A atualidade de Henrik Ibsen

A atualidade de Henrik Ibsen
O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) (Foto: Domínio Público)

 

Mesmo antes da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, já se percebia que no Brasil médicos e cientistas (sejam eles da área biológica, técnica ou humana) vinham sendo tratados com desconfiança, às vezes quase como se fossem inimigos do povo. Cada um deles seria uma espécie de Dr. Tomas Stockmann, o médico da peça Um inimigo do povo (1882), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), que tem provas científicas e técnicas de que as águas de sua cidade, uma estação balneária em plena ascensão, estão contaminadas; porém, ao tentar denunciar o fato, ele passa a ser visto como adversário de seus concidadãos. Afinal, vem dos banhos o principal ganha-pão da cidade; são eles que geram empregos e lucros; portanto, ainda que a água esteja contaminada e seja prejudicial à saúde, podendo levar à morte, mais vale arriscar a pele do que a economia.

Esse tem sido também o entendimento de alguns líderes do país, entre eles o dirigente máximo da nação, quando se trata do combate ao novo coronavírus através do isolamento social, que pode quebrar a economia e, consequentemente, levar por terra suas pretensões políticas. O prejuízo econômico é uma certeza; já as mortes, enquanto não ocorrem em grande número, podem ser “justificadas”, como afirmou o atual presidente brasileiro em entrevista recente: “Infelizmente algumas mortes terão, paciência, acontece, e vamos tocar o barco. As consequências, depois dessas medidas equivocadas, vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus”.

Na peça de Ibsen, esses políticos se assemelhariam, a meu ver, à personagem do intendente. Aliás, uma de suas frases caberia bem na boca de alguns políticos brasileiros. Diz o intendente, na tradução direta do norueguês de Leonardo Pinto Silva, da qual me valho neste texto (o livro foi lançado em 2017, pela editora Carambaia, numa caixa com quatro obras do autor): “E tudo isso agora, justo agora, quando a estação está em trajetória ascendente. As cidades vizinhas também possuem certas qualificações para se tornarem estâncias balneares. Não lhe ocorre que imediatamente tentarão atrair para si todo o fluxo de visitantes? Sim, sem sombra de dúvida”.

Bastaria talvez substituir “cidades vizinhas” por um país não tão vizinho, a China, para que o discurso do intendente norueguês ganhasse atualidade, sobretudo se proferido por simpatizantes do presidente brasileiro. Aqui, teorias mirabolantes de conspiração abundam. Nelas, os chineses querem dominar o mundo, o Brasil, a Amazônia e, por isso, teriam propositalmente “criado” o vírus.

Para o intendente de Um inimigo do povo, assim como para muitos brasileiros hoje, o inimigo é na verdade qualquer um que, como se lê na peça, “deseja apenas querelar com seus superiores”, seja por “ira”, seja para tirar o brilho deles. O médico do balneário contesta, contudo, tal acusação leviana alegando que, “[…] como médico, como homem de ciências, tenho pleno direito de…”. Mas, para o intendente, nem mesmo a ciência tem o direito de “expressar qualquer convicção que esteja em desacordo com a de seus superiores”.

É interessante pensar que a Noruega da época de Ibsen não é a que conhecemos hoje: “a Noruega em que nasceu Ibsen era ainda um país pobre e provinciano. Foi na década de 1960, quando se descobriu o petróleo no Mar do Norte, que ela se tornou rica com uma rapidez incrível”, lembra a pesquisadora Tereza Menezes no livro Ibsen e o novo sujeito da modernidade. Assim, o país a que o dramaturgo se refere em algumas de suas peças, como essa em especial, e em seus ensaios satíricos sobre os deputados noruegueses, não era, parece-me, muito diferente do Brasil atual.

Em Um inimigo do povo, diz Menezes, “Ibsen ataca a mentira e a corrupção, mostrando como os cidadãos são manipulados pela imprensa [que divulga o que o governo e os empresários querem ouvir] e pelo poder público, que não quer perder seus ganhos […]”. A peça ataca ainda os empresários, que, supostamente, não poderiam arcar com “sacrifícios além da conta”. O papel dos empresários fica claro em um diálogo entre o intendente, Hovstad, o editor do jornal Mensageiro do povo, e Aslaksen, o tipógrafo do jornal.

Quando o intendente diz que a cidade deverá se submeter a sacrifícios se os banhos forem denunciados, o editor questiona: “A cidade?”. E o diálogo prossegue:

“Aslaksen: Não estou compreendendo… São os banhos…!

Intendente: A uma primeira vista, as reformas apregoadas pelo médico do balneário montam a algumas centenas de milhares de coroas.

Aslaksen: É uma soma vultosa, mas…

Intendente: Naturalmente caberá à comarca obrigar-se a um empréstimo.

Hovstad (põe-se de pé): Não era bem esse o propósito: que a cidade inteira…?

Aslaksen: E haveríamos de recorrer ao tesouro do município? À poupança dos parcos bolsos dos moradores?

Intendente: Sim, meu prezado senhor Aslaksen. Do contrário, de onde mais poderíamos obter os meios para tal?

Aslaksen: Os senhores, proprietários dos banhos, que tratem de descobrir.

Intendente: Os proprietários não estão em condições de arcar com um sacrifício além da conta”.

Ao ser acusado de querer acabar com a cidade inteira ao revelar a contaminação das águas do balneário, o médico desabafa: “De que importa destruir uma sociedade firmada numa mentira? Que ela venha por terra, estou dizendo! Devem ser extintos como praga todos e quaisquer que prosperem na mentira! Pois findarão empestando o país inteiro, de tal sorte que haveremos por merecer a ruína ao final. E caso cheguemos a tanto, digo-lhe do fundo do meu coração: deixem toda a terra erma, deixem essa gente se extinguir!”.

Os teatros estão fechados no Brasil, mas a encenação da peça de Ibsen é oferecida diariamente a nós, espectadores em quarentena.

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de Cem encontros ilustrados (Iluminuras) e Minha pequena Irlanda (Rafael Copetti Editor).


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