O Grande Irmão, de Orwell, é a metáfora perfeita para IA

O Grande Irmão, de Orwell, é a metáfora perfeita para IA

 

O cineasta Raoul Peck observa o mundo por meio de imagens de épocas distintas. Documentarista, ele dirige filmes que não apenas retratam a realidade, mas trazem uma representação dela. Em seu mais recente trabalho, Orwell: 2+2=5, que acaba de estrear no Brasil, Peck utiliza os últimos anos de vida do escritor inglês George Orwell (1903-1950), e sua batalha contra a tuberculose, para refletir sobre a atualidade. Gravemente doente, mas desesperado para terminar o romance distópico 1984, o escritor e ensaísta inglês se torna tanto sujeito quanto lente: um homem lutando contra a morte enquanto disseca a máquina da opressão.

Com o apoio integral dos herdeiros de Orwell, o documentarista recupera seus alertas sobre verdade, poder e autoritarismo justamente porque são muito oportunos para os dias de hoje. O próprio título (2 + 2 = 5), citação de 1984, é uma abreviação da manipulação autoritária da realidade. Em seu estilo característico, Peck entrelaça textos com cenas reais e imagens de filmes clássicos de ficção e entrevistas de arquivo. O resultado surpreende o espectador, que assiste a uma imagem da destruição da Berlim de 1945 seguida com a de Gaza de 2024. Tudo são ruínas. Sobre o filme, que também conta com cenas geradas por inteligência artificial, Peck conversou com a Cult desde Paris, por videoconferência.

Uma dúvida surgiu após assistir ao seu filme: o senhor acredita que a história está destinada a se repetir?
Não, não acredito. Pode haver padrões na história, mas é sempre diferente; claro que existem ciclos, mas, ao final, é sempre diferente porque infelizmente não aprendemos o suficiente com ela. Por isso que acompanhamos hoje semelhanças com a década de 1930 na Europa. As instituições podem se enfraquecer muito rapidamente, e não percebemos acontecer. É como se as pessoas pensassem que Donald Trump simplesmente surgiu do nada: uma surpresa. Não; tem sido uma degradação lenta nos últimos 50 anos, as pessoas é que não estavam suficientemente atentas. Conheço bem isso.

Como assim?
Venho de um país, Haiti, que já viveu uma ditadura – e notei os sinais muito cedo. Aliás, acompanho os franceses lutando contra a extrema-direita desde [o governo do ex-presidente francês François] Mitterrand. E todo ano, antes das eleições, o comentário é: “Temos de fazer algo contra a extrema-direita, precisamos nos unir”. Mas nada é feito; e, a cada ano, a porcentagem de aprovação da direita aumenta. Antes de perceber que faz algo errado, a esquerda continua usando os mesmos slogans e os mesmos termos.

Como o senhor chegou à conclusão de que Orwell era a estrutura narrativa ideal para o filme?
Os herdeiros me ofereceram acesso à obra completa de Orwell, o que foi meu ponto de partida para contar uma história – como faço na maioria dos meus documentários. Não faço biografias. E o extraordinário é que Orwell fala sobre o que estamos vivenciando agora no mundo, pois seu trabalho consistia principalmente em estabelecer o que podemos chamar de mecanismo e conjunto de ferramentas para qualquer desvio em direção ao autoritarismo. Esses mecanismos são sempre valiosos, sempre impactantes. Eles nos permitem analisar o que está acontecendo em cada situação. Quando um país caminha para um comportamento mais autoritário, por exemplo, Orwell nos explicou como tudo começa com a linguagem, com o uso de palavras totalmente desprovidas de significado. Começa com a vontade de reescrever a história, da mesma forma que Bolsonaro, por exemplo, queria fazer em seu país quando promoveu ataques ao sistema judiciário, às universidades, às palavras, aos livros. Esse é o comportamento habitual. E às vezes leva tempo para entendermos os padrões. Aconteceu algo semelhante na Alemanha dos anos 1930, com a ascensão de Hitler: que não chegou ao poder de repente. Foi um processo lento, que durou dez anos. E Trump é exatamente igual.

O senhor diria, então, que a relevância de Orwell não vem da profecia, mas da experiência vivida?
Com certeza. Esse é um dos motivos pelos quais não me interessei por 1984 ou Revolução dos bichos enquanto estava na escola. Nunca me interessei por ficção científica – e foi assim que me apresentaram a obra do Orwell; mas quando você descobre sua verdadeira biografia, entende que tudo o que ele escreveu veio de experiências diretas pelas quais passou. Ele nunca foi um intelectual britânico com seu cachimbo, observando o mundo da biblioteca. Orwell escrevia sobre experiências que deixaram marcas no corpo e na alma. E não se limitou ao Reino Unido, mas a outros lugares também. Imagine se ele tivesse ido ao Brasil e entendido o mundo de uma forma diferente? Orwell nasceu na Índia, foi para Mianmar, Birmânia, presenciou a Guerra Civil Espanhola. Experiências que o moldaram completamente. Ele nunca mirou o futuro, mas escrevia para nos alertar a sermos cuidadosos, a estarmos atentos, a observarmos o que acontece, a sermos dogmáticos e a impedirmos quando necessário o perigo iminente. São lições valiosas. É por isso que não foi complicado adaptar suas palavras ao que estamos vivenciando: porque ele escreveu todo o roteiro da nossa realidade.

