A ditadura da positividade

A ditadura da positividade
(Foto Liz Dorea)

 

 

Por Lucas Takano Vieira Pinto

Quando andamos pela rua aqui em São Paulo, no horário de almoço, notamos um frenesi característico do paulistano: aquela correria que a ninguém impressiona. São pessoas bem vestidas, usando saltos e camisa social. Enchem os olhos e as calçadas seus passos largos de quem está determinado a almoçar rápido e trabalhar com vigor, tomando o café da tarde para manter-se ativo e bem disposto para continuar seu trabalho e chegar exausto em casa para descansar.

Eu não participo dessa massa. Estou desempregado.

Apesar de ter atividades durante meu dia, há algo que não consigo fazer:
enquanto os trabalhadores, em sua rotina de engarrafamentos, colegas de
trabalho, cafés e atualizações de computador interrompem seu trabalho, eles veem uns aos outros. Aos desempregados, há o fracasso no espelho.

Nenhum desempregado vê o outro senão em raras ocasiões. Não vejo outros candidatos enviando currículos, andando aqui e acolá por entre entrevistas ou networking. São milhões os desempregados. De quem é a culpa de estarem desempregados? Deles mesmos… Deles mesmos? Sim, dirão seus familiares e amigos. É você quem não busca qualificações profissionais, quem não enviou currículos o suficiente, que não se saiu bem na entrevista de emprego, que perdeu a oportunidade. Tudo está em seus ombros, afinal, nos ombros de quem tanta responsabilidade deveria estar?

E o nobre cavaleiro que, mesmo na adversidade, mesmo descontente, ouve as críticas e segue empunhando sua espada para, mais uma vez, encontrar
sua glória. Novamente, parte para a batalha. Há algum acréscimo de desânimo, mas ainda assim vai e tenta. O tempo passa. Angústia crescente.

Nada, absolutamente nada. O que há? Currículo mal redigido? Faltam qualificações? O e-mail foi mal feito? As perguntas são repassadas incessantemente, centradas em si, em seus atos.

Nossa sociedade ocidental contemporânea vive a “síndrome do burn out”.
Depressão e ansiedade são as doenças do século. Medicamentos
antidepressivos e ansiolíticos fazem a cena. Mesmo quem está empregado não está suficientemente bem. A autocobrança é constante, a necessidade de se fazer mais e melhor, implacável. Autoajuda e coaches lembram que você precisa ser mais, precisa mudar, precisa admitir estar errado, precisa…

Esquecemos que vivemos entre iguais. Há um sistema político, econômico,
social que permeiam nossas vidas, entrelaçam vivências e conduzem o país. O erro não é deixar de ser um profissional hands on. O erro, talvez, é não ver que há muito mais explicações sobre o desemprego do que simplesmente jogar a culpa no próprio indivíduo.

Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço, sintetiza que “A lamúria do
indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa
sociedade que crê que nada é impossível”. Eis aqui a ditadura da positividade: esgotar-se na exploração do si. Se não conseguir, é porque não explorou o suficiente. Ninguém melhor para dizer que você não fez o bastante do que você mesmo.

Lucas Takano Vieira Pinto, 24, advogado em São Paulo, SP

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