíduo e dando oportunidade de conversarmos com o rio, com a montanha, com outros seres que não são os eletivos humanos. Porque alguém elegeu este lugar como se fosse um clube. E, se você quiser fazer parte desse clube, vai reforçar a predação do planeta andando pelo mundo como se fosse a única inteligência viva da Terra. É uma racionalização absurda do pensamento. É isso que tem sido denunciado como uma espécie de humanidade-zumbi, uma humanidade petrificada que nem sabe o que está fazendo, mas continua fazendo. E isso incide sobre o mundo de maneira tão brutal que chegamos ao ponto de estarmos agora com esses mundos em colisão, como se não pudesse existir mais nenhum lugar da Terra que essa humanidade não possa invadir. É uma mentalidade que também é alimentada por uma cosmovisão. E não são só os povos originários que têm cosmovisão. Os norte-americanos brancos que foram colonizar o norte da América e vieram implantar a semente do capitalismo, que assumiram esse lugar de agentes colonizadores do planeta, também têm uma cosmovisão.

Que cosmovisão seria essa?

É muito atraente porque é emoldurada pela ideia da mercadoria que o capitalismo imprimiu na mente e no coração das pessoas como uma religião. A principal religião do mundo hoje é o capitalismo. O deus deles é a mercadoria. E nas religiões dos brancos tem uma história de que nos primórdios dessa humanidade que se espalhou pelo planeta como uma praga, o deus deles ficou muito bravo e destruiu aquele mundo com um dilúvio, porque o mundo estava sujo. Criou, então, um mundo novo, mas aquela humanidade já tinha essa doença de buscar a mercadoria em algum lugar. Ao longo da história desses brancos, na cosmovisão deles, também já houve um fim de mundo, e eles olham para nós com estranhamento quando falamos em fins de mundo, porque não têm memória. Como diz Davi Kopenawa no livro A queda do céu (Companhia das Letras), os brancos escrevem livros porque têm o pensamento cheio de esquecimento. Acho essa frase de uma sabedoria tão maravilhosa, porque ele está dizendo sobre uma humanidade que esqueceu quem é. Foi cooptada. Isso que a gente chama de capitalismo, na Idade Moderna, já existia no coração dessas pessoas, porque o mito de origem dos brancos é um mito de dominação da Terra. O deus deles mandou eles dominarem a Terra. Então eles são obedientes, só estão fazendo o que foi mandado. Os povos nativos de vários lugares do mundo resistem a essa investida do branco porque sabem que ele está enganado, e na maioria das vezes tratam ele como um louco. Sempre olhei essas grandes cidades do mundo como um implante sobre o corpo da Terra. Como se pudéssemos fazer a Terra diferente do que ela é, não satisfeitos com a beleza dela. A gente deveria é diminuir a investida sobre o corpo da Terra e respeitar sua integridade. Quando os índios falam que a Terra é nossa mãe, dizem “Eles são tão poéticos, que imagem mais bonita”. Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados no corpo da Terra. Somos terminal nervoso dela. Quando alguém fura, machuca ou arranha a Terra, desorganiza o nosso mundo. Em Ideias para adiar o fim do mundo, eu estou invocando um pensamento amplo que existe em muitos lugares do planeta, naquelas vilas remotas do Pacífico Sul, lá no Ártico, na Terra do Fogo, em toda essa extensão que a gente acha que é o continente americano; na Europa, na África, na Ásia, onde ainda existem muitos mundos por vir. As ideias para adiar o fim do mundo na verdade são uma janela para outros mundos possíveis. Lembro que na década de 1990 eu via aquela convocatória para aqueles encontros, o Fórum Social Mundial, com uma esperança muito grande de que aquela concentração de pessoas do mundo inteiro pudesse funcionar como uma escolinha de reeducação das mentalidades. Mas aquela proposta não teve a potência e a coragem de confrontar o capitalismo, e o que a gente viu de lá pra cá é o capitalismo impregnando o mundo feito a lama tóxica da mineração que hoje vive na beira do rio Doce, onde vive minha família, meus netos, meus filhos, as pessoas que andam comigo.

Dá pra fazer esses mundos diferentes coexistirem sem uma cosmovisão compartilhada?

