Mesas sobre inteligência artificial no mercado editorial e lesbianidades e psicanálise marcam participação da Cult na Flip 2025
O que pode fazer a inteligência artificial? Existe uma forma saudável de usar a IA? Quando a máquina escreve por você, quem é o autor? Essas foram algumas das questões discutidas durante a mesa “Toda arte é artificial? Inteligências em debate”, que abriu a programação da Casa Acaso, na Flip, na manhã desta sexta-feira.
O evento reuniu o escritor e tradutor Felipe Franco Munhoz e os editores Schneider Carpeggiani, da editora Autêntica, e Camila Berto, da Companhia das letras, com mediação da jornalista Carolina Azevedo, para discutir o avanço cada vez mais alarmante do uso de ferramentas generativas automáticas sobre o mercado editorial, desde a diagramação, até a produção da capa, revisão e a tradução.
Felipe destaca que um caso recente envolvendo o livro A História das Espiãs da Cia: Secretas e Fatais — da escritora estadunidense Liza Mundy — o levou a desenvolver reflexões mais intensas sobre as inteligências artificiais no mundo editorial. O livro de Liza havia sido lançado no Brasil pela editora Amarilys com uma tradução assinada pelo “departamento editorial da editora Manole com auxílio de ferramenta de inteligência artificial” sem o conhecimento da autora.
Felipe caracteriza como assustador o prenúncio dos novos tempos trazido pelas inteligências artificiais no mundo da criação artística autoral e questiona diante desse cenário “qual é o sentido de ficar anos trancado num quarto, escrevendo um livro sendo que será possível produzir um texto aceitável com o apertar de um botão?” A possibilidade cada vez mais acessível de fazer uso dessas ferramentas pode tornar muito menos atrativo, portanto, o longo processo de acertos, erros e críticas pelo qual um autor tem de passar ao longo de sua vida literária.
Schneider argumenta que isso é parte de um processo em que muitos aspirantes ao mundo da literatura almejam mais a fama do que serem escritores propriamente. “As pessoas não têm a menor ideia do que é escrever um livro ou do que é ser um escritor. Elas querem apenas ter um produto publicado. Isso indica que essas pessoas já funcionam a partir de um pensamento robotizado. A profusão do desejo de aparecer aliada à facilidade de mostrar dá a impressão de que estamos tentando controlar uma represa que já rompeu”, diz.
Para Camila, “talvez para uma pessoa que não está acostumada a ler e lidar com texto, a IA funcione para o que ela precisa, para aquela escrita genérica. O nosso trabalho, enquanto profissionais do livro e da tradução, é tentar mostrar o diferencial humano do que podemos produzir sem a ferramenta”.
A Casa Acaso também recebeu a mesa “Travessias lésbicas na psicanálise”, que reuniu as psicanalistas e pesquisadoras Bárbara Cristina Souza Barbosa, Jéssica Dias e Joana Manassés Penteado diante de um público que lotou o espaço promovido pela Esc. Escola de Escrita e a Ocupação literária de Natal. A conversa explorou a originalidade de um pensamento que sai do isolamento da ilha de Lesbos para tomar o continente fálico da psicanálise.
Ambas as mesas abrem discussões que a Cult continua a movimentar em eventos ao longo do próximo mês, como o seminário “A inteligência artificial e a ética no mercado editorial”, que acontece online gratuitamente entre os dias 25 e 29 de agosto; e o curso “Lesbianidades e psicanálise”, promovido pelo Espaço Cult entre os dias 20 e 23 de agosto.





