Com amor, Brenna
Edição do mês
Interna do Complexo Penitenciário Dr. Manoel Carvalho Neto, na região metropolitana de Aracaju (SE) (Arthuro Paganini/Governo de Sergipe)
Alvorada. Por entre brechas, frestas e rastros de pólvora, o cheiro de café se alastra sem pedir licença, perfumando o beco da fome sergipana com seus amores líquidos e violência estrutural. Enquanto sou (co)movida por aromas e passos ancestrais, avisto muros com marcas de bala e manchas de sangue. Cada um deles carrega em si traços de grafites inacabados: vidas interrompidas em nome de uma suposta “guerra às drogas” retroalimentam a fabricação de órfãos, viúvas e mães desconsolados.
A “operação padrão” se põe a serviço daquilo que a constitui: o que faz parte da norma (portanto, do padrão) escapa da bala perdida, afinal, o braço a(r)mado do Estado tem mira e destino certo. No concreto e no fuzil, a pátria com a terceira maior população carcerária do mundo, onde a lógica da punição se sobrepõe à ressocialização, expressa qual o lugar dos corpos dissidentes na frágil democracia brasileira.
No concreto e no fuzil, o projeto de cidadania reservado a corpos dissidentes se encontra atrelado ao encarceramento em massa e à necropolítica, sobretudo quando se destina a quem (sobre)vive nas margens pela encruzilhada, sendo este o lugar de encantamento e força criativa em tempos tão árduos.
Contrariando sentenças, sigo disposta a revirar memórias soterradas e sonhos adormecidos em território demarcado por dívidas históricas, movimento dotado de astúcia, coragem e malícia que me conduz a territórios renegados pela retina da normatividade acadêmica. Se o corpo em movimento gera energia capaz de libertar sonhos e desejos,
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