Se você imaginar que o tempo de constituir um passo na direção de uma cosmovisão compartilhada demora eras, estamos com pouco tempo pra isso, porque a constatação é que estamos diante de um colapso socioambiental. Como se um paradigma fundamental para a ideia extrativista dos humanos no planeta estivesse se encerrando com um aviso: não dá mais, vocês não podem mais arrancar petróleo, água e floresta porque esse planeta não suporta mais a presença de vocês aqui. Como vamos trabalhar no caminho de integrar visões de mundo se estamos numa contagem regressiva da nossa permanência na Terra? A fé na ciência e na tecnologia está iludindo as pessoas. A queda do céu, do Davi Kopenawa, e A terra inabitável, do David Wallace-Wells (Companhia das Letras), falam da mesma coisa, e um nasceu em Nova York e outro em uma floresta na fronteira com a Venezuela. Eles não têm nenhuma troca cotidiana de opinião sobre o mundo, mas os dois, por caminhos diferentes, chegaram à mesma conclusão: estamos num fim de mundo. Pelo menos desse mundo que todo mundo acha que pode saquear. Se você olhar um lago que não recebe água de fora e acompanhar ao longo do tempo o que acontece com ele, vai ver que aquela água apodrece. Estamos passando por uma transformação assim no planeta, mas a maioria das pessoas não está vendo. Se tem uma parte de nós que acha que pode até colonizar outro planeta, significa que eles ainda não aprenderam nada com a experiência aqui da Terra. E eu me pergunto quantas Terras vamos ter que consumir até essa gente entender que está no caminho errado.

É o alerta que você faz no livro Ideias para adiar o fim do mundo.

No livro, falei de uma inquietação que eu e o meu povo sentimos, porque nós estamos vendo a terra fugir debaixo dos nossos pés. O Watu, nosso rio, esse que no mapa aparece com o nome de rio Doce, foi massacrado ao longo de aproximadamente 200 anos até ser posto em coma. Nós cantamos para o nosso rio, continuamos conversando com ele – e ele, em sua cumplicidade com a gente, entra nos nossos sonhos e vem nos curar enquanto velamos o seu corpo, enlameado. E os engenheiros, os brancos, ainda insistem nessa conversa fiada de que vão bombardear o rio com remédio pra ele sarar. Isso é mentira. Eles não sabem fazer isso. A única potência capaz de restaurar o rio Doce é a Terra, mas ela tem que estar com saúde. Se estiver doente, o rio não vai se recuperar. Se continuarem agredindo o rio, ele vai refletir a nossa agressão. É isso que o Watu ensina aos filhos deles nos sonhos. O branco chegou e começou a tirar a floresta, deixou o rio nu, exposto a essa circulação humana em volta dele com estradas de ferro, barragens, com toda essa agressão. O rio tem um corpo igual ao meu e o seu. 

Ailton Krenak (Foto: joao_kehl / Revista Cult)
“Quando este mundo acabar, nós vamos assistir. Porque sabemos onde estamos” (Foto: João Kehl)

Em 2015 você deu uma entrevista afirmando que aquele era o pior momento para os indígenas no Brasil. Continua com a mesma opinião? 

Ali a gente vivia o enunciado do pior momento, com aquela tentativa de desmanchar o reconhecimento territorial indígena ocorrendo no campo do Legislativo, das negociações políticas. De 2018 para 2019 entramos numa terra sem lei. Então é pior numa terra sem lei. Antes tinha lei. Antes eles tinham que fazer uma medida provisória, tentar fazer uma emenda na Constituição, mas agora não precisam de mais nada disso. Simplesmente botam fogo na Amazônia, param de demarcar terras, extinguem a Funai, acabam com o ICMBio. É uma descarga de arrasar. E 2015 foi um prenúncio disso.

Qual o tamanho da ameaça que Bolsonaro representa para os modos de vida dos povos tradicionais?

Eu não gosto de personalizar. O que está acontecendo é uma ruptura institucional tão grande que personalizar isso seria dar muito crédito a tanta mediocridade. Não vejo ninguém com vulto de líder político nem estadista. Se a gente tivesse um estadista que pautasse o país por uma política radicalmente contrária a tudo o que acredito, eu ia dizer que tem um projeto de Estado. Mas hoje o que nós temos são pessoas violentas ofendendo, agredindo, mentindo feito loucos e eu não vou dar resposta a esse tipo de blasfêmia. É melhor ele ir conversar com o Edir Macedo. 

Como vê essa ameaça da assimilação cultural, promovida em inúmeras declarações de Bolsonaro e que visa fraturar a espinha dorsal das comunidades?

Eu penso que cada indivíduo dessa cultura, dessa civilização que veio para cá saquear o mundo indígena, é um agente ativo dessa predação. E eles estão crentes, confiantes, de que estão fazendo a coisa certa. Talvez o que incomode muito os brancos seja o fato de que o povo indígena quer viver colado na terra e não admite a propriedade privada como fundamento. É um princípio epistemológico. O pensamento vazio dos brancos não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo. Acham que o trabalho é a razão da existência deles. Eles escravizaram tanto os outros que agora precisam escravizar a si mesmos. Não podem parar, experimentar a vida como um dom e o mundo como um lugar maravilhoso. O possível mundo que a gente pode compartilhar não tem que ser um inferno, ele pode ser um lugar bom. E o que estamos vivendo no Brasil nos últimos anos é uma espécie de surto capitalista, como uma metástase num organismo que adoeceu. Um organismo que não consegue buscar água pra beber, uma medicina saudável; então come mais veneno, produzindo uma agricultura cada vez mais drogada. Essa espécie de metástase do pensamento do branco sobre a Terra é o maior engano. 