Uma curiosidade: por que o senhor decidiu usar IA no filme?
Porque a IA é o exemplo perfeito do que está acontecendo. É perfeito porque Orwell escreveu sobre isso. Não era IA especificamente, mas ele escreveu sobre o fato de que o sistema poderia usar todos os meios de comunicação para nos controlar. E que a própria máquina poderia se tornar um sistema independente. Isso se relaciona com o uso de notícias falsas, a reescrita da história. A IA pode fazer exatamente isso, o que nos leva a duvidar da realidade. É isso que o Grande Irmão faz: esvaziar nossa mente e preencher com o que lhe interessa. O Grande Irmão é a metáfora perfeita para a IA. Provavelmente é a tecnologia mais perigosa hoje em dia porque é extremamente eficiente. É basicamente um novo sistema que pode se criar e criar outro sistema que não podemos controlar. Isso evidencia a falta de regulamentação, assunto que nos interessa. Somos nós, cidadãos, que temos de exigir regulamentação. Caso contrário, estamos acabamos.

Refletindo sobre tal situação perigosa, pergunto: por que tantas pessoas hoje preferem acreditar em mentiras? Será porque a verdade oprime? E porque que as mentiras prometem libertação?
Não acho que prefiram acreditar em mentiras. A situação chegou a um ponto em que não é fazer a distinção. Quem frequenta escola, universidade, pode desenvolver a capacidade de diferenciar uma mentira da verdade. Um trabalhador, por outro lado, mal tem tempo para pensar, muito menos para ler um livro. Chega em casa tarde e cansado. E ouve o noticiário alertando sobre crimes, destruição, um bombardeio diário de más notícias. É difícil resistir. A pessoa vai à igreja e ouve a mesma propaganda. Se a estrutura do Estado, a escola, a universidade, as instituições não conseguem fazer seu trabalho, é claro queas mentiras, como alguém diz no filme, se espalham muito mais rápido que a verdade. E outro aspecto que um populista como Bolsonaro sabe explorar muito bem é dizer uma frase do tipo “essa pessoa é o diabo” sem precisar justificar. As pessoas, hoje em dia, têm menos tempo – e o resultado é que não têm mais capacidade de pensar por si mesmas. Uma vantagem para conglomerados de mídia que, com muitos canais diferentes, conseguem enviar a mesma mensagem para milhões de pessoas.

Há também um impacto econômico.
É uma degradação lenta e impactante. Quando se cortam orçamentos para educação, saúde, universidades, a ignorância ganha mais território. E, mesmo quando as evidências estão diante dos seus olhos, isso é totalmente orwelliano. É como se o Grande Irmão estivesse dizendo que o que você vê não é o que é: dois mais dois é igual a cinco.

Os Estados Unidos sempre foram vistos como exemplo de democracia, mas agora mais se parecem com um regime autoritário. O senhor acredita que um dos muitos impactos negativos do governo Trump é espalhar pessimismo pelo mundo?
Em primeiro lugar, os americanos sempre pretenderam ser o farol da democracia. Eu não diria isso. Venho de um país onde os Estados Unidos apoiaram 35 anos de ditadura. O mesmo aconteceu no Brasil. Assim, considero uma verdade duvidosa porque uma democracia não pode ser parceira de uma ditadura. O que marca nossa atualidade são a fragilidade e a fraqueza de todas as instituições democráticas do planeta. É a definição de um mundo totalmente novo desde o fim da Guerra Fria. O capitalismo venceu a guerra e se renovou. Não há mais fronteiras, não temos mais de um lado o Ocidente e do outro os comunistas. E, por ser complicado, é um terreno perfeito para populistas, porque as pessoas têm medo de complicações e querem respostas claras, fáceis, rápidas. E rotular é uma forma fácil de se livrar de alguém. No meu país, durante a ditadura de François Duvalier, o estudante com cabelo afro era considerado comunista e podia ser preso e morto. É a típica estratégia que Orwell denunciou.

Os jovens costumavam ter seu primeiro contato com a política por meio de partidos de esquerda. Hoje, o fascismo parece mais atraente. O que o senhor pensa sobre isso?
Eu diria, novamente, que é o desenvolvimento dos últimos 50 anos. Lembre-se que, nos anos 1970, com a grande crise no capitalismo provocada pela alta do preço do petróleo, os países ocidentais perderam pela primeira vez sua hegemonia energética. O resultado foram cortes de orçamentos, racionamentos na economia e ataques às universidades, que foram “limpas” de ideias progressistas. Todas as instituições se enfraqueceram. A juventude católica era uma organização muito importante naquela época, assim como os escoteiros. Qualquer instituição tinha uma organização juvenil, independentemente de ideologia. Foi um momento de aprendizado para os jovens que hoje têm dificuldade para se encontrar. O que posso aprender? Mesmo com a internet como ferramenta, tudo é muito vasto. Por isso são alvos fáceis para o bombardeio de entretenimento, cliques fáceis, programas estúpidos. Se não há alguém por perto para guiá-lo corretamente, o jovem está perdido.

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