A educação deveria ser o fim da humanidade

A educação deveria ser o fim da humanidade
(Arte Revista CULT)

 

Por Henrique Rigo

Andressa chegava atrasada para a primeira aula da manhã quando o galo acabara de desistir de anunciar o apontar do sol. Esbaforida, ultrapassava as fileiras de cadeiras de madeira enquanto ajeitava as bolsas nos ombros. Duas bolsas. Uma delas com cadernos e livros, a outra com comida, roupas, toalha e itens mil para quem passa o dia fora de casa. Até perto do meio dia ela boceja e aguarda o estrondoso sinal. Vai para o trabalho no shopping, almoça e entrega energia. Do trabalho para casa e a companhia do cansaço de quem aos 16 anos precisa de uma assinatura na carteira de trabalho para sobreviver. Andressa não termina o ensino médio.

Igor cresceu mais do que o esperado e aos dez já era menino alto e magro. Puxava das divisas entre CIC e Caiuá sua base e se encaminhava ao colégio no começo da tarde. Durante as aulas era reconhecido pela falta de atenção e pelas vaias que recebia dos colegas. Falasse algo certo, dissesse qualquer besteira, o retumbo era inevitável e certeiro. Queria ser parte do todo, jogar bola, falar sobre garotas e ser respeitado. Amarrava-se às horas sentado na carteira dura e confidenciava a dor à melhor amiga: a solidão. Não passou da sétima série naquela escola e desapareceu levando consigo o bullying sofrido sem ter ouvido perdão.

Douglas acelerava o ritmo das pernas e alcançava uma corrida ligeira para adentrar os ônibus pela porta de trás. Se espremia ao máximo para não ser visto e repetia a dose na volta para casa. A mochila nas costas carregava o peso de um caderno espiral pequeno, insuficiente para anotações de um bimestre. Pedia uma caneta emprestada, um lápis e uma borracha e tinha o não como resposta. Até que desistiu das anotações. Desistiu das aulas como desistia das anotações.

Os três eram de famílias pobres. Os três não conseguiam estudar direito e o desempenho escolar era abaixo da média, mecanicamente estipulada pelas provas de decora-marca-xis.  Os três foram jogados para fora da escola e da educação. Andressa pela condição financeira, Igor pelo bullying, Douglas pela falta de estímulo.

Eles puderam ir à escola, mas não seguiram. Conseguirem ter ido à escola é um privilégio, já que mais de 2 milhões de crianças e jovens estão fora das salas de aula. Conseguir se manter na escola é outro assunto. Exige condições, vontade, exige respeito. A falta dela cobra em troca a automação humana.

A agenda de assuntos é imensa: reforma da previdência, redução da maioridade penal, regulamentação de posse de armas, política internacional, aborto, machismo, feminismo, horário político, fake news. Como debater se não estiver intelectualmente capacitado? Como discutir de forma colaborativa se a escola nos ensina a competir? Como discutir de forma colaborativa se somos ensinados a não pensar?

A educação é o grande FIM da humanidade. Com educação o ser humano é capaz de enxergar o que o cerca, de estudar o desconhecido, de formar um arcabouço que permita pensar sem a indução de interesses alheios. Sem ela, a humanidade está fadada à repetição das desigualdades sociais, ao empobrecimento intelectual que acarreta em mais desigualdade, injustiças e crimes. Todos juntos e ao mesmo tempo. Os assuntos da agenda do parágrafo anterior também. Nem o tempo, nem o mundo param para que alguém se eduque.

Educação é aurora boreal e Cataratas do Iguaçu em beleza. Educação é a chave da cela intelectual oferecida desde o nascimento até o fim. Educação é liberdade e sem educação não há liberdade. Sem educação há um vazio preenchido por promoções de lojas de varejo, de roupas e de ideias prontas que com a educação ninguém iria comprar.

Henrique Rigo, 29, jornalista por formação, escritor por necessidade. Mora em Curitiba

 

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