Como resistir?

A longa história de resistência do nosso povo me faz acreditar que, quando este mundo acabar, nós vamos assistir. Porque nós sabemos onde estamos. Os nossos netos, tataranetos, vão sobreviver a essa experiência ruim de desencontro que a gente persiste em manter se repetindo. Esses brancos, eles saíram algum dia, num tempo muito antigo, do nosso meio. Conviveram com a gente, depois esqueceram quem eram e foram viver de outro jeito. Se agarraram às suas invenções, ferramentas, ciência e tecnologia. Eles se extraviaram, saíram predando o planeta. Então a gente se reencontra e há uma espécie de ira por termos permanecido fiéis a um caminho aqui na Terra que eles não conseguiram manter. Ficam horrorizados e dizem que somos preguiçosos, que não quisemos nos civilizar. Como se “civilizar-se” fosse um destino. Isso é bobagem, uma religião deles. A religião da civilização. Eles mudam de repertório, mas repetem a dança. A coreografia deles é a mesma. É pisar duro sobre a Terra. A nossa é pisar leve, bem leve, sobre a Terra. 

O perspectivismo ameríndio do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro trata dessa integração “homem-natureza”. 

Ainda bem que no mundo dos brancos algumas pessoas já conseguiram fazer essa travessia, e de cá, deste outro lado, junto com o nosso povo, traduzem para o pensamento do Ocidente visões como essa, que são chamadas de perspectivismo indígena ou ameríndio. É uma convocatória para pensar de outro jeito, para estar no mundo de outro jeito, admitir outro jeito de estar no mundo. Ou você ouve a voz de todos os outros seres que habitam o planeta junto com você, ou faz guerra contra a vida na Terra. As pessoas que estão guerreando contra o meu povo estão guerreando contra a vida na Terra. Quando me lembro disso, eu me fortaleço, fico forte. E não vejo nada que pode ameaçar este lugar que nós habitamos. 

São mais de 500 anos de resistência, e vocês não estão sós; há o cacique Raoni e o xamã Davi, e há milhares de jovens como a sueca Greta Thunberg, do movimento das greves climáticas.

Outro dia eu vi que alguém publicou uma matéria extensa para ofender essa menina, dizendo que ela estava sendo manipulada. Dizem a mesma coisa do povo indígena. Dizem que o chefe Raoni não sabe o que fala, que os outros mandam ele falar. É uma ofensa contra uma pessoa, um ser coletivo, que ofende a todos nós. Aquela menina e aquele ancião estão falando a mesma coisa. Em línguas diferentes, em lugares diferentes. Então, ainda bem. Já tem dissidência no mundo dos brancos.  

Você é liderança Krenak, jornalista, educador, filósofo. Quem é Ailton Krenak hoje? 

Eu não tenho essa compreensão do que faço. Assim como não planejo o que faço, também não tenho uma compreensão de mim mesmo. Acho que foi o Millôr Fernandes que disse que nunca escreveria uma autobiografia, porque acha cretino. Eu também acho. Procuro ser o mais fiel possível ao meu coração, aos meus ancestrais. Procuro não neutralizar esse lugar, e entender que cada situação que a gente enfrenta desafia a gente a ser jornalista, a pensar, a atuar no mundo, porque estamos nele para interagir com ele. A minha experiência tem mais interesse na vida, não nos papéis que as pessoas interpretam. E evito de toda maneira ficar num lugar de interpretar qualquer coisa. Reconheço alguma continuidade nesse pensamento porque é o que aprendi dos nossos velhos. Eles viveram em outro tempo, mas também tiveram que se refazer pra poder continuar entendendo o mundo e interagindo com o mundo no sentido de expandir a vida, e não reduzi-la a uma mediocridade. Deveria ser a profissão de fé de qualquer pessoa. Atuar no mundo para a vida continuar existindo, não como uma reprodução material da vida, mas como uma continuação da experiência mágica de existir. Em vez de afirmar “Penso, logo existo”, mudar a frase para “Eu estou existindo”. Resistindo. É pra isso que a gente foi feito.

Bruno Weis é jornalista e coordenador de comunicação no Instituto Socioambiental (ISA)